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28/06/2020 às 08:30

Dia do Orgulho LGBTQIA+: entre avanços e retrocessos homossexuais reforçam uma luta que é diária

É uma data para que a população homossexual possa dizer que existe, tem direitos e sente orgulho de ser quem é

Luzia Araújo

Dia do Orgulho LGBTQIA+: entre avanços e retrocessos homossexuais reforçam uma luta que é diária

Foto: Shutterstock

Neste dia 28 é celebrado o Dia do Orgulho LGBTQIA+, em todo o mundo. Nesta data a população de gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e pessoas intersexo expressa o seu sentimento em busca da igualdade social, diminuição da violência e pelo orgulho da sua orientação sexual. 

 

Um levantamento feito pela Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT), apontou que em Mato Grosso, de janeiro a maio de 2020, foram registrados 101 casos de criminalização da discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, mais que o dobro dos registros feitos no mesmo período de 2019, quando foram 49.

 

Os dados são obtidos com base nos boletins de ocorrência registrados revela uma aumento de 106,1% dos casos no Estado. 

 

O professor nos cursos de Biologia e Pedagogia da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat) campus Cáceres, Victor Hugo de Oliveira Henrique, de 28 anos, assumiu a sua homossexualidade quando tinha 16 anos, depois que seus pais leram suas conversas no antigo MSN Messenger, e, definitivamente não foi algo fácil e o assunto ainda é tabu na família 12 anos depois. 

 

Victor relata que "foi um horror na época". Os pais choraram e não aceitaram. Católicos praticantes, levaram o filho para a igreja na tentativa de fazê-lo mudar de ideia. "Na época até achei que nem realizaria meu sonho de sair para estudar, pois isso aconteceu na minha cidade natal, em Araputanga, uma cidade típica do interior, onde a igreja, até hoje, tem muito controle sobre tudo”, lembrou.

 

Por outro lado, o professor comemora os avanços obtidos nos últimos anos com o Papa Francisco, que aos poucos está desconstruindo muita coisa na igreja católica.

 

Mesmo depois de 12 anos, Victor disse que a sua família ainda trata o assunto como tabu. “Eles sabem, eu não escondo e já apresentei um namorado a eles, mas na maior parte do tempo, eles ainda fingem que não sou homossexual. Acredito que isso é a realidade de muitas famílias, mas algumas são piores ainda, expulsam seus filhos ou submetem a tratamentos mirabolantes de 'cura gay'".

 

O professor afirmou que não se recorda de ter sofrido preconceito de forma tão explícita, atribuindo isso ao fato de não possuir trejeitos afeminados. Porém, ele disse que possui amigos gays afeminados, amigas lésbicas mais masculinas e amigas transsexuais, e que ao lado delas e deles, já presenciou olhares estranhos das pessoas, se sentindo, de certa forma, atingido também pelo preconceito. 

 

“Já sofri preconceito em sala de aula, partindo de alguns alunos, com piadas homofóbicas, mas enquanto professor e sendo a autoridade em sala de aula, desenvolvi atividades para trabalhar a temática LGBT na escola e consegui sensibilizar diversos alunos e trabalhar a desconstrução neles. Penso que os movimentos sociais, por meio da cobrança de criação e efetivação de políticas públicas é algo essencial para o combate a homofobia e acredito fielmente na educação como forma de transformação da sociedade". 

 

Para ele, a "homofobia tem cura" e está na educação. "É um trabalho lento, mas necessário, até então, temos mortes todos os dias de LGBTs, por mais que seja um processo lento, deve ser feito o quanto antes e cotidianamente”. 

 

Victor Hugo acredita que o Dia do Orgulho LGBTQIA+ é uma data para reafirmar os direitos iguais para todos e celebrar as diferenças. "Viva a diversidade sexual, de gênero, de etnias, de tudo. É a diversidade que move o mundo. Vejo pessoas falando de "Orgulho Hétero" (ou até Consciência Branca se formos falar das questões raciais). É preciso lembrar que até hoje, em diversos países ainda é crime ser LGBT, e mesmo no Brasil, não ser crime e já ter avançado no Supremo Tribunal Federal (STF) na criminalização da Homofobia, ainda somos um dos países que mais matam LGBTQIA+". 

 

Seguindo este conceito, para Victor é "extremamente preconceituoso falar em "Orgulho Heterossexual", pois o Orgulho LGBT vem no sentido de celebrar essa diferença que existe no mundo, mas que é assassinada diariamente pelo simples fato de ser diferente”.

