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Notícias / Patrimônio

22/02/2021 às 11:31

Acervo histórico da família Mendonça será disponibilizado na internet

Apoiado pela Lei Aldir Blanc MT, o projeto disponibilizará documentos, fotografias e obras de Estevão e Rubens de Mendonça em plataforma digital

Leiagora

A Casa Barão de Melgaço recebeu, ao longo dos últimos 20 anos, preciosos acervos que pertenceram aos seus mais ilustres membros do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e da Academia Mato-grossense de Letras, e que foram doados civicamente pelas famílias ao arquivo da Casa Barão de Melgaço. Duas delas integram o Edital MT Criativo, Projeto Plataforma Digital dos acervos das Famílias da Casa Barão de Melgaço: acesso na íntegra, que recebeu apoio da Lei Aldir Blanc por meio da SECEL-MT, a saber, Família Mendonça – Estevão e Rubens de Mendonça – e Família Rodrigues – Firmo e Dunga Rodrigues. 

Cronologicamente, os acervos abarcam da segunda metade do século XIX, avançando até a segunda do XX. 

A proposta é a de colocar numa plataforma digital o conjunto dos documentos que pertenceram às duas famílias, em sua integralidade, estampando a imagem do documento original, hoje digitalizado. O projeto optou por apresentar inicialmente os titulares, tendo por base suas biografias, e depois introduzir os documentos por Grupos – reunião de peças documentais que indicam os documentos pessoais, documentos de família, produção intelectual, universo de interesse, além do conjunto fotográfico acumulado pelos titulares ao longo de quase dois séculos.

A plataforma digital está sendo desenvolvida seguindo parâmetros dos principais portais brasileiros de referência no campo da história, documentação e pesquisa, para levar o público a navegar pela história de Mato Grosso por meio da organização do conjunto de documentos digitalizados.

Para a idealizadora do projeto, Elizabeth Madureira, “a Plataforma Digital é um meio de posicionar a história do estado na contemporaneidade. Um esforço de divulgação do nosso legado histórico para as novas gerações. À Rubens e Estevão de Mendonça, nosso respeito e nossa homenagem”, afirmou a historiadora.

Estevão de Mendonça

Nasceu em Santo Antônio da Barra, distrito de Barão de Melgaço-MT, no dia 25 de dezembro de 1869. 
Historiador respeitado, integrou o quadro dos sócios fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, em 1919, assim como, na mesma categoria, o do Centro Mato- Grossense de Letras, ancestral da Academia Mato-Grossense de Letras, no ano de 1921. 

Desde a juventude se interessou pelas letras e cultura de Mato Grosso, tendo fundado, em 1896, o Colégio Leverger. Por concurso, ingressou como docente de História e Geografia do Liceu Cuiabano, instituição onde se tornou catedrático. Nesse estabelecimento de ensino foi Inspetor Federal, por nomeação de Ramiz Galvão, à época, Presidente do Conselho Superior de Ensino. 

Mesmo não tendo o título de bacharel em Direito, mas detentor de sólidos e abalizados conhecimentos, atuou como Advogado Provisionado, pertencendo aos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de Mato Grosso. 

Sua produção intelectual foi de peso e, mesmo produzida nas primeiras décadas do século XX, é de consulta obrigatória para todos aqueles que contemporaneamente investigam a realidade regional. É o caso de Quadro Chorográfico de Mato Grosso, trabalho datado de 1906 e utilizado nas escolas de Cuiabá; Datas Matogrossenses, um compêndio volumoso que registrou cronologicamente eventos, personalidades e lugares de Mato Grosso. 

Estevão de Mendonça teve importante colaboração nos periódicos nacionais e regionais, a exemplo do Almanaque de Mato Grosso, Almanaque do Rio Grande do Sul, Almanaque Garnier, além de significativa participação no clássico Álbum Graphico de Mato Grosso. Em conjunto com Antônio Fernandes de Souza, fundou e dirigiu a revista O Archivo, no ano de 1906, a pedido do então Presidente do Estado Antônio Paes de Barros. 

Além de fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, participou, como correspondente, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, dos Institutos Históricos de Alagoas, de São Paulo, do Sergipe, do Pará e do Paraná. Recebeu a Medalha Regnell da Real Academia de Ciências da Suécia. 

