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29/06/2020 às 14:14

Com humor, atriz experimenta teatro virtual em 'sessões de terapia online'

Em seu projeto de quarentena, Ana Carolina Siqueira, que também é acadêmica da UFMG, interpreta Evanice Abadalaha, uma “psicóloga” narcisista e antiética

Maria Clara Cabral

Cenas curtas de cerca de 20 minutos, feitas em dupla via live no Instagram, é uma alternativa encontrada pela atriz mato-grossense Ana Carolina Siqueira, que pretende, ainda, experimentar outras plataformas para desenvolver seus trabalhos e estudos durante a pandemia.

Assim, ela coloca em prática o exercício do teatro virtual, no qual se debruça diversos artistas, que se veem diante da necessidade de reinventar a arte do encontro no ‘agora’ no novo contexto no Brasil e no mundo.

“Estamos com muitas incertezas nas artes em geral, mas principalmente no teatro, que pressupõe o tempo real, o presente, a interação entre ator e espectador, uma série de situações. Fomos os primeiros a parar e provavelmente seremos os últimos a voltar na forma habitual”, explica Ana, que também é acadêmica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em seu projeto independente, Ana Carolina promove, além de entretenimento, embasamento empírico para novas pesquisas sobre o teatro durante e pós pandemia.

“Como é feito? Será que é possível? O teatro sofrerá alterações? Nós artistas estamos pensando muito nisso. Muitos vivem apenas do teatro, leis de incentivo, editais. Como a pandemia está afetando a vida dessas pessoas? Teatro online ainda é teatro? Há interação? Será que teremos que nos adaptar a monólogos?”, questiona a atriz.

Por isso, ao fim da cena, ela ainda separa um tempo para bate-papo com atriz/ator convidado e interação com os espetadores online na live. “Estou ansiosa para saber o que vamos elaborar, escrever a respeito, quais teorias vão surgir ou se consolidar com resultado disso tudo”.


 

As cenas

Nas cenas curtas, Ana Carolina Siqueira interpreta Evanice Abadalaha, uma psicóloga antiética. “Uma pessoa cheia de problemas que está sendo qualquer coisa menos uma psicóloga. Nas sessões online, ela gosta de transferir todas questões para ela, com a necessidade de inferiorizar o paciente para se sentir melhor”, conta a atriz.

Com a personagem, ela constrói a dramaturgia de roteiros curtos, embasada em um humor “por contraponto”.

“Como psicóloga, a gente imagina uma pessoa ética, que estudou muito, que tem embasamento teórico, e a personagem é totalmente o contraponto disso. É aí que mora o humor. Uma pessoa que deveria ser responsável e sensível aos pacientes em seu ambiente de trabalho, tem uma personalidade narcisista”, explica Ana.

Ao interpretar a “profissional”, ela também faz uma sátira à própria ideia de status da academia. É que Evanice Abadalaha desenvolve uma teoria terapêutica em parceria com pesquisadora Fiona Wallace, personagem de Lisa Kudrow (atriz de ‘Friends’) na série estadunidense Web Therapy, principal referência e inspiração do experimento de Ana.

“Comecei a pensar as cenas no mês de maio, quando eu vi essa série. É uma série de 2008, que tem inclusive versões em outros países, sobre uma psicóloga que, na época, estava inovando com atendimentos virtuais”, conta. “Vi naquilo um potencial para ser apresentado no teatro online. Acho que tem tudo a ver com o que a gente tá vivendo agora”, complementa.

Com as cenas, ela também lança mão da clássica improvisação, linguagem que ganha contornos especial no contexto online. “Não trabalhamos com improvisação pura, mas, como em qualquer teatro, estamos ao vivo. Além disso, como se trata de internet, a gente fica bastante dependente da conexão”, destaca.

Foi o que aconteceu no primeiro experimento, realizado com a atriz mineira Mariana Nolaço, que acabou incorporando os problemas técnicos à narrativa. “Já tínhamos começado e internet da minha colega de cena caiu, então fiquei sozinha em cena por algum tempo. Ali a improvisação me ajudou. As pessoas levaram de uma forma muito boa e a gente se utilizou disso como elemento da cena”, relata.

Teatro pós-pandemia

Com o experimento, a proposta de Ana Carolina também é promover o intercâmbio de artistas, aproveitando as potencialidades da internet para possibilitar o encontro de diferentes lugares. “Vou convidar outros atores e atrizes, com quem eu já trabalhei ou não, porque acho que é importante a gente compartilhar nesse momento”.

A coletividade, na verdade é, para Ana, a essência do teatro. “Sempre foi, é uma arte que a gente faz em conjunto, um trabalho colaborativo entre atores, técnica, produção, direção, maquiador e figurinista. Sendo virtual, como fica essa questão? Várias coisas a se pensar”.

Com a internet pressupõe o alcance de novos públicos e uma das questões a ser trabalhada por Ana, é a democratização do teatro que enfrente desafios com a pandemia. “No teatro virtual podemos nos apresentar para as pessoas do conforto da casa delas, mas sabemos que nem todo mundo tem o acesso à internet de qualidade”, pondera.

“No espaço físico do teatro, estamos vendo a retirada de assentos em teatro para diminuir a quantidade de espectadores e ter uma distância considerável. Como a bilheteria vai ser reduzida, provavelmente os preços vão subir e poucas pessoas vão poder entrar em um teatro nesse momento de transição. Em outros países está sendo assim”.

A atriz

Ana Carolina é nascida em Rondonópolis e criada em Cuiabá. Antes de ingressar na Escola Belas Artes, ela ainda começou uma faculdade de Direito aos 17 anos, na capital, já que a época não havia faculdade de Teatro em Mato Grosso. Com mais idade e disposta a construir uma trajetória nas artes, ela se candidatou à UFMG.

Na instituição, ela fez parte de grupo de pesquisa em improvisação. Atualmente, estudando também licenciatura, ela desenvolve trabalhos na área da Educação.
Pela faculdade, Ana já deu aulas de teatro em colégios municipais de regiões periféricas de Belo Horizonte e, como bolsista do projeto de extensão Arte e Diferença, realiza trabalhos em conjunto com pessoas com necessidades especiais, experimentando o teatro em corpos mistos.

Durante a pandemia, ela dá aulas de alongamento básico para estudantes das moradias da UFMG, agora abertas para o público geral, através das ações Potlach. Com o projeto Movimento Universitário de Inclusão,
parceria com o Arte e Diferença, as aulas irão para uma plataforma virtual, com interpretes de Libras.

Confira a primeira cena curta de Ana Carolina em seu projeto de Teatro Virtual: 

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