Modelos políticos distintos podem produzir realidades sociais e econômicas contrastantes. Essa foi a impressão que o prefeito Abilio Brunini (PL) trouxe da sua viagem à China, no início do mês. Ao relatar o que viu no país asiático, o prefeito apresentou um conjunto de percepções que colocam lado a lado avanços, contradições, limitações e choques culturais entre o Brasil e a segunda maior potência econômica do mundo.
De um lado, a China aparece como um Estado de controle rígido: acesso restrito à internet global, bloqueio de plataformas ocidentais, vigilância digital intensa e centralização econômica por meio de aplicativos oficiais de pagamento.
Para o prefeito, a ausência de redes sociais como Instagram, WhatsApp, Google ou Uber ilustra um ambiente em que a liberdade individual é limitada e a circulação de informações passa por filtros estatais. Essa estrutura política, segundo ele, se apoia na manutenção de um único partido, em práticas de censura e na pouca presença de religião na vida cotidiana.
“Para nós podermos usar WhatsApp, Instagram e outras redes sociais nós compramos um chip internacional com VPN, senão não conectava em nada. Só para ter ideia, não tem Uber, TikTok, Instagram, iFood, não tem nada dos aplicativos que a gente mais usa aqui, nem o Google”, disse o prefeito em coletiva de imprensa na terça-feira (12).
Ao mesmo tempo, o país que restringe liberdades civis é descrito como mais liberal na economia do que o próprio Brasil. O discurso do prefeito ressalta a agilidade para abrir empresas, a predominância de jornadas exaustivas e a quase inexistência de direitos trabalhistas, como décimo terceiro ou férias remuneradas. Para ele, trata-se de uma contradição evidente: um regime que se apresenta como comunista, mas que funciona com características de mercado ainda mais intensas do que as encontradas em economias ocidentais.
No campo social, as diferenças também são destacadas. As pautas progressistas que marcam debates brasileiros e latino-americanos estão ausentes na China. Temas como diversidade de gênero, direitos LGBT e discussões sobre inclusão não aparecem no discurso público, e práticas como o tráfico de drogas recebem punições extremas, incluindo pena de morte. A comparação, nesse trecho, serve para evidenciar valores culturais mais conservadores do que os vigentes no Brasil, mesmo dentro de um regime oficialmente comunista.
A questão da segurança pública surge como um dos pontos de maior contraste. Abilio relata ter ouvido de chineses a percepção de que o Brasil é um país inseguro, enquanto, na China, circular nas ruas a qualquer hora seria uma prática comum e sem riscos aparentes. Esse paralelo reforça a presença de políticas rígidas e vigilância constante de um lado, contra um cenário de violência urbana no outro.
Ao mesmo tempo, o prefeito reconhece desigualdades e desafios estruturais no país asiático, citando moradias precárias semelhantes a cortiços e a coexistência de riqueza extrema com pobreza concentrada em grandes centros urbanos. Para ele, esses exemplos desmontariam a ideia de que o comunismo produziu igualdade social.
Por fim, a dimensão econômica aparece como eixo comum: independentemente das diferenças de valores, direitos ou liberdade, a China se mostra pragmática para negócios. Segundo o prefeito, o país vive uma lógica voltada ao comércio, à exportação e à abertura para transações internacionais, enquanto sua população convive com uma realidade moldada por restrições e pela ausência de referências externas.
O conjunto de observações ilustra um país que combina controle político severo com dinamismo econômico, conservadorismo social com modernização tecnológica e desigualdade urbana com alta produtividade industrial. Um retrato que, ao mesmo tempo em que impressiona, também expõe tensões internas entre ideologia e prática, e que reforça, pela fala do prefeito, como diferentes modelos de governo resultam em impactos profundos nas vidas de seus cidadãos.