 

O orgulho LGBTQIA+

 

Já para o vice-presidente do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual, Clovis Arantes, o Dia do Orgulho LGBTQIA+  é uma data importante para a população homossexual dizer que existe, tem direitos e sente orgulho de ser quem é.

 

“Hoje, a expectativa de vida de uma travesti é de 38 anos. Neste período de pandemia, que as pessoas estão em casa, tivemos um aumento de 48% nos casos de pessoas homossexuais mortas no Brasil. Então, não é fácil. Precisamos dizer que existimos, temos orgulho e queremos viver”, disse o vice-presidente. 

 

A luta pelos direitos iguais e contra o preconceito é diária e está longe de acabar, mas Arantes lembrou que algumas conquistas  já foram alcançadas pela população LGBTQIA+ ao longo dos anos. A exemplo, a possibilidade de declarar união estável, criminalização da LGBTfobia, despatologização da pessoa transexual e, mais recentemente, a permissão para homossexuais serem doares de sangue, aprovada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). 

 

“Para nós foi uma grande conquista, porque o STF vem dizer que o padrão seletivo não pode acontecer. Ele tem que ter padrões técnicos e quanto a isso nós sempre fomos a favor. Até porque estamos falando de sangue que vai salvar vidas”, ressaltou Clóvis, informando que uma cartilha com orientações sobre a doação de sangue foi elaborada por entidades nacionais para sanar as dúvidas sobre o assunto. 

 

O material foi produzido pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos  (ABGLT),  Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e  Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e está disponível para acesso virtual nos sites das entidades. “Vamos utilizar esse material para ressaltar a campanha de conscientização e doação de sangue”. 
 

É preciso avançar mais

 

Mesmo com os avanços já conquistados, Clóvis disse ainda que os direitos à população LGBTQIA+ tem muito que avançar.  “Temos muito o que caminhar, porque três dessas vitórias foram judicializações, por meio do STF. Nunca tivemos uma lei votada no Congresso Nacional. Estamos felizes com tudo isso que já conquistamos, mas ainda queremos aprovar no Congresso um plano de direto, promoção e proteção às pessoas LGBTQIA+”, avaliou.

 

Para o vice-presidente, houve um retrocesso nas pautas ligadas a população LGBTQIA+ no atual Governo Federal, como o encerramento das Conferências Nacionais de Direitos Humanos LGBTQIA+ e o fechamento do Conselho Nacional de Políticas Públicas LGBTQIA+, órgão de fiscalização e elaboração de políticas para a população homossexual. 

 

“Cada dia é um desmonte. Tudo isso é um retrocesso, porque a população LGBTQIA+ continua existindo. A partir do momento que tiram o foco da promoção e da proteção dessas pessoas, se abre possibilidade para ela adoecer mais e morrer mais. É uma situação muito séria”.

 

Mesmo diante desse cenário de conquistas e derrotas, Clovis ainda tem esperança de que a população homossexual vai superar as crises, inclusive a pandemia, e reconstruirá uma sociedade em cima de valores sociais, fraternais e menos violento. “Temos que lutar todos os dias. Ficar visíveis,  divulgar as redes de proteção social e denunciar a violência. Se existe uma maneira de diminuir a violência é denunciando aos órgãos competentes, através do disque 100 ou 180”.

 

Parada da diversidade sexual

 

Arantes disse ainda que a tradicional Parada da Diversidade Sexual de Cuiabá, realizada para comemorar o Dia do Orgulho LGBTQ+ na capital, ainda não tem data para acontecer, em decorrência da pandemia do novo Coronavírus. Porém, hoje durante o dia as instituições nacionais prepararam lives para celebrar este dia. 

 

A data

 

A data era 28 de junho de 1969. Há exatos 48 anos, gays e lésbicas eram discriminados, perseguidos e violentados pela polícia de Nova Iorque no bar Stonewall Inn. Revoltados contra as prisões arbitrárias, os frequentadores do bar se rebelaram contra a violência policial e encurralaram os agentes dentro do estabelecimento. A manifestação durou seis dias e passou a ser conhecida como Revolta de Stonewall.

 

A revolta virou sinônimo de orgulho para a população LGBT. A sigla compreende as identidades individual, social e cultural de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. Por isso, o dia 28 de junho é celebrado em todo o planeta como o Dia do Orgulho LGBT para lembrar a diversidade sexual humana, conhecida também como orientação sexual.

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