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29/03/2020 às 16:32

De volta da França, cuiabana diz que Brasil ainda não está consciente: “Via o desespero na cara das pessoas”

Estudante relata saga para voltar ao Brasil diante do confinamento na Europa

Camilla Zeni

De volta da França, cuiabana diz que Brasil ainda não está consciente: “Via o desespero na cara das pessoas”

Foto: Arquivo Pessoal

Uma pandemia provocada por um vírus que se alastra pelo mundo. O país vizinho aumentando, diária e consideravelmente, o número de infectados. Seu país de residência anunciando o fechamento de fronteiras e seu país natal barrando a entrada de estrangeiros. Era nesse cenário em que se deparava a cuiabana Ana Luísa Melo Ferreira, de 24 anos, que há dois mora na França. 

Na quinta-feira (26), Ana Luísa chegou da Europa com a filha Olívia, de três anos, de volta a Cuiabá. Um trajeto de mais de 10 mil quilômetros que envolveu quase duas semanas de ansiedade e medo. 

A viagem para casa, que estava programada para o dia 4 de junho, foi adiantada para 2 de abril. Afinal, a cuiabana, que faz mestrado na França, estava liberada das atividades em razão do avanço da pandemia e do fechamento das cidades na Europa.

Mas não deu para esperar. No dia 16 de março, o presidente da França, Emmanuel Macron, avisou que iria intensificar as medidas de restrição social no país. Ele anunciou o fechamento da fronteira e novas regras para o confinamento da população, que ficou sujeita ao pagamento de multa caso fosse flagrada circulando pelas ruas francesas sem um motivo justificável.

“Eu comecei a ficar com medo, pensando se conseguiria sair. Mas o Macron falou que não iria mais receber estrangeiros e não impedir quem fosse sair. Então eu consegui antecipar a minha passagem depois de muita luta, de ficar horas e horas ligando. Era muita gente tentando antecipar ao mesmo tempo, antes que fechassem tudo”, lembra a cuiabana.

Ana Luísa conseguiu um voo para o dia 24 de março, mas ainda não conseguia relaxar. No dia 21, resolveu tentar antecipar a passagem ainda mais, mas quando ligou para a companhia aérea, um susto: o voo, que fazia escala em Lisboa (Portugal), estava cancelado.

“Eu já estava desesperada. Falei: ‘gente, eu tô na casa de uma amiga em Paris, tô com uma criança aqui. Eu preciso sair desse país, preciso voltar para casa’”, conta a mestranda. Com sorte, ela conseguiu um voo para Portugal no dia seguinte e lá ficou por três dias, esperando o voo do dia 24, que seguiria para o Brasil.

Segundo Ana Luísa, devido aos decretos de confinamento na Europa, as cidades já não estavam lotadas, assim como a entrada nos aeroportos. Mas o desespero veio depois, na sala de embarque: eram muitas as pessoas que aguardavam por uma oportunidade de voltar para casa. E não é porque não tinham passagem, mas porque seus voos eram sempre cancelados.

“Foi muito assustador. No meu voo a espera era composta, basicamente, por brasileiros. E eram duas filas, uma de gente com assento marcado e outras sem. Essas que estavam sem assento só poderiam entrar no avião depois, e se sobrasse espaço. Eram pessoas que estavam há dias tentando voltar”, relata a universitária.

Segundo Ana Luísa, as companhias aéreas não davam suporte para quem não conseguia voltar e, assim, os brasileiros precisavam arcar mais um dia com hotel e alimentação, além de ter que lidar com o psicológico exigido para a situação. “Você via o desespero na cara das pessoas, via várias pessoas chorando”, acrescenta.

Sem controle
Ao chegar em Guarulhos (SP), Ana Luísa, que ficou gripada devido a mudança climática, não teve dificuldades em entrar no país. Ninguém perguntou de onde vinha e se apresentava os sintomas do novo coronavírus. Segundo ela, o único desafio foi chegar em Cuiabá, já que os voos estavam sendo cancelados. 

Foram necessários dois dias de espera até chegar em Mato Grosso, e, mais uma vez, ao aterrissar, não viu nenhum controle sanitário. Sequer um funcionário a questionou de onde vinha ou sobre sua gripe.

“Na França estava super apocalítico. Você sentia uma energia pesada. Eu vi gente brigando para não chegarem perto. Mas nas fronteiras não me perguntaram nada, só desejavam boa viagem. Passei pela imigração e foi muito tranquilo”, conta.

Brasil despreocupado

Para Ana Luísa, embora seja possível notar preocupação de parte da população com relação ao novo vírus, as pessoas ainda não estão conscientes do nível da pandemia. “Parece que não se dão conta da gravidade do negócio. Pensam que não são grupo de risco e não precisam esquentar a cabeça”, avalia.

A universitária também notou a diferença com que os governos brasileiro e francês conduzem a situação. Em sua visão, o presidente Jair Bolsonaro age com irresponsabilidade com a vida da população e com o sistema de Saúde. 

Segundo a estudante, a preocupação com o comércio e a economia também corre na França, cujo governo é mais liberal. No entanto, ela afirma que os moradores se sentiram acolhidos por Macron, que determinou confinamento mas anunciou um suporte para que os trabalhos fossem mantidos e as empresas não quebrassem. 

Já no Brasil, Ana Luísa chegou a tempo de presenciar o chefe de Estado minimizar a situação. Em rede nacional, Bolsonaro afirmou que não seria derrubado por uma “gripezinha” e incentivou o retorno da população às ruas.

“Eu acho que o governo brasileiro está sendo muito irresponsável com a vida das pessoas e o Sistema Único de Saúde. Todos os países do mundo todo estão preocupados com a economia. A prioridade do governo brasileiro não está sendo a vida das pessoas”, finaliza.

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