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Notícias / Entrevista da Semana

12/07/2020 às 08:00

Retomada do turismo vai depender de investimento em tecnologia e protocolos de segurança

O Leiagora conversou com o secretário adjunto de Turismo, Jefferson Moreno, para saber dos impactos da Covid-19 e os planejamentos para retomada das atividades

Luzia Araújo e Edyeverson Hilario

Retomada do turismo vai depender de investimento em tecnologia e protocolos de segurança

Foto: Leiagora

Mato Grosso é um dos estados brasileiros que possui uma imensa variedade de riquezas naturais que encantam os olhos de quem vê e atraem turistas de todos os lugares para desbravar o território mato-grossense. O turismo, além de ser uma oportunidade de conhecer novos lugares, conhecer novas culturas e se divertir, também movimenta a economia, gerando empregos e renda. 

Segundo um levantamento do Ministério de Turismo, no último ano, o setor registrou o melhor desempenho da história, com um faturamento de R$ 238,6 bilhões.

Crescimento também percebido na geração de emprego. Uma pesquisa feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), apontou que em 2019 o turismo brasileiro teve um crescimento de 2,2% no faturamento real, se comparado a 2018.  O que representa um aumento de R$ 5,1 bilhões. Além disso, houve mais de 35,6 mil pessoas empregadas pelo segmento, quantidade 163,6% superior ao número de ocupados em 2018.

Este ano a previsão era de crescimento, contudo, o país se viu em meio a uma pandemia, que obrigou a paralisação de diversas atividades econômicas, entre elas o turismo, gerando uma enorme crise financeira e insegurança no setor, que ainda não sabe quando irá retomar os trabalhos.

Leiagora conversou com o secretário adjunto de Turismo, Jefferson Moreno, para saber dos impactos da Covid-19 e os planejamentos para retomada das atividades em Mato Grosso.

Leiagora - O turismo regional começou ganhar força nos últimos anos, quais foram os principais  investimentos do Governo do Estado no setor?

Jefferson -
Nós fizemos alguns investimentos em feiras, promoções que fizemos no ano passado e infelizmente não vamos conseguir realizar eventos esse ano. Mas vamos fomentar o turismo na parte digital. Fazer com que os turistas do Estado e do Brasil queira conhecer nosso estado. Tem muitos mato-grossenses que não conhecem nosso estado. Tem muita gente aqui que não sabe aonde é nobres, essas belezas do pantanal, não conhece as belezas do Araguaia, da região norte do Estado, que é a Amazônia mato-grossense, não conhecem as belezas das aldeias indígenas que estão preparadas para receber o turista.

Nós temos uma gama diversificada de potencialidades turísticas que nós estamos colocando em plataformas para subir para mídias digitais que nunca foram tão exploradas. Esse é o momento que a gente tenta começar a explorar as mídias digitais para divulgar mais o turismo no estado e no Brasil.

Região do Araguaia ( Foto: Marcos Vergueiro)

Leiagora - E o que ainda falta para que as pessoas se interessem mais pelas belezas do estado?

Jefferson - Muita gente põe na balança os preços. Quando você fala do Nordeste e a demanda que eles têm na praia, você está falando de 15 a 20 mil leitos para oferecer. Já aqui no Pantanal, Chapada dos Guimarães e nos atrativos que temos, nossos números são muito restritos e sempre ficaram com taxa acima dos 70%.

Aí eu entro em algumas discussões: quando você fecha um pacote com outros estados, você está pagando o transporte aéreo e hospedagem com café da manhã, e todo o resto que não vir junto, você vai pagar como despesa extra - alimentações são extra, até guarda sol você paga.

Mas em todos os pacotes de hotéis, resorts, atrativos que temos aqui no estado está tudo incluso. As alimentações estão inclusas, muitos oferecem bebidas, inclusive as alcoólicas, então tem que colocar tudo isso no peso para no final você ver se compensa ou não.