Faleceu em Cuiabá-MT, no mesmo mês em que nasceu, aos 2 de dezembro de 1949, aos 80 anos. 

Os papéis produzidos por Estevão de Mendonça foram doados pela família, juntamente com os de seu filho Rubens de Mendonça, hoje depositados no Arquivo da Casa Barão de Melgaço, dossiê Documentos de Família. Graças à Plataforma, sua consulta, na íntegra estará à disposição dos pesquisadores. 

Rubens de Mendonça

Nasceu em Cuiabá-MT, aos 27 de julho de 1915, descendendo de Estevão de Mendonça e de Etelvina Caldas de Mendonça. Seus estudos iniciais foram realizados junto ao Grupo Escolar Barão de Melgaço, tendo como primeira professora Tereza Lobo de Queiroz, educadora de escol. Foi um dos grandes expoentes da literatura e poesia modernas, colaborando também de forma expressiva para a historiografia mato-grossense. 

Como jornalista, contribuiu nos periódicos: Correio da Semana, A Batalha, O Social Democrata, O Estado de Mato Grosso, Correio da Imprensa, Equipe e o Diário de Cuiabá. Nesse último, escreveu, por longos anos, artigos na coluna Sermão aos Peixes, sobre os costumes e personalidades regionais. 
Publicou quase meia centena de títulos, tendo colaborado em diversos jornais e revistas. 

Pertenceu à Academia Mato-Grossense de Letras, ao Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, instituição que lhe concedeu o título de Secretário Perpétuo, graças a sua brilhante atuação; à Associação Mato-grossense de Imprensa, onde foi Secretário, dentre muitas outras instituições. Seu nome foi atribuído a uma das mais importantes vias públicas de Cuiabá, que demanda ao Centro Político Administrativo, que passou a se intitular Avenida Historiador Rubens de Mendonça. 

Após seu falecimento, aos 3 de abril de 1983, a família doou, ao Arquivo da Casa Barão de Melgaço, o seu acervo particular, composto de papéis, escritos e fotografias acumulados por Rubens de Mendonça e por seu pai, Estevão de Mendonça. Esse dossiê, no interior do Arquivo, tomou o nome de Família Mendonça. 

A primeira instituição que tomou para si o resgate da memória de Mato Grosso legada pelos anteriores foi o Instituto Histórico, criado em 1919 e que reuniu uma plêiade de homens de cultura, a exemplo de Estevão de Mendonça, Virgílio Corrêa Filho, D. Francisco de Aquino Corrêa, José de Mesquita, Philogonio de Paula Corrêa, dentre outros, para desenvolver a tarefa de escrever oficialmente e pela primeira vez a História de Mato Grosso. 

Estevão de Mendonça lançou, no mesmo ano de 1919, suas preciosas Datas Matogrossenses, descrevendo, dia a dia e respectivo ano, os fatos ocorridos em Mato Grosso. Nesse trabalho minucioso, de mais de 600 páginas, Estevão de Mendonça compilou dados, fatos, elaborou biografias e descreveu ocorrências que considerou mais relevantes para se conhecer o contexto mato- grossense, muitos deles vividos por ele. Seguiu-se a ele Virgílio Corrêa Filho, homem culto e de sólida formação científica, visto que engenheiro, dedicou grande parte de sua farta produção na recuperação e análise dos acontecimentos da História de Mato Grosso. O prof. de História do Liceu Cuiabano, Philogonio de Paula Corrêa, publicou inúmeros trabalhos que serviram de base na reconstituição da trajetória de Mato Grosso. 

A essa primeira geração, seguiu-se a segunda, composta de intelectuais que dedicaram grande parte de seus escritos no aprimoramento da missão inicial do Instituto Histórico, a de tornar mais conhecido Mato Grosso. Dessa geração se incluem Rubens de Mendonça, Octayde Jorge da Silva, Gervásio Leite, Luis-Philippe Pereira Leite, Archimedes Pereira Lima, Lenine de Campos Póvoas e tantos outros que, levando à frente esse desiderato. Alguns deles, em especial Estevão e Rubens de Mendonça, Octayde Jorge da Silva e Lenine de Campos Póvoas, além da farta de valiosa produção, vislumbraram a necessidade de transmissão aos estudantes, um pouco da História de Mato Grosso. 

