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Notícias / Entrevista da Semana

30/06/2024 às 08:08

ENTREVISTA DA SEMANA

Médico várzea-grandense, professor e pesquisador - Conheça a história de ORGULHO de William Guarnieri

Assumidamente gay, William enfrentou diversos percalços desde a infância, marcada por violência doméstica, pobreza, preconceito e limitações

Luíza Vieira

Médico várzea-grandense, professor e pesquisador - Conheça a história de ORGULHO de William Guarnieri

Foto: Montagem Leiagora

Metamorfose, a total transformação, que no caso do médico William Guarnieri, de 37 anos, tem total influência de incentivos a educação ao longo da vida. O doutor, professor pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal Fluminense é também pesquisador do Instituto Butantan e um dos responsáveis pelo desenvolvimento da vacina contra Covid-19, que salvou milhares de vidas.

Assumidamente gay, William enfrentou diversos percalços desde a infância, marcada por violência doméstica, pobreza, preconceito e limitações. Problemas que eram reparados por um olhar fraterno de vó e incentivador de professores que viam naquele menino afeminado, ainda lagarta, a inteligência e dedicação típicas de quem sonha em ganhar asas e virar borboleta.

E, eles estavam certos. O estudante de escola pública, teve sim seus momentos de temor, ora por falta de condições financeiras, ora pelo preconceito da sociedade em entender as singularidades da personalidade do rapaz que no passado tinha diversas dúvidas, mas que hoje estampa com alegria ORGULHO, em ser quem de fato é.

Mas nem tudo são flores, mesmo com uma carreira consolidada, o pesquisador  foi e é alvo de preconceito por sua sexualidade e forma de se vestir.

Especialista em saúde da família e medicina nuclear, o médico usa sua voz em um brado de resistência para as próximas gerações, enquanto se equilibra na ponte-aérea que interliga sua terra natal e seu lar do coração, o Rio de Janeiro. Voa, doutor. 

Confira a entrevista completa:

Leiagora - Conte sobre sua trajetória, como foi a infância e a adolescência?

William Guarnieri - Nasci em Várzea Grande, em tempos de vacas magras. Minha mãe me teve aos 16 anos e fez um curso de auxiliar de enfermagem na época para ter uma profissão quando eu nascesse. Vovó Cecília era costureira e ajudou na minha criação enquanto mamãe trabalhava. Tivemos dias bem difíceis onde a grana era muito curta e limitava os sonhos da minha família. Faltava tudo, comida, roupas novas e brinquedos. Desde muito pequeno, criado num lar de mulheres, sofri hostilização pelos coleguinhas de escola e vizinhos por ser muito "frágil e afeminado". Conheci meu pai aos 6 anos de idade, quando ele pegou liberdade condicional após ter cumprido pena por um crime cometido em Santa Catarina e fugido para Mato Grosso em 1986. Bastaram 3 meses foragido em nosso Estado para que ele conhecesse minha mãe e a engravidasse. Muitos coleguinhas não eram permitidos a brincar comigo e só fui ter a compreensão anos mais tarde porque os seus pais diziam que não queriam seus filhos brincando com o "filho de bandido". Meu pai veio morar conosco e transformou a minha infância e a juventude de minha mãe em um inferno. Sofremos violência doméstica,  ameaças e por 6 anos fomos reféns das agressões físicas e psicológicas. Eu apanhava por ser "afeminado" e por tentar defender mamãe. Ela apanhava por ser mulher vulnerável, dia sim e dia não, estando salva apenas quando estava de plantão como enfermeira.
 
Leiagora - Você enfrentou alguma dificuldade em se assumir gay para seus familiares ou teve medo de ser alvo de preconceito?


William GuarnieriMinha primeira relação homossexual ocorreu já aos meus 19 anos, quando não morava mais na casa da minha mãe. Eu havia saído para estudar no Rio de Janeiro, mas mesmo assim demorou muito para o processo de autoaceitação ocorrer. Vivia dentro do armário porque no meu lar cristão nunca seria aceito se dissesse que era gay e temia a retaliação financeira. Eu precisava me formar em Medicina para conquistar minha liberdade.