Eu ainda vejo um grande tabu nessa relação dos preços. Nós brasileiros nos programamos para viajar para fora do estado, para fora do Brasil, mas não nos programamos para ir para o Pantanal. Então na hora que eu quero ir para o Pantanal, se é um período de alta temporada, estamos com o preço, uma tarifa mais cheias. O custo operacional do Pantanal, de uma região da Amazônia ou do Araguaia, é mais alto.

O pessoal reclama, mas consegue se programar para ir viajar para praia, para Disney e Europa. Quando é para ir próximo de casa, não consegue programar e, quando decide é em um final de semana e geralmente é alta temporada aí as pessoas começam a comprar pacotes para os outros anos.

Leiagora - Logo no começo deste ano, veio uma pandemia e o turismo foi um dos setores mais afetados em todo o país, quais foram os prejuízos contabilizados no setor em Mato Grosso? 

Jefferson - Quando começou a pandemia na Europa, começou a diminuir no Brasil. Desligou a chave do turismo. Tivemos os decretos municipais e estaduais. Alguns foram muito duros, para não deixar a pandemia se proliferar, teve outros que foram mais brandos. Os dados do impacto econômico nós não temos ainda.

Neste ano, com a determinação do governador e do secretário Cesar Miranda, nós montamos o Observatório do Desenvolvimento Econômico e vamos começar a ter esses dados daqui do Estado. Vamos começar a partir do segundo semestre ter informações mais reais do turismo. 

Nobres ( Foto: Rafaella Zanol / Gcom MT)

Leiagora - Aos poucos, algumas cidades começam a retomar as atividades, mas em um chamado 'novo normal'. É possível que o setor do turismo se adeque a este novo momento? E quais medidas serão implantadas para a retomada das atividades com segurança ao turista?

Jefferson - Ao longo desses dois meses, começamos fazer uma série de reuniões com os secretários municipais e os empresários do setor de turismo, para que os secretários começassem a entender um pouco do que está acontecendo no Brasil. Tivemos uma reunião com o presidente do Fornatur (Fórum Nacional dos Secretários e Dirigentes Estaduais de Turismo) para explanar um pouco do que está acontecendo no cenário brasileiro, para o pessoal não achar que é só na sua cidade que está acontecendo esse negócio de pandemia, esses decretos muito duros.

Tivemos uma outra reunião com a secretária adjunta de Turismo de Minas Gerais que nos falou sobre a Plataforma Integrada de Turismo, que é o PID. A gente fez uma parceria com Minas Gerais para fazer um grande inventário turístico do Estado. Criando essa plataforma de turismo onde os municípios vão inserir seus dados de todos os itens econômicos de sua cidade, vão estar inseridos dentro dessa plataforma e nela o turista vai conhecer a cidade.

Por exemplo, se ele quiser ir para Nobres, ele lá de São Paulo, vai acessar a cidade e vai conhecer. Na plataforma também vai aparecer as agências que operam em Nobres e na cidade onde ele está. Ela falou da importância de que cada município tenha seu inventário turístico que, no contexto geral, eles têm muito mais informações. 

Tivemos uma reunião com o presidente do Desenvolve MT, para falar sobre as linhas de créditos, que o governo está disponibilizando não só com o Fungetur, como capital de giro de até R$10 mil. A Desenvolve fez um grande trabalho com uma plataforma digital para agilizar o processo no meio dessa pandemia, para não ter muito contato.

Ainda tivemos uma reunião com uma consultora de Turismo de Minas Gerais que implantou o Circuito do Ouro lá em Minas, pioneiro da regionalização do Brasil. O programa do Ministério do Turismo de regionalização do Brasil, passa por Minas Gerais, porque o Estado já tinha essa política implantada. Ela nos explicou os grandes desafios e Mato Grosso está engatinhando ainda. Fechamos o mapa do Brasil no ano passado, com 14 regiões e 85 cidades dentro do mapa do turismo, mas o pessoal está querendo entender como é que isso funciona nos outros estados.