Rubens de Mendonça escreveu, em 1967, a primeira edição da História de Mato Grosso, distribuída fartamente nas escolas e reeditada por quatro vezes (1970, 1981 e 1982). Na década de 1960, a História era compreendida enquanto a descrição de um determinado país ou estado, as origens, os governantes e seus feitos, cindindo-se, nessa medida, a história administrativa, usual no Brasil e em outros estados da federação. Seguindo esse clássico modelo, Rubens de Mendonça iniciou sua História de Mato Grosso contando sobre a fundação de Cuiabá, pelos bandeirantes paulistas, passando ao período em que o governo metropolitano criou a Capitania de Mato Grosso (1748) e relacionando os governantes do período colonial e seus feitos. O mesmo modelo foi aplicado na análise dos períodos imperial (1822-1889) e republicano (1889----). 

Esse acanhado olhar sobre o contexto mato-grossense não bastou para Mendonça que, paralelamente, partiu para a recuperação de cenários diferenciados que, na sua ótica, mereciam ser melhor conhecidos. Foi o caso da cidade de Cuiabá, tão bem descrita por ele em Ruas de Cuiabá (1969), Roteiro histórico e sentimental da Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá (1952), Igrejas e sobrados de Cuiabá (1978), dentre outros. A partir de Ruas de Cuiabá o leitor consegue compreender a dinâmica urbana de Cuiabá, uma cidade edificada sem qualquer planejamento, assim como conhecer a evolução da toponímia das vias públicas, mecanismo que retrata as significações e as forças políticas e culturais de cada época. Em Roteiro histórico e sentimental da Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá pode-se perceber as significações que a capital teve para o autor, visto que o passeio traçado teve como mote, sem dúvida, as coisas do seu coração. Igrejas e sobrados de Cuiabá foi um esforço que Rubens implementou na recuperação da genealogia dessas edificações, que resvalam entre residências assobradadas e seus moradores, até templos e as múltiplas representações sacras para a população cuiabana.
 
Na área da política, Rubens de Mendonça encontrou, ao longo de suas investigações, algumas lacunas que ele procurou completar, a exemplo de O Tigre de Cuiabá (1966), que versou sobre Luís Patrício da Silva Manso, um dos líderes da Rusga, deflagrada em Cuiabá no ano de 1834, História das Revoluções de Mato Grosso (1970), História do Poder Legislativo de Mato Grosso, em 2 volumes (1974), e Sátira na política de Mato Grosso (1978). Nesse conjunto de escritos são recuperados importantes eventos e personalidades da história política de Mato Grosso, tendo Rubens reunido, em História das Revoluções de Mato Grosso, acontecimentos que tiveram impacto no cenário de Mato Grosso. Na obra está estampado um rol de eventos políticos e de movimentos sociais desenrolados desde o século XVIII, perpassando o XIX e se estendendo até a segunda metade do XX. 

Não satisfeito, Rubens de Mendonça escreveu Nos bastidores da História mato-grossense, publicada em 1983, que versou sobre alguns aspectos pontuais da História, acrescentando igrejas, paisagem urbana, turismo, músicos e algumas personalidades, sem qualquer divisão por capítulos sequenciais, mas sim a apresentação de pontos isolados e sem qualquer conexão aparente, mas estruturado a partir de significações que só o autor poderia revelar. 

Como jornalista e um dos fundadores da associação dessa categoria, Rubens de Mendonça escreveu História do jornalismo em Mato Grosso, em duas edições (1951 e atualizada em 1963). A obra aborda a trajetória do jornalismo desde o Império, centrando maiores informações sobre a República. Considerando que Mato Grosso era uno, o jornalismo do atual Mato Grosso do Sul foi objeto de abordagem, mas o conteúdo não contempla só jornais, mas também revistas, boletins, almanaques e álbuns. 

O comércio não ficou de fora do seu olhar, ao publicar, no ano de 1973, a História do Comércio de Mato Grosso, onde tratou desde as precárias ações comerciais do período colonial, avançando para o império, ocasião em que Mato Grosso se abriu ao capital internacional, exportando erva-mate, poaia e borracha, além da expansão da pecuária, e avançando pelo século XX, quando Rubens de Mendonça tratou da comercialização dos produtos oriundos das primeiras indústrias mato-grossenses voltadas para a produção de açúcar oriundas das famosas usinas fixadas ao longo dos rios Cuiabá e Paraguai, e cujos proprietários tiveram expressão política de monta. 