Leiagora - De onde veio o sonho de ser médico e o que enfrentou para conquistar esse objetivo?


William Guarnieri A medicina me salvou. Falo isso porque frente as adversidades do meu lar e toda sedução que o sentimento de revolta contra o meu pai agressor, eu poderia ter nutrido o sentimento da criminalidade e traçado a rota da violência no meu destino. Poderia ter perpetuado e replicado toda surra e ódio vivido na minha casa e talvez hoje não estaria vivo para contar esta história. A medicina me salvou porque vi nela a única forma de sair daquela condição de pobreza que vivíamos. Vi na medicina também a liberdade financeira que me daria autonomia para viver minha sexualidade reprimida. Sempre estudei em escola pública e fui contemplado com bolsa integral do governo, o PROUNI, para estudar medicina no Rio de Janeiro. Não tinha dinheiro para me manter na faculdade e por isso, durante os 2 anos iniciais da faculdade, morei de favor na casa de parentes de vovó Cecília,  em meio a uma comunidade carente carioca. Comia no restaurante popular e tenho muito orgulho disso. O sonho de ser médico surgiu num teatro da escola e na fala da professora Mirian que olhou para mim interpretando um médico.  Ela me olhou e disse, "vais ser médico na vida". Acredite nos seus sonhos!

Leiagora - Quais são as suas principais realizações profissionais?


William GuarnieriFormei em Medicina, especializei em medicina de família e medicina nuclear. Fui fazer subespecialização no México em terapias radionuclídicas e PET-SCAN auxiliando no diagnóstico e terapias na Oncologia. Fui aprovado em 2 concursos federais, um como professor de medicina da UFMT e outro como médico nuclear da Universidade Federal Fluminense. Dedico os meus dias a docência e a assistência médica, servidor público com muito orgulho e atuo ajudando a salvar vidas contra o câncer. Em 2020 fui convidado pelo Butantan a atuar como pesquisador da vacina que ajudou a salvar a humanidade contra a COVID-19. 

Leiagora - Quanto a sua orientação sexual, forma de se vestir, isso já foi alvo de preconceito no âmbito profissional?


William Guarnieri Eu sou muito eclético na forma de vestir e me adapto as formalidades com requinte de visagismo, bom gosto e estilo. Sou amante da moda e me apresento como a embalagem do embrulho de um presente. Eu me visto para prestigiar meus alunos, meus pacientes e meus colegas. Por isso, coloco sempre a melhor roupa. Frequentemente ouço algumas piadas de colegas de trabalho sobre as combinações de cores e estampas, a calça ou o sapato, mas isso não me afeta mais. Nunca vulgarizei minha imagem pessoal nem a profissional e não escondo minha sexualidade atrás de uma camisa social heteronormativa. 

Ainda sobre a sexualidade, já enfrentei obstáculo profissional sim. Certa vez, no concurso de residência médica, durante a etapa de entrevista, tentaram diminuir minha nota e me desqualificar. Anos mais tarde eu descobri que a banca havia investigado minhas redes sociais e por eu ser "afeminado" demais nas fotos, tentaram barrar minha entrada no hospital conservador. Contudo, minha nota e meu currículo eram tão bons que eles não foram capazes de me impedir de ser aprovado no concurso.
 
Leiagora - Considera Mato Grosso um estado violento para pessoas LGBTs? Sente falta de políticas públicas no estado e no país para a comunidade?


