Cuiabá, quinta-feira, 22/08/2019
08:19:29
informe o texto

Artigos / Colunas / Vivaldo Lopes

28/03/2019 às 23:08

Exuberância Irracional

Em meados dos anos 1990, Alan Greespan, o mitológico presidente do Federal Reserve (FED), o Banco Central americano, utilizou pela primeira vez o termo “exuberância irracional” para descrever a bolha econômica surgida no mercado de capitais americano com o estratoférico crescimento das ações das jovens empresas de internet e tecnologia. Usou o termo para afirmar que as empresas não tinham sustentabilidade financeira na mesma proporção da fama que obtiveram em curto espaço de tempo. O tempo deu razão a Greespan.

Tenho participado de seminários, encontros e colóquios com empresários, analistas econômicos, analistas políticos, estudantes, e uma pergunta tem sido recorrente: qual a razão de tantas empresas ligadas ao agronegócio entrarem em recuperação judicial, se este setor é a locomotiva da economia do Estado, o que mais cresce e o que mais acumula riquezas.

Os dados que analisei confirmam que grande parte das empresas que pediram recuperação judicial tinham como atividade principal o agronegócio, forneciam insumos para o setor ou localizavam-se em cidades que floresceram em torno do agro. Algumas, inclusive, de grande porte, consideradas gigantes do setor.

É inquestionável a força do agro na atividade econômica do Estado. Estudo da Fundação Getúlio Vargas, confirma que a cadeia produtiva do agro responde por 50,6% do PIB do Estado. Dados da economia dos estados divulgados pelo IBGE indicam que no período de 2002 a 2016 o PIB de Mato Grosso teve crescimento médio anual de 4,7%, enquanto o PIB do Brasil no mesmo período cresceu anualmente 2,5%. Nesse período, a atividade agropecuária apresentou crescimento médio anual de 5,9%.

Nos anos de 2005 e 2006 o agro sofreu a maior crise de sua história recente ocasionada por fatores como elevado endividamento, baixa liquidez, aumento dos custos financeiros, redução da demanda mundial e queda de preços. De 2007 até 2018 o setor viveu período de bonanza econômica, com aumento mundial do consumo de commodities agrícolas, puxado pela China, safras recordes, bons preços internacionais e farta oferta de crédito subsidiado. Nesse período consolidaram-se grupos empresariais locais e surgiram novos. Investimentos em pesquisas aplicadas, capacitação do capital humano e intercâmbios internacionais aumentaram exponencialmente a produtividade do setor e elevaram a competitividade das empresas a ponto de torná-las mais competitivas que as dos setores industrial e de serviços. Deixaram de ser simples fazendas e passaram a ser empresas globais. Além disso, o agro teve suas terras, seu principal ativo, supervalorizadas no mesmo período de tempo. Entre 2007 e 2018, de longe, as terras agrícolas foram os ativos que mais valorizaram em Mato Grosso.

Mesmo nesse cenário econômico tão favorável, proporcionalmente, o agro é setor que mais apresentou pedidos de recuperação judicial. Pode ser apenas a depuração natural que o mercado faz. Preserva os mais criativos e competentes e elimina os menos competentes ou que não acompanharam as atualizações tecnológica e de governança que um mundo tão competitivo está a exigir. Pode ser também que o segmento tenha vivido seu período de exuberância irracional e o choque de realidade está demonstrando que as bolhas econômicas têm prazo de validade. Como aliás, demonstra a história econômica, desde a primeira bolha, a das tulipas holandesas até a imobiliária americana de 2008.

Vivaldo Lopes

Vivaldo Lopes
Vivaldo Lopes, economista formado pela Universidade Federal de Mato Grosso. Pós-graduado em  MBA- Gestão Financeira Empresarial pela FIA/US.
ver artigos

0 comentários

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do site. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.

 
Em parceria com Engaje Sitevip Internet