Os últimos capítulos da obra foram destinados às entidades de classe dos setores comerciais e industriais, sob o formato de associações, sindicatos, federações, com destaque para a Junta Comercial. 

Todas essas abordagens, porém, não bastaram para Rubens de Mendonça, que buscou no saber popular, que na época se intitulava ‘folclore’, a complementação das diversas facetas da História de Mato Grosso. No ano de 1967 publicou Histórias que o povo conta, reunião de diversos saberes populares, incluindo lendas e mitos, além da inclusão de personagens populares até então silenciados. Para coroar os estudos nessa área, veio a lume, em 1969, Sagas e crendices da minha terra natal, onde foram incorporadas novas lendas e costumes presentes no universo popular, enriquecendo ainda mais a cultura material e imaterial de Mato Grosso. 

Além das obras de cunho historiográfico, jornalístico e cultural, a produção de Rubens de Mendonça extrapolou para o campo da literatura, onde ele se inseria como poeta. Iniciou com seu discurso de posse na Academia Mato-Grossense de Letras (1946), peça literária de grande valor estilístico, seguida de Garimpo do meu sonho (1939), Álvares de Azevedo (1941), Cascalhos da ilusão (1944), No escafandro da vida (1946), Poetas Bororos (1942), Antologia Bororo (1946), Dom por do sol (1954), Poetas mato-grossenses (1958), Olavo Bilac, o poeta (1965) e História da Literatura Mato-grossense (1970). Tais obras literárias inauguraram a escrita literária em Mato Grosso e, mais do que isso, Rubens de Mendonça pesquisou biografias e produções de muitos autores mato-grossenses, muitas delas inéditas, o que serviu para preservar textos que estariam, hoje, para sempre olvidados. Por isso, na década de 1970, publicou História da Literatura Mato- grossense, reunindo parte do conjunto de estudos anteriores. Pela relevância da obra, foi a mesma reeditada recentemente pela AML/Unemat, a fim de servir de guia de leitura aos estudantes de letras. 

A área da Educação não lhe passou despercebida, ao escrever Evolução do ensino, obra que reconstitui historicamente a trajetória das principais instituições de ensino de Mato Grosso, a exemplo do Seminário Episcopal da Conceição, a primeira Escola Normal, os Liceus Cuiabano, de Artes e Ofícios, a Escola de Aprendizes Artífices, Escola Normal e Modelo, Escola Agrícola e Pastoril, Escola Superior de Comércio, Faculdade Mato-Grossense de Odontologia e Farmácia, as Faculdades de Direito, a Escola de Comércio, finalizando com a chegada da Universidade. 

Após tanta pesquisa, Rubens de Mendonça ainda brindou o público com obras que consubstanciaram personalidades, lugares e eventos, como: Gabriel Getúlio Monteiro de Mendonça (1949), Os Mendonças em Mato Grosso (1945), Álbum comemorativo do 1o Congresso Eucarístico de Cuiabá (1952), muito bem ilustrado e estampando textos e poesias. Dicionário biográfico mato-grossense, em duas edições (1953 e 1963), foi, durante praticamente a segunda metade do século XX, a única referência capaz de relacionar nomes e dados biográficos. 

Rubens de Mendonça não poderia deixar de contemplar o público leitor com o levantamento bibliográfico utilizado por ele ao longo de suas pesquisas. Assim, Bibliografia Mato-grossense, foi publicada no ano de 1975, uma obra precursora na referenciação da produção intelectual de Mato Grosso e de consulta obrigatória para todos aqueles que se aventuravam nas investigações sobre Mato Grosso. 

De perfil tão amplo e diversificado, Rubens de Mendonça poderia organizar e publicar, caso não falecesse, uma das mais amplas e diversificadas Histórias de Mato Grosso, graças ao volume de dados pesquisados e à diversidade das temáticas abordadas, o que, certamente, consubstanciaria um compêndio marcante para a trajetória historiográfica mato-grossense, seja pela diversidade de temas ou de abordagens.

Considerado um clássico da historiografia, do jornalismo e da literatura de Mato Grosso, Rubens de Mendonça representou, com muita propriedade, os intelectuais da segunda geração do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, visto ter cumprido a mais importante missão institucional: tornar Mato Grosso mais conhecido e, consequentemente, mais amado.

 
Assessoria

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