Trouxemos uma outra pessoa de mídia digital para falar desse momento de pandemia em que os atrativos estão fechados, a importância de estar em uma plataforma digital, alguns não tinham plataforma digital, não sabiam nem como funciona direito. E esse é o momento em que você devia começar vender expectativa. Tirar fotos de um lugar paradisíaco, encher o olho do turista de vontade de ir, uma vez que Mato Grosso, nessa parte do turismo de aventura, de contemplação é muito bonito.

A gente vê nas pesquisas que a Embratur está fazendo no Ministério que muita gente quer ir para a natureza e a gente tem um carro chefe muito forte, que é a natureza.

Trouxemos também a coordenadora do Observatório de Turismo de Mato Grosso do Sul, que falou da importância dos municípios terem dados. Porque a gente falando do turismo, tem uma região ou outra que está mais desenvolvida e a gente acaba sempre focando em umas regiões.  Desde que entrei aqui eu rodei as 14 regiões do Estado, para entender um pouco de cada região, como funciona o turismo e ressaltando que é importante ter dados. Se não tem, como vamos fazer ações sendo que eu preciso deles para atuar nas regiões. Ela falou de como eles conseguiram pegar recursos fora do Estado, por ter banco de dados. Aí ela explicou todas as categorização que o observatório fala.

Chamamos representantes do Sebrae para falar do projeto estratégico para a retomada e a coordenadora do projeto de regionalização do turismo para falar sobre o programa. Então fechamos o ciclo de reuniões online que tivemos com os secretários municipais e os empresários que quiseram participar das discussões. 

Agora já estamos preparando uma parceria entre a secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec), a Unimat e o Sindicato de Bares, Hotéis e Restaurantes, sobre um tema específico, a retomada do segmento. Então, vamos ter protocolos de segurança para a retomada do turismo. A gente convidou um secretário do Ministério do Turismo para falar com os empresários e vai ser em um canal aberto, por lives no YouTube, então vou ter protocolos de biossegurança para a retomada do turismo.

Nós convidamos um doutor para falar sobre esse protocolo e o secretário do Ministério de Turismo para falar um pouco dos selos do turismo que foi criado pelo Ministério. Essa reunião vai acontecer nos próximos 15 dias, para discutirmos com os secretários e empresários a retomada do segmento do turismo com a maior segurança possível. 

Foto: Rafaella Zanol / Gcom MT

Leiagora - A tecnologia vai ser uma ferramenta muito utilizada enquanto não houver uma retomada das atividades práticas para fomentar o turismo. Vocês pretendem digitalizar esses pontos turísticos para que os turistas tenham acesso a essas imagens?

Jefferson - Exatamente, temos que entrar na era digital. Vamos provocar a vontade no turista de querer conhecer os atrativos que tem aqui no Estado. Aí não só a parte do turismo de lazer. Tem o turismo de negócios também, a gente tem os centros de eventos para também colocar nessa plataforma e empresários começarem a ver o potencial que a gente tem de eventos. Vamos fazer essa plataforma bem integrada, com toda a demanda da parte do turismo, tanto da parte do lazer, quanto de negócios, para mostrar o nosso potencial turístico. 

Leiagora - Quais foram as alternativas buscadas pelo seguimento para enfrentar a crise? E quais são as dicas para quem quer manter o negócio enquanto enfrentamos a pandemia?

Jefferson - Tivemos bastante conversas com os presidentes dos sindicatos para ver o que podíamos fazer. O primeiro momento é a parte financeira. Então, temos as linhas de créditos disponibilizada no estado, o fundo do Governo Federal, que a Desenvolve MT opera aqui no Estado. Então a gente tem um capital de giro de até R$ 100 mil, que tem essa plataforma online que você acessa para ter acesso às linhas de créditos e lá tem todos os requisitos que você precisa preencher.

Nós começamos também a ter uma discussão sobre outras linhas de créditos, tivemos reuniões com o ministro em que pedimos linhas de créditos, inclusive, não só para os pequenos e médios, então vimos bastante ações aí com o BNDES, desde as companhias aéreas até os grandes empresários, donos de hotéis, resorts, produtores de eventos. O BNDES está montando linhas não só para o turismo, mas para o segmento empresarial. Demora um pouco para aparecer, mas nós temos notícias que empresários estão tendo acesso à linhas de créditos em bancos privados também.

