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10/04/2022 às 17:30

O Senadinho, guardião das reminiscências cuiabanas, virou memória

Os contadores da história de Cuiabá, a partir das próprias vivências, também compõem a história de Cuiabá

Priscila Mendes

O Senadinho, guardião das reminiscências cuiabanas, virou memória

Última foto do Senadinho antes da pandemia de covid-19

Foto: Arquivo Pessoal

Passeando pelo centro de Cuiabá, na 'Rua das Óticas', você já deve ter visto alguns senhores conversando, reunidos na calçada, logo no início da manhã, em local estratégico entre a Casa dos Governadores e a Prefeitura Municipal. Talvez você já tenha se sentado em uma das cadeiras de plástico, posicionadas à frente da famosa garagem, e discutido política, religião ou futebol.

Esse era o Senado da República de Cuiabá, como se autodenominavam, conhecido como ‘Senadinho’. Apesar de não terem nenhum cargo eletivo, os ‘senadores’ tinham grande importância cultural para a cidade - pois eram de famílias tradicionais de Cuiabá - e, por esse motivo, políticos que queriam ter a imagem associada à cuiabania iam “pedir bênção” a eles: tiravam fotos e usavam em campanhas eleitorais.

O ‘Senadinho’ está ‘com atividades suspensas’, para ser otimista. Os amigos ainda vivos estão resguardados nas próprias casas, sem encontros presenciais, desde o início da pandemia. E, segundo o último a entrar no grupo, o advogado Renato Ramos Calhao, atualmente com 64 anos, é pouco provável que voltem a se reunir.

Além de Renato, há quase 20 anos “senador aspirante” (já que entrou “fora da faixa etária”, aos 45 anos, em 2003), estão vivos Umberto Mendes de Oliveira (80 anos), Renato Miguéis Olavarria (89), Eldivaldir de Figueiredo, o Zizinho, (80), o Fuad Rachid Jaudy (80) e Pedro Francischini (92). “São os remanescentes, os que estão vivos, mas muitos, pela idade avançada, já não saem nem de casa. E com a covid-19, ficou mais difícil ainda”, explicou o mais jovem ao Entretê.

Como surgiu


'Senadores' reunidos em 2006. Foto de arquivo pessoal

Não há renovação no Senadinho, porque não nasceu de forma institucionalizada. Ao contrário, nasceu de forma espontânea. São homens que, ao se aposentarem, vivenciando a cultura cuiabana de ‘sentar à calçada para conversar’, passaram a se encontrar. Antes, na farmácia do saudoso Oriente Tenuta Filho, ‘seu Nenê’, em cadeiras de balanço; depois, na casa na Rua Cândido Mariano (Rua das Óticas), para onde o anfitrião se mudou na década de 1970. “Nenê se aposentou e veio pra esta casa. Daí o pessoal começou a frequentar lá e nasceu o Senadinho. Depois as pessoas iam lá, se sentavam, liam o jornal e conversavam. Lá já teve ex-governador, teve médico famoso, teve todo tipo de profissional aposentado que fez parte da história cuiabana”, registrou Renato Calhao.

Desses nomes memoráveis que compuseram o Senadinho, dá para destacar o ex-vereador e ex-vice-prefeito de Cuiabá Aecim Tocantins, o ex-prefeito de Cuiabá e ex-governador de Mato Grosso Frederico Campos e o renomado médico Luiz Alves Correia. “Tínhamos também uma curiosidade que eram os senadores visitantes. Eram os cuiabanos antigos, tradicionais, que moravam fora de Cuiabá e que, geralmente no mês de julho, vinham pra festa de São Benedito e frequentavam assiduamente lá”, lembra Renato Calhao.

O próprio Renato, o entrevistado desta reportagem, cumpre o papel de não deixar a memória sobre o Senadinho morrer e é grande divulgador do grupo. Entrou por convite de Leopoldo Fortunato, “eterno secretário geral”, como define, pois acompanhava o pai, Renato de Araújo Calhao, assiduamente nos encontros. Bem mais jovem que os demais - enquanto estava na casa dos 40 anos, todos os integrantes já tinham mais de 60 - é exceção dentre os 'senadores'.

Isso, porque a maior parte já se conhecia na infância ou na juventude e, tendo mais tempo, passou a se encontrar já na aposentadoria. “Renatinho, você vai entrar pra cá, porque isso aqui vai acabar. Alguém tem que contar as histórias”, falava Leopoldo, como Renato lembra. "Leopoldo dizia que eu ia fechar a porta. ‘Quem sair por último feche a porta’”, reflete, sobre a condição de finitude do grupo.

Reconhecimento


Senadinho em encontro com o então governador Blairo Maggi, em 2005. Foto de arquivo pessoal

Os idosos reunidos para debater e conversar compunham a paisagem do Centro de Cuiabá e muitos transeuntes ali se sentavam para confraternizar, mas não havia valorização direta. Até que o então governador Blairo Maggi, no primeiro mandato, por volta de 2005, projetou o grupo. Ele foi o único governador - que não é cuiabano, inclusive - a se encantar pelo Senadinho e “deu status de associação cultural àquilo e elevou à categoria de reminiscências, guardiões das reminiscências cuiabanas”, destaca o ‘senador aspirante’. Maggi, então, incluía os ‘senadores’ nas recepções no Palácio Paiaguás.

E foi depois desse reconhecimento por Maggi que a imprensa começou a noticiar a existência do Senado da República de Cuiabá e os políticos buscaram associar a própria imagem ao tradicionalismo que o grupo representava.

Despedida

Renato foi o último convidado do grupo. Há quase 20 anos. Além dele, apenas cinco estão vivos, o mais jovem tem 80 anos. Os guardiões das reminiscências cuiabanas também serão memórias da cuiabania, reminiscências. Por não haver renovação. Não por falta de interesse, mas por mudança cultural.

“Nós fazemos parte de um momento da história de Cuiabá. A partir do momento que nós formos morrendo, isso vai acabar, porque não se senta mais na porta, nós somos do tempo ainda que sentava na porta. [...] A filosofia do grupo era esta: enquanto eles vivessem, aquilo estaria funcionando. A tendência era acabar, eles tinham essa consciência”.

E não há tristeza nessa partida, faz parte do ciclo da vida. “Eu ainda guardarei no coração com muito carinho aqueles queridos amigos que, com certeza, já são senadores no céu e continuam se reunindo lá pra conversar e com saudade da nossa Cuiabá”, finaliza Renato.
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