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Artigos / Colunas / Gustavo de Oliveira

02/04/2024 às 12:11

Cuidando do próprio quintal

Não é segredo para ninguém que desde o primeiro dia de seu mandato, o Presidente Lula tem se dedicado fortemente à reinserção e ao reposicionamento do Brasil em diversos fóruns internacionais. Depois de colecionar algum protagonismo em agendas com dirigentes de outros países, Lula andou escorregando na verborragia e começou a atrair para si mesmo (e consequentemente ao Brasil) muitas críticas por seus posicionamentos em casos como os dos conflitos entre Rússia e Ucrânia, Israel e Palestina e também em sua dúbia situação entre China e EUA.
 
Mas fato é que em seus cálculos políticos e econômicos, o Presidente busca ao mesmo tempo colocar o Brasil em evidência e se aproximar de países e governantes que se alinham a uma ideologia de centro-esquerda, quase todos eles acuados pelo aumento dos problemas sociais na era pós-covid, muitos deles impulsionados pelos conflitos geopolíticos e novos arranjos comerciais internacionais.

Os amigos de esquerda e centro-esquerda, como o Presidente da França Emanuel Macron, que visitou o Brasil na semana passada, lutam contra um orçamento público cada vez mais apertado para fazer frente às imensas demandas da sociedade em geral, e de seus eleitores em especial. Em seu país, Macron está espremido entre os altos custos de produção do agronegócio francês, que demanda mais proteção do mercado interno a seus produtos, mas também pressionado pelo médio cidadão urbano, que nos últimos anos têm visto uma disparada em seus custos de vida em itens essenciais como energia e alimentos.
 
Importar alimentos de países como o Brasil seria uma solução para segurar a escalada de preços muito mais eficaz e menos dispendiosa do que o congelamento de preços de mais de 2 mil produtos alimentícios feito pelo governo francês em setembro de 2023. Mas isso teria um alto custo político: aumentaria a insatisfação dos agricultores franceses, que já é enorme diante dos seus altos custos de produção, e aumentaria mais ainda a queda do poder de compra dos seus consumidores.
 
Enquanto a esquerda mundial conta centavos e conta votos, os candidatos no espectro de direita vêm avançando em sucessivos países-chaves do bloco europeu, como na Itália, de Giorgia Meloni, e em Portugal, da Aliança Democrática. Essa guinada da direita europeia é impulsionada porque há na Europa, de uma maneira geral, um senso comum avançando com a ideia de que a longo prazo os países com governos mais à direita têm conseguido uma melhor performance econômica do que seus pares de esquerda. Com contas públicas mais equilibradas, suprem melhor as necessidades básicas dos cidadãos e, numa ironia conceitual, conseguem atingir o objetivo central do socialismo, ou seja, o bem-estar social, mas avançando antes por outro caminho: o da prosperidade econômica coletiva.
 
Em junho, os eleitores dos 27 países membros da União Europeia (UE) escolherão quem os representarão no Parlamento Europeu, a única instituição democraticamente eleita do bloco. O fraco desempenho econômico nas principais economias da UE, o descontentamento crescente nas zonas rurais, as alterações climáticas e a migração são questões que vão marcar a campanha.
 
Desde 2021, o custo da energia no bloco Europeu, por exemplo, subiu quase 70% para o consumidor residencial e quase 140% para as indústrias. No mesmo ano, o governo francês adotou o que chama de “escudo elétrico”, um programa de subsídios para conter os efeitos desta escalada ao cidadão. A segunda economia da UE, através de subsídios, limitou o aumento do preço da eletricidade a 4% em 2022 e 15% em 2023.
 
De volta ao início do nosso artigo, no final do primeiro trimestre de 2024, o presidente Lula deve se dedicar mais à sua agenda interna. A proximidade das eleições municipais brasileiras faz com que sua articulação e presença sejam mais demandadas por aliados políticos, mesmo em um momento em que as pesquisas de opinião indicam uma queda de sua popularidade causada especialmente pelo aumento do custo de vida brasileiro nos últimos anos, que elevou o endividamento geral e fez com que o orçamento de mais famílias e empresas estejam no vermelho.
 
Tal qual seus pares mundiais, o presidente olha para o orçamento público e não vê recursos para fazer frente às crescentes demandas sociais no Brasil, e falar em aumento de impostos neste momento pode lhe custar muito politicamente. Mas sem entregar a volta do Brasil próspero que prometeu em sua eleição, seu desgaste aumenta a cada semana e faz com que sua capacidade de influenciar as eleições municipais a favor de seus candidatos seja menor do que o esperado, mesmo em tempos em que seu principal opositor, o ex-presidente Jair Bolsonaro, esteja acuado entre denúncias e acusações.
 
É hora de ficar no Brasil e cuidar do quintal, onde a grama não está tão verde e tem mais ervas-daninhas do que o desejado.

Gustavo de Oliveira

Gustavo de Oliveira
Gustavo de Oliveira é empresário e presidente do Movimento MT Competitivo (gustavo@britaguia.com.br, www.linkedin.com/in/gustavopcoliveira)
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