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Notícias / Entrevista da Semana

17/09/2023 às 08:00

ENTREVISTA DA SEMANA

Especialista fala sobre câncer ginecológico e vacina contra o HPV para adultos

"Setembro em Flor" é o mês de conscientização sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce de câncer ginecológico

Gabriella Arantes

Especialista fala sobre câncer ginecológico e vacina contra o HPV para adultos

Foto: Reprodução

Você já ouviu falar do Setembro em Flor? É o mês de conscientização sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce dos cânceres ginecológicos. Para se ter uma ideia, a cada ano, cerca de 30 mil mulheres brasileiras recebem algum diagnóstico, sendo mais de 16 mil apenas o de colo uterino. Os dados são do Instituto Nacional de Câncer (INCA)

Em entrevista ao Leiagora, o diretor técnico e cirurgião oncológico do Hospital de Câncer de Mato Grosso, Dr. Rafael Sodré, deu alguns detalhes sobre o assunto. Como é o caso da vacina contra o HPV, já que o vírus é a principal causa do câncer no colo do útero e da vulva. 

Conforme o especialista, além das meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos, pessoas adultas também podem se vacinar contra a doença. No entanto, a imunização para esse grupo só é disponível na rede privada de saúde. 

O cirurgião também falou sobre os tipos de câncer que as mulheres podem ter, os tratamentos, sintomas, formas de contrair a doença e muito mais. 

Confira abaixo a entrevista na íntegra:
 
Leiagora - O que é o câncer ginecológico e quais são os tipos da doença?

Dr. Rafael Sodré - Os cânceres ginecológicos são aqueles que têm origem na mulher. Então a gente tem o câncer de mama, mas pela importância do câncer de mama ser o primeiro nas mulheres a gente acaba dando um mês especial para ele. Mas fora o câncer de mama a gente tem o de ovário, o de colo de útero, o câncer de útero e tem os mais raros, que são os cânceres de trompas de falópio. Mas basicamente são os tumores que acometem as mulheres e temos que sempre ficar atentos a eles. Mesmo os mais raros, temos sempre que ficar atentos, não é porque quem não é lembrado não é visto. Então a gente sempre tem que estar falando para lembrar as pessoas.

Leiagora - Qual deles é o mais comum? 


Dr. Rafael Sodré - Depende muito da população que a gente está falando. Hoje, no Brasil, a gente tem um crescimento de câncer de colo de útero. Que é o câncer com uma participação de quase 90% do vírus HPV. Então esse vírus está diretamente ligado com o câncer de colo de útero, ele causa alterações na célula do colo do útero. Alguns subtipos são mais cancerígenos, como o tipo 16 e 18. E mulheres suscetíveis que tem um sistema imune não tão eficiente acaba se desenvolvendo esse câncer de colo de útero.  

Leiagora - E tem tratamento e vacina para evitar? 


Dr. Rafael Sodré - Esse é um dos tumores que a vacina pode prevenir mesmo. As vacinas no SUS estão disponíveis duas doses e na clínica privada três doses. Então se você usa essa vacina antes da disposição sexual, por isso a campanha visa vacinar as crianças antes de ter contato sexual. Porque a gente sabe que basta ter contato sexual que você está exposto ao vírus, já que ele é tão endêmico na população. Então você tomando essa vacina, reduz muito a taxa de infecção. Países desenvolvidos que já tomam essa vacina a gente vê uma queda na curva de incidência do tumor de colo de útero à medida que começa a vacinar a população mesmo. 

Além disso, se você não tomou a vacina, é possível fazer uma detecção precoce, antes da lesão virar um tumor. Você fazendo o seu exame ginecológico, o ginecologista consegue identificar através do papanicolau alterações e aí você consegue tomar uma atitude também clínica e às vezes até cirúrgica, antes que vire um câncer.

Leiagora - Quem pode vacinar e qual a idade?


Dr. Rafael Sodré - Normalmente de 11 a 16 anos, tanto meninos quanto meninas podem se vacinar. E não tem nenhuma contra indicação a não ser as reações adversas aos constituintes da vacina. Então quem tem alergia a uma determinada substância a vacina, pode ter uma contra indicação. Mas assim, não existe nenhuma contra indicação formal para não tomar. 