Leiagora - O setor tem alguma perspectiva de quando será retomada às atividades turísticas? O que deve mudar no setor turismo na pós-pandemia?

Jefferson - Falar em retomada é muito precoce porque depende muito dos municípios. O MP pediu lockdown em cidades que afeta 13 municípios diretamente só na baixada cuiabana. Quando você fala em Cuiabá e Várzea Grande, que adotou um período de quarentena, acaba afetando os municípios do entorno.

Nobres estava em um processo de reabertura no turismo, mas parou. Reabriu agora, mas vai adiar mais um pouco, porque estavam esperando o decreto de Cuiabá e Várzea Grande, que reflete nos municípios. Poconé restringiu um pouco mais a atividade turística de lá. Fecharam 100%, depois abriram com a capacidade dos hotéis em 50%, e aos poucos vai retomando.

Nós temos um caso em Sinop, que a prefeita abriu e o Ministério Público pediu intervenção e fechou tudo, restringiram o horário. Então, a gente fica monitorando as cidades para ver quais ações a gente pode fazer em conjunto.

O que os empresários me falam que a maior preocupação deles é com os funcionários, de receber turistas e passar a doença para eles, todos eles têm essa preocupação. Com os protocolos de segurança que todos eles vão ter que se adaptar nesse momento e a parte financeira. 

Nesse momento agora se eu falar para você, mês que vem retoma, não acredito nisso. Acho que vai ser um processo gradativo que tendo um movimento turístico interno no Estado. Por exemplo, Cuiabá e Várzea Grande vão fomentar o movimento aqui da baixada, a região do norte vai fomentar aquela parte. Vejo que em março, quando começou os decretos, teve muita gente que estavam isoladas, mas eles não aguentam ficar 100 dias isolados, então esse pessoal, precisa também espairecer a cabeça, ir para um lugar de campo. Acredito muito nisso. Muitas pessoas que eu converso fala que não estão mais aguentando ficar nos apartamentos. 

Me parece que os planos de saúde serão obrigados a cobrir os testes. Você pode argumentar isso, ‘você vem para o meu hotel, teu teste vai ter um prazo de cinco dias, 10 dias, então, com o protocolo é só ver com o médico qual é o período bom, por quanto tempo vale esse exame que você fez. Aí em diante, cada cidade vai retomando, colocando os seus limites.

Leiagora - O senhor acredita que turismo regional pode alavancar no período pós-pandemia?

Acredito que vamos crescer o regional primeiro, nesse ano. Em segundo momento, vamos ter o turismo doméstico. O brasileiro viajando no Brasil. Depois abrindo aí para o turismo internacional. Nesses dias falei com um executivo da Azul e eles tinham 1100 voos diários, e estão operando com 200 voos diários, então, nós não temos nem aeronave rodando no estado. Os voos que estão vindo para cá, que são poucos ainda, estão vindo com menos de 40% de ocupação, não estão passando dessa margem, principalmente os que vem para Cuiabá. Já retornaram 6 voos daqui, mas ainda está gradativo. Está vindo quem está trabalhando, para turismo de lazer, não estamos vendo esse turista ainda com confiança para viajar. 

Leiagora - Como o senhor imagina o comportamento do turista pós-pandemia? Quais serão os desafios do setor?

Jefferson - Com certeza vão estar muito mais exigentes com os protocolos que todos os atrativos, que todos do segmento do turismo vão estar prestando agora. A campanha que o Governo Federal está fazendo com o selo, está tendo uma boa aceitação no Brasil inteiro, você vai classificar pelo selo como está sendo os protocolos adotados nos estabelecimentos. Então eles vão estar muito mais exigentes com esses protocolos de segurança e os empresários vão ter que entrar no universo digital para buscar o seu turista que vai estar nessa era da biossegurança, que será uma tendência no mercado mundial.

Foto: Marcos Vergueiro

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