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Notícias / Entrevista da Semana

13/09/2020 às 08:13

Psiquiatra faz alerta: suicídio não é doença, é consequência

Luzia Araújo

Psiquiatra faz alerta: suicídio não é doença, é consequência

Foto: Arquivo Pessoal

Se você conhece alguém que está triste, estressado emocionalmente ou abusando de substâncias psicoativas (drogas ilícitas) ou álcool e não está conseguindo lidar com isso, ele pode estar com depressão e precisando de ajuda. A depressão é um dos transtornos mentais que pode levar ao suicídio.

O mês de setembro é dedicado a prevenção ao suicídio, conhecido como o setembro amarelo. Mais de 90% dos pacientes que tentaram tirar a própria vida possuem um transtorno mental que pode ser tratado, sendo que mais de 30% deles está associado à depressão. Por esta razão, conversar sobre o assunto é muito importante para prevenção.

Para orientar e esclarecer sobre o assunto o Leiagora entrevistou a médica psiquiatra, docente da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e presidente da Associação Mato-Grossense de Psiquiatria, Maria Fernnanda Carvalho.

Confira a íntegra da entrevista 

Leiagora – Existe muito tabu e preconceito em falar sobre o suicídio, dificultando o esclarecimento sobre o assunto e a procura por ajuda de qualidade que pode salvar uma vida. Quais cuidados precisamos ter ao falar de suicídio?

Dra. Maria Fernnanda – O suicídio é uma emergência psiquiátrica decorrente, na grande maioria, de transtornos mentais não tratados ou maltratados. Então, o suicídio não é uma doença, é uma consequência final. Se estou vendo que uma pessoa não está bem emocionalmente, está deprimida, com abuso de substâncias ou estresse emocional muito grande e não está conseguindo lidar com isso, tenho que procurar ajuda neste momento. Muitas vezes, procuramos ajudar no final e não conseguimos salva-la. As pessoas têm dificuldade de falar sobre suicídio, porque quando alguém começa a pensar nisso, ele está em uma emergência psiquiátrica desesperadora.

Quem pensa em suicídio não quer acabar com a própria vida, ele quer acabar com um sofrimento interno. Existe um tabu em pensar que quando falamos sobre isto estamos sugerindo que ela faça e é o inverso. Muitas vezes, a pessoa está com um sofrimento interno e o que ela mais precisa é apenas falar, liberar tudo que está ali dentro. Então, quem está próximo dela precisa saber ouvir sem julgamento. Depois, entender que o pensamento suicida são períodos de desespero que a pessoa não consegue lidar com os seus problemas.

Vale ressaltar que uma coisa só não é capaz de promover o suicídio. Existe um conjunto de fatores que faz com que a pessoa adoeça internamente. Temos que dizer que ela pode se tratar, mudar de vida e procurar um atendimento psiquiátrico para fazer um diagnóstico da doença mental, se ele tiver. É importante destacar que 96.4% dos pacientes que tentam suicídio possuem um transtorno mental associado, sendo que mais de 30% deles tem o transtorno depressivo. Em segundo lugar vem o abuso de substâncias e do álcool e em terceiro o transtorno afetivo bipolar. Então, se queremos falar em suicídio, temos que falar em avaliar o sofrimento mental, tirar o estigma relacionado à procura pelo atendimento psiquiátrico de qualidade e por um tempo adequado, porque as pessoas não se mantem em tratamento e isso faz com que elas fiquem maltratadas.

Leiagora – Quais são os principais distúrbios relacionados à prática do suicídio?

Dra. Maria Fernnanda – 96.4% dos suicídios estão associados a transtornos mentais. O mais prevalente é o transtorno depressivo, em mais de 30%. Depois temos o transtorno afetivo bipolar, em seguida o transtorno psicótico, especialmente a esquizofrenia e o uso de substância psicoativas (drogas ilícitas) e dependência de álcool. 

Leiagora – Como identificar uma pessoa com depressão e tendências suicidas? E como podemos ajuda-la?  