Leiagora - Essa vacina pode ser tomada na vida adulta? Tem a mesma eficácia?


Dr. Rafael Sodré - A eficácia diminui, a gente sabe que diminui porque você tem um sistema imune já mais amadurecido também, estão você não terá a mesma eficácia da criança. Porém você pode tomar, mas essa vacina para a idade adulta está disponível apenas em clínicas privadas. No posto de saúde está liberada apenas para as crianças. 

Essa informação sobre até que idade, como eu falei, você já adulto, teve contato com o vírus e já está amadurecido. Então a gente não consegue dizer se será efetivo ou não. No meu consultório pessoal eu acabo indicando para qualquer idade como forma de pelo menos dar uma melhoria na sua resposta imunológica. Mas assim, a gente não tem como dizer se será efetivo ou não. Normalmente a mulher que teve o vírus HPV, já teve uma lesão e toma a vacina, a gente percebe que a imunidade dela melhora e aí acaba no exame clínico você percebe que ela não tem mais a infecção pelo HPV e você não vê mais no papanicolau aqueles sinais sugestivos do vírus. 

Leiagora - Então os meninos também podem se vacinar contra o HPV?


Dr. Rafael Sodré - Os meninos o que acontece, como o aparelho reprodutor masculino é externo, um ambiente externo não é tão propício para o vírus. A higiene é mais fácil e o vírus não consegue crescer. Porém, a gente tem também no Brasil uma incidência alta de câncer de pênis, que também acontece com o vírus HPV. Acaba desenvolvendo também tumores nos homens, principalmente aqueles que não fazem higiene, promiscuidade e etc. Mas os homens são vetores de transmissão assim como as mulheres, então precisa vacinar tanto o homem quanto a mulher. 

Leiagora - Quais os principais sintomas quando tem câncer ginecológico? Quando a mulher deve procurar o médico?


Dr. Rafael Sodré - A mulher precisa procurar o ginecologista sempre, a gente acaba indicando a partir da menstruação que já é bom fazer um acompanhamento com ginecologista. Alguns tumores dão sinais precoces e são muito fáceis de diagnosticar. É muito simples, até em um posto de saúde você consegue. Então os tumores de vulva, de vagina, de colo de útero que basta você fazer um exame físico bem feito, consegue identificar precocemente essas lesões. Agora os tumores que são do útero, que são mais internos, como os das tropas, esses são mais difíceis. Então a gente acaba dizendo para as mulheres se tiverem algum sangramento anormal, um fluxo menstrual fora do normal ou já está na menopausa e veio agora um sangramento diferente, esses são sinais que precisam investigar o motivo. Então o ginecologista vai começar a investigar a partir de exames propedêuticos, como ultrassom e ressonância. Então os tumores do colo do útero são facilmente identificados. Agora os tumores do ovário precisam de alguma manifestação. Com relação ao tumor de ovário, dificilmente a gente consegue encontrar esse tumor precocemente. O ovário fica dentro da cavidade abdominal em contato com o intestino e algumas gorduras que ficam dentro da barriga. Então se você tem tumor no ovário ele pode escapar muito rápido, normalmente as pacientes que têm o tumor de ovário elas têm o diagnóstico já avançado. Então você percebe um volume abdominal, a barriga começa a crescer, parece que está com a barriga cheia de água, você pode perder peso e dificilmente o câncer de ovário você consegue um diagnóstico precoce. Então na maioria das vezes você faz um diagnóstico mais tardio.

Leiagora - Tem diferença entre as vacinas da rede pública e rede privada?