William GuarnieriSegundo os dados recentes publicados pelo Observatório de mortes violentas contra LGBTQIAPN+, Mato Grosso ocupa o segundo lugar no país com maior índice de mortes violentas contra essa população. A Secretaria de Estado de Segurança Pública (SESP) apontam que de janeiro até maio foram registrados 27 casos de violência contra LGBT+. Isso é apenas a ponta do iceberg. Muitos casos são subnotificados por medo, represálias ou falta de apoio às vítimas do crime de homofobia. Sinto falta, sim, de políticas públicas e privadas no Estado no intuito de coibir os crimes, pois ainda prevalece a névoa da impunidade. Muitos crimes de homofobias inconclusivos e agressores sem punição. Percebemos que o ódio contra a população LGBT traz requintes de crueldade. São inúmeras facadas nos corpos vulneráveis para destituir a dignidade inclusive do sepultamento. Eu choro a cada vítima de homofobia e devemos mobilizar a sociedade para nos defender. 

Leiagora - O que na sua opinião seria o primeiro passo para uma sociedade menos preconceituosa e violenta contra a comunidade?


William Guarnieri Fui convidado a participar de um especial na Globo na última semana, o Falas de Orgulho, exibido no último dia 21/06. Ao aceitar o convite, quis dar voz de empoderamento a todas as pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ que se sentem desmotivados ou não representados, limitados às perspectivas de violências e preconceitos que eu já vivi no passado. Quis fazer da minha história a história de luta e superação de muitos colegas da comunidade que pensam em ceifar suas vidas. Eu mesmo já pensei em limitar a minha vida e por vezes, após agressões e xingamentos, as lágrimas lavavam meu rosto com a vergonha, medo e ódio. Pensava em morrer e terminar ali todo sofrimento enfrentado. Todavia, eu via o amor de vovó Cecília, que mesmo sem estudo, me incentivava a persistir estudando.

Ela dizia que a educação iria me levar muito longe. Ela estava certa, conquistei lugares nunca imaginados. Hoje vivo entre duas cidades, na ponte aérea incessante e com muito orgulho que a minha história reverbere aos 4 cantos do mundo. Não podemos perder mais ninguém para a depressão,  nem mesmo para os crimes de homofobia. Meus amigos LGBT, vocês não estão a sós nessa caminhada. 

Leiagora - Se o Willian de hoje pudesse visitar o Willian do passado, o que você diria a ele?


William GuarnieriSe eu pudesse voltar ao passado eu teria visitado o William no leito da morte, entregue a depressão e sussurado no ouvido dele e dito: você é o amor de alguém, você é importante para a humanidade e não desista de si. Parece espiritual algo espiritual, ou um dejavú, mas eu já vivi essa cena no passado e por isso estou aqui relatando minha história. 

Leiagora - O que espera para as próximas gerações de membros da comunidade LGBTQIAPN+?


William GuarnieriA nossa luta continuará, não desistam! Quantos membros da comunidade nos antecederam e foram violentados, hostilizados e mortos, lavando a história de luta e resistência dos LGBTQIAPN+. Quantos de nós resistiram às tentativas de nos calar frente a opressão e aos crimes de homofobia? Se estou aqui hoje é para somar minha voz às inúmeras outras, por vezes silenciadas. Não passaremos desapercebidos por aqui. Vocês não conseguiram nos calar porque depois de mim, haverá muitos outros líderes da comunidade que emergirão espalhando amor e alegrias aos dias gris da sociedade sem cor. Viemos para colorir o mundo. Eu vim cintilar todas as cores da bandeira do orgulho!
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3 comentários

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  • Juliana Ribeiro Salvador 01/07/2024 às 00:00

    Parabéns pela matéria, que linda história de força de vontade, superação e sucesso! Que sirva de exemplo à todos, não interessa o ponto de partida, o que importa é cruzar a linha de chegada, e o Will chegou lindamente!

  • Criseida 01/07/2024 às 00:00

    Willian é exemplo de ser humano, bondoso, determinado, inteligente. Seu sucesso é fruto de árdua determinação e resiliência em um sociedade que rótula, exclui e tenta eliminar o diverso. Tenho orgulho de ter acompanhado seu crescimento e torço por mais vitórias. Amigo, você é amado e importante em nossas vidas.

  • Eduardo 01/07/2024 às 00:00

    Grande! Todo dia uma luta. Todo dia uma conquista.

 
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