Dra. Maria Fernnanda – Temos que observar se essa pessoa está com humor deprimido, com tristeza, não está se alegrando com as coisas do dia a dia, não está vendo perspectivas futuras, está com alteração de sono e de apetite e que não está vendo alegria para viver. Ela tem que estar dessa maneira, no mínimo, há duas semanas, todos os dias ou na maior parte do dia. Então, um dia ou outro ter tristeza é algo comum. Só que se isso estiver persistente nós temos que prestar atenção.

Temos que observar como nós éramos e como nós estamos. Que não dá para compararmos a nossa vida com a do outro. Não podemos ficar comparando como o outro está. Eu tenho que avaliar como eu sou, como eu estou. Se eu estou diferente do meu habitual, muito triste, desanimada, sem perspectivas futuras e isso estiver persistente e causando um sofrimento muito grande para mim é um sinal de alerta que eu preciso procurar uma ajuda especializada. Nesse momento, o profissional vai ver a avaliação e a conduta desse paciente. Se for uma depressão leve, podemos tratar com mudança de estilo de vida e psicoterapia. Se for uma depressão moderada e grave, precisamos usar medicação, psicoterapia e mudança de vida. Precisamos entender que medicação não é algo ruim. Temos que resolver o problema. Existe o tabu de não querer tomar o remédio. Acho que não é o ponto de querer ou não. É querer ou não tratar e resolver o problema que esse paciente tem.  

Leiagora –  As vezes a depressão é subestimada. Além disso, algumas pessoas chegam a tentar tirar a vida, e depois ouve que só queria chamar a atenção. O que você tem para falar para essas pessoas que desprezam a doença ou o suicida?

Dra. Maria Fernnanda – Se pensarmos que uma pessoa utiliza da tentativa de tirar a própria vida para chamar a atenção e acharmos isso normal, já não é normal. Uma pessoa que não está conseguindo lidar com os problemas do dia a dia, do relacionamento ou do trabalho e ela parte para uma tentativa de suicídio para “tentar” resolver esse problema, é uma pessoa adoecida de alguma forma. É uma pessoa que não está conseguindo lidar com problema dela e está reagindo de uma maneira desproporcional. Então essa pessoa precisa de ajuda.

Não sabemos se a ajuda que ela vai precisar será medicação, mudança de estilo de vida, readequação. O que precisamos entender é que essa pessoa não está bem e a partir daí leva-la para uma avaliação e tentar entender. Tem pessoas que tem baixa resiliência, que tem mais dificuldade para lidar com as adversidades da vida, mas aí que procuremos uma maneira dessa pessoa compreender e aliviar essa dor interna e elabore maneiras de lidar dor com essa dor, que não seja acabando com a vida dela. 

Leiagora – Existe ainda aqueles que acabam que, sem saber como lidar e entender que se trata de uma doença psíquica, leva para o lado religioso, falam em falta de Deus, tratamentos espirituais. Qual a melhor forma de lidar com isso? Qual a orientação nesses casos?

Dra. Maria Fernnanda – Ter uma religião é algo protetor para o suicídio. As pessoas precisam entender que a religião não é para ser algo contrário ao tratamento tradicional da psiquiatria. Que nós, quanto psiquiatras, queremos mostrar para a população que se o paciente tiver uma qualidade de vida geral, ou seja tiver um bom ambiente familiar, uma boa alimentação, pratica de atividade física, não consumir bebida alcoólica e tabaco e também frequentar um grupo religioso e enaltecer a sua alma, em relação a religião, que isso vai ajudar muito. Não tem como ser só uma falta de Deus. Temos comprovações cientificas de alterações neurotransmissores. Então, a religião deve vir para somar ao tratamento e não para contradizer, para ser uma coisa ou outra coisa. Na verdade, temos que orientar que as duas coisas juntas ajudariam muito o paciente. 