Dr. Rafael Sodré - Existem, são marcas de laboratórios diferentes. Como eu disse, [no SUS] é uma vacina desenvolvida para duas doses e na rede privada são três doses. Mas por que essa diferença? Porque como medida de saúde pública, a gente tem que sempre levar em consideração o custo benefício. Então os trabalhos que levaram você a aplicar duas doses foram efetivos e com o custo menor. Então você acaba implementando isso por uma questão de custo, mas no sistema privado onde você pode desembolsar o pagamento tem essa vantagem dessa outra vacina é que ela cobre outros subtipos de vírus HPV. Mas a vacina da saúde pública ela já cobre os dois subtipos mais comuns, que é o 16 e 18.Que são os mais ligados ao câncer de colo do útero.

Leiagora - É necessário ter penetração para transmitir doenças ginecológicas como o HPV? 


Dr. Rafael Sodré - Não, isso também é importante porque não precisa ter penetração. Como é um vírus que se aloja na superfície, então basta ter contato de superfície. Pele com pele, mucosa com mucosa. Então essa transmissão é muito fácil. E hoje a gente fala muito que os vírus HPV também são causadores dos tumores de cabeça e pescoço. Na cavidade oral também e tumores de canal anal também. Isso é recente, é algo que estamos divulgando e pouca gente sabe, que o HPV tem haver com os tumores de cabeça e pescoço, de canal anal e é bom as pessoas ficarem atentas a isso. 

Leiagora - Gostaria que falasse na importância dos pais levarem as meninas para vacinar mesmo não tendo vida sexual ativa.


Dr. Rafael Sodré - A gente precisa explicar melhor, a conversa é muito importante. Isso, os meios de comunicação devem fazer adequadamente e os médicos também. Não é porque você vai tomar uma vacina para se proteger de um vírus que é sexualmente transmissível, que a menina vai começar essa atividade precocemente, essa relação não existe. Até pessoas virgens também podem ter contato com o vírus, a gente sabe que é menos, a chance é menor, mas existe também as pessoas que sem atividade sexual tem contato com o vírus.

A gente vê pessoas que nunca tiveram relação e que tiveram câncer de colo de útero, isso é raro, mas acontece também. Então é preciso esclarecer, a proposta não é estimular, a proposta é você prevenir uma doença que existe uma vacina. Como é a da paralisia infantil, difteria e outras doenças que tinha antes uma grande quantidade de infecção, mas que graças a vacinação, praticamente erradicou boa parte das doenças infectocontagiosas que matavam as pessoas no século passado. 

Leiagora -  Existe uma predisposição genética para contrair câncer de colo de útero? Se sim, quais são esses fatores estimulantes? 


Dr. Rafael Sodré - Não tem nenhum fator genético ou mutação específica. A gente fala sobre a mutação do BRCA para câncer de mama que favorece a doença e também favorece o câncer de ovário. Já o câncer de colo de útero a gente não tem essa mutação específica, nós temos comportamentos que podem favorecer. Então as pessoas que tem uma vida estressada, que fumam, cigarro baixa bastante a imunidade e favorecem o aparecimento, bebida alcoólica. Então são situações que baixam a imunidade e fazem com que tenha um ambiente mais propício para o câncer de colo de útero. Mas mutações específicas mesmo a gente vai ter mais para câncer de endométrio, que é aquela camada interna do útero e o câncer de ovário. Esses são os tumores que estão mais envolvidos com a mutação genética. 

Leiagora - Quais as chances de cura com o diagnóstico precoce? 


Dr. Rafael Sodré - Praticamente 100%. Você pode um tratamento medicamentoso, que nas lesões iniciais a gente acaba dividindo entre NIC 1, NIC 2 e NIC 3. São lesões pré cancerígenas então na lesão inicial como o NIC 1, às vezes só tratando com medicação é possível resolver. O NIC 2 e NIC 3 você pode resolver de uma forma cirúrgica minimamente invasiva. Ao invés de retirar o útero e fazer uma cirurgia mutiladora, você tira uma parte do útero e trata a paciente. O médico faz a cirurgia e dá a orientação que ela pode tomar vacina de imunidade e fazer um acompanhamento intensivo com o ginecologista. Para as cirurgias avançadas, é necessário ter um tratamento mais radical, às vezes pode associar a radioterapia com quimioterapia à medida que o estadiamento aumenta, também aumenta a agressividade do tratamento e o custo.
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