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28/06/2022 às 17:54

Artistas e LGBTQIAP+: como fazer arte em Mato Grosso?

No Dia do Orgulho LGBTQIAP+, o Entretê quer saber sobre luta, arte e inspirações

Priscila Mendes

Artistas e LGBTQIAP+: como fazer arte em Mato Grosso?

Foto: Montagem: Entretê / Imagens: Reprodução Instagram

Existe arte LGBTQIAP+? Como é fazer arte em Mato Grosso, sendo uma pessoa LGBTQIAP+? Neste Dia Internacional do Orgulho, o Entretê conversou com três artistas daqui de orientações sexuais diferentes da heterossexualidade ou identidade de gênero para além da designada ao nascer a partir do sexo biológico.

Pacha Ana é cantora, poeta e atriz e Juliana Segóvia é cineasta, ambas são mulheres cis - quem se identifica com o gênero designado ao nascer -, a primeira é bissexual e a segunda é lésbica, e se reconhecem negras - outro elemento de vulnerabilidade social. A Luisa Lamar é uma travesti e canta, dança, compõe, atua, produz cultura, dirige filmes e tanto mais.

Elas são artistas e são pessoas LGBTQIAP+. A arte que fazem, mesmo que não aborde a temática diretamente, é arte LGBTQIAP+. Porque elas são.



Antes de contar um pouco da perspectiva delas, é importante esclarecer as letrinhas. A sigla se refere à comunidade formada por lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans e travestis, queers, intersexuais, assexuais, pansexuais e outras designações diferentes da cisheteronormatividade.

A data de 28 de junho remete a um dos momentos mais importantes para a comunidade, que foi a Revolta de Stonewall, iniciada nesse dia em 1969, no Bar Stonewall Inn, em Nova Iorque. A revolta possibilitou que, pela primeira vez, um número considerável de pessoas LGBTQIAP+ se unisse para lutar contra os maus-tratos perpetrados pela polícia contra frequentadores do bar.

As três entrevistadas manifestam a dificuldade de fazer arte em um dos estados brasileiros mais LGBTfóbicos. A Luisa Lamar que, enquanto pesquisadora de gênero, registra-se como uma pessoa não binária (não se define nem como homem, nem como mulher) e gosta do conceito ‘transvestigênere’, criado por Indianare Siqueira (que extrapola o gênero e a forma de se vestir), registra que Mato Grosso é o “segundo estado que mais mata pessoas T” e que, em contrapartida, está entre as localidades que “mais acessam conteúdo pornográfico de pessoas transfemininas como eu”.

E, para desenvolver sua arte, conta que precisa ‘suar muito’, já que não tem tantas portas abertas. “Nós, pessoas trans, somos desacreditadas em qualquer coisa que nos propusemos a fazer, pois o senso comum é de que ‘não somos gente’, quando, pelo contrário, a falta de oportunidades, a fome e a solidão nos levam a sermos as melhores em tudo em que nos propomos. Não que sejamos boas por sermos trans, não! Nós somos pessoas e podemos ser boas e/ou ruins em diversas coisas. Mas a vontade de chegar a algum lugar nos leva a termos uma garra quase infinita".



Pacha Ana, que tem o orgulho de ter lançado o primeiro disco de Rap feminino de Mato Grosso, se considera bissexual e se diverte com a surpresa das pessoas ao verem que ela se relaciona com homens e com mulheres. E, em suas letras, fala de “romances com homens, com mulheres, ou simplesmente nem falo deles… Tudo depende do que estou sentindo e como decido externar”.

Ela aborda temáticas gerais para além da vivência LGBTQIAP+. “Sigo fazendo arte por aí, tranquila… Às vezes falando de amor, às vezes falando de luta… ou dos dois, afinal, ambos não se dissociam!”. Ela também registra que entendeu que "ser bissexual não muda em nada o ser humano que sou, e as escolhas que decidi fazer. [...] Então, sigo fazendo arte, falando disso da maneira mais normal possível".

A cineasta Juliana Segóvia acrescenta que “é um desafio muito grande se lançar como uma pessoa que vai trabalhar com arte, com criação, com criatividade e também na parte técnica no cinema [...]. Muitas vezes somos subestimadas”. Ju assinala ainda, que, além de ser desafiador ser uma mulher lésbica, há o elemento de ser uma mulher negra. “Somos várias minorias em uma. [...] e eu tenho que ter isso muito claro na minha cabeça, pra saber que eu sempre vou precisar me defender e eu aprendo a me defender me carregando de argumentos, de leitura, para dialogar, para aprender a responder, para conseguir me proteger".

Juliana agradece a tantas mulheres negras que trilharam antes dela, permitindo melhores condições de vida para aquelas que vivem hoje, se inspira em cada uma e segue como norte também abrir caminhos para quem ainda vêm. 
Ela tem certeza que "ocupar esses espaços é muito importante, para que a gente possa inspirar outras pessoas LGBTQIA+, outras pessoas negras, outras mulheres”.



Este dia, que é de luta, também é de orgulho. Elas têm orgulho de ser quem são, por seguir vivendo e fazendo arte em uma sociedade ainda hostil. "Eu só posso fazer o que faço, pois muitas perderam suas vidas e algumas sobreviventes lutaram pelo mero direito de viver neste lugar, uma força que eu não posso dizer que eu sempre tive [...]. E só consegui sair dessa, ao ver outras como eu alcançando lugares que eu sempre sonhei em alcançar", registra Luisa. 
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