Leiagora – Um estudo da Organização Mundial de Saúde de 2019 mostrou que o suicídio é a 2ª causa de morte mais frequente entre as pessoas de 15 a 24 anos. O que leva os jovens a tiraram a própria vida? 

Dra. Maria Fernnanda – Estamos vendo cada vezes mais uma baixa resiliência, que seria uma dificuldade em  lidar com as diversidades, porque os jovens estão muito imediatistas, eles querem tudo no momento deles e ai muitas vezes quando as coisas não saem da maneira, exatamente, como eles planejaram isso causa um desconforto emocional muito grande. E o outro ponto que nós observamos também é o abuso de substâncias e álcool. Então, tudo isso junto faz com que os jovens “tenham mais acesso” a meios letais e faz com que eles acabem tirando a própria vida, muitas vezes, que não seja aquela intenção primeira, mas que acaba acontecendo, porque ele não pensa nas consequências dos atos dele. Isso nos preocupa bastante. Na verdade, precisamos falar mais sobre isso. Precisamos que a famílias escutem os jovens e saibam o momento de dar atenção e carinho, mas também que de as regras. Que os estejam mais presentes, eu falo fisicamente conversando e não todos no mesmo ambiente, mas cada um em um aparelho de celular, televisão ou tablet. Se eu estou vendo que o meu filho está adoecido ou eu ou o meu marido está adoecido, que tenhamos a iniciativa de procurar ajuda, porque ai quando um fica melhor, nós melhoramos o relacionamento familiar. No geral, os pais precisam entender que são pais e não amigos. Eles tem que entender o que é permitido e o que não pode, estabelecer bem as regras. Cada família tem um tipo de regra e conduta, mas nós observamos que quando essas regras, deveres e prazeres são bem estabelecidos essa família funciona de uma maneira melhor e menos patológica. 

Leiagora – Quais são os fatores preditores para o suicídio. Quais são os principais sinais de alerta?

Dra. Maria Fernnanda – Ser jovem ou idoso do sexo masculino, ter um diagnóstico psiquiátrico, uma doença crônica ou incapacitante, uso de substancia psicoativas, ser solteiro, separado ou viúvo. Morar sozinho e estar desempregado. Todos esses fatores nos levam a pensar em mal prognostico. E os fatores protetores seriam o casamento para o sexo masculino, ter indivíduos que depende de si, pertencer a um grupo religioso. E em relação ao gênero as mulheres tentam mais, mas efetivam menos. E os homens tentam menos, mas efetivam mais. Os meios que os homens tentam geralmente são mais violentos. 

Leiagora –  Para finalizar, é possível prevenir o suicídio? Como? E onde essas pessoas podem ir em busca de ajuda? Quais são os canais ou centro de atendimentos para essas pessoas em sofrimento psíquico?

Dra. Maria Fernnanda – Não seria prevenir o suicídio, como eu falei o suicídio é a ponta do iceberg. Na verdade temos que prestar atenção nos transtornos mentais e procurar ajuda, que pode ser procurada em ambulatórios de saúde mental, consultórios de psiquiatras e psicólogos. Se a pessoa não tem acesso a esses profissionais, ela pode procurar um médico de saúde da família. Tem o Centro de Valorização da Vida (CVV) que tem atendimento 24 horas e pode orientar essa pessoa naquele momento de desespero. Essas são as principais medidas, mas eu friso que para reduzir o suicídio é preciso ficar alerta para os primeiros sintomas de transtorno mentais, abrindo a nossa cabeça para saber orientar as pessoas e nós também sabermos como procurar ajuda, entender que o suicídio poderia ser prevenido se a pessoa procurasse o tratamento adequado. Os transtornos mentais são doenças como a diabete e pressão alta. Imagina se essas pessoas não se tratassem no início. Muita gente estaria em uma emergência passando mal. Então, eu tenho que começar a fazer o tratamento cedo. Isso que estamos fazendo aqui, que um trabalho de prevenção e orientação para a população é algo de extrema importância para que as pessoas entendam de que maneira podemos ajudar uma pessoa que está com transtornos mentais.

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