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06/06/2019 às 11:10

Juros surreais

Agentes e analistas do mercado financeiro têm dificuldades em compreender as razões do Banco Central do Brasil para manter a conservadora política de taxa básica de juros muito elevada em ambiente de retração da atividade econômica e inflação baixa. Mesmo diante da forte deterioração da economia e sinais de baixo crescimento no exterior. A inflação domesticada e o país enfrentando a maior recessão de sua história, são fatores que gritam pela redução da taxa de juros. Ainda assim, o Bacen mantém inalterada a Selic em 6,50% ao ano desde março de 2018. Lembro que de 2014 a 2016 o PIB do país sofreu queda acumulada de 7,2% e a inflação anual manteve-se abaixo de 4%.

A principal razão da política monetária é controlar a inflação e manter a estabilidade da moeda do país. A taxa de juros é um importante instrumento para o cumprimento desse escopo da autoridade monetária. Taxa básica de juros alta inibe o crédito que, por sua vez, reduz o consumo e evita o aumento da inflação. Ocorre que a realidade recessiva do país cuidou de reduzir o consumo das famílias, das empresas e do governo, fato que manteve a inflação baixa.

A classe empresarial brasileira criou grande expectativa de que a retomada do crescimento econômico daria os primeiros sinais já no primeiro trimestre deste ano. Essa expectativa transformou-se uma grande frustração com a divulgação pelo IBGE de que o PIB do Brasil teve queda de 0,2% nesse período. As previsões para o segundo trimestre também não são as melhores. O amadorismo da coordenação política do atual governo fez o mercado estabelecer outubro como a data provável de aprovação da reforma da previdência, adiando para 2020 a possibilidade de um crescimento mais robusto da atividade econômica.

A desaceleração da inflação retira qualquer argumento técnico para manutenção da taxa Selic no elevado patamar atual. A inflação do mês de maio deve situar-se próximo de zero e é esperada deflação em junho. O cenário internacional, resultado da insana guerra comerciais deflagradas pelo presidente americano, Donald Trump, contra a China e a União Europeia, sinaliza tendência global de um ano de crescimento e inflação baixos. A cena econômica local mitiga o balanço de riscos da inflação, devendo alterar o discurso excessivamente cauteloso do Banco Central, que pode iniciar movimentos de redução da Selic mesmo antes da aprovação final da reforma da previdência pela Câmara e pelo Senado Federal.

A modernização da previdência sozinha não vai proporcionar crescimento econômico, pois produzirá resultados a médio e longo prazo. Mas é sinalizadora da força política da administração federal e do seu esforço pelo equilíbrio fiscal. Atuará como um gatilho para aprovação de outras importantes reformas, como a tributária e o programa de privatizações que reduzirão o tamanho do estado, podendo torná-lo mais eficiente.

Trabalho com o cenário de que a partir de julho o Banco Central  fará o primeiro movimento de redução da Selic, com a sinalização de aprovação da reforma previdenciária no último trimestre do ano. Em outubro podemos ter nova movimentação que reduziria a Selic para 6%, indicando ao mercado interno e externo que as outras reformas também serão aprovadas, destravando os investimentos que são extremamente necessários para o país sair do ciclo recessivo que nos fustiga impiedosamente desde 2014.

Vivaldo Lopes

Vivaldo Lopes
Vivaldo Lopes, economista formado pela Universidade Federal de Mato Grosso. Pós-graduado em  MBA- Gestão Financeira Empresarial pela FIA/US.
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