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Notícias / Política

23/11/2020 às 11:00

Missão social e combate às estruturas: conheça as vereadoras eleitas em Cuiabá

Em 2020, foram eleitas não só uma, mas duas representantes para o parlamento municipal: a petista Edna Sampaio e a democrata Michelly Alencar

Maria Clara Cabral

Missão social e combate às estruturas: conheça as vereadoras eleitas em Cuiabá

Foto: Montagem Leiagora

Há duas legislaturas, a Câmara de Vereadores de Cuiabá é composta 100% por homens. A última mulher vereadora eleita pela capital mato-grossense foi Lueci Ramos (PSDB), que finalizou seu mandato em 2016. 

Em 2020, foram eleitas não só uma, mas duas representantes para o parlamento municipal: a servidora pública e professora petista Edna Sampaio, com 2902 votos, e a jornalista democrata Michelly Alencar, 2841 votos. PT e DEM, partidos antagônicos, que há tempos não ocupava uma cadeira na Câmara. Com tal feita, elas estiveram em pauta nas redes sociais e passaram a primeira semana pós-eleição requisitadas pela imprensa para entrevistas.

No segundo turno da disputa pela Prefeitura, Michelly, que encampa o discurso anticorrupção, apoia Abílio Junior (Podemos). Edna será oposição em ambas as conjunturas e seu partido já declarou campanha contrária ao atual vereador, que esteve no centro das discussões por atitudes atribuídas ao machismo.

Mas, independentemente das posições políticas à esquerda e à direita, as parlamentares acreditam que possam construir e apresentam propostas em comum, especialmente com relação às pautas das mulheres.

Questionadas sobre a possibilidade de mandatos feministas, Michelly se coloca como uma grande defensora da mulher, mas nega. “Sou uma pessoa que não gosta de rótulos. Eu sou direita, sou. Sou conservadora, sou. Mas acredito que, desde que não sejamos radicais, estamos abertos a construções que precisam ser feitas”. Ao contrário de Edna, que se coloca enquanto tal: “eu sou uma mulher feminista e as minhas pautas são pautas feministas dentro do contexto do legislativo municipal”.

Mas, afinal, quem são as novas parlamentares e como elas chegaram até a vitória? O que esperar dos dois mandatos que têm, em comum, a pauta das mulheres no centro das prioridades e, ao mesmo tempo, concepções diferentes sobre o papel – inclusive da mulher – na política.

Quem é Edna Sampaio

Formada em Serviço Social, a militância política sempre esteve presente na vida de Edna Sampaio, professora da Universidade do Estado e Mato Grosso (UNEMAT), antes mesmo de disputar duas eleições para a reitoria. “Mesmo sendo filiada ao PT desde os 20 anos, sempre militei na política também fora do partido. Fui do movimento estudantil e da Pastoral da Juventude, mesmo antes da universidade, desde os 16 anos”, conta a vereadora.

Durante o primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), ela teve a oportunidade de apresentar uma proposta da criação de um Centro de Referência em Direitos Humanos, incorporando a pauta como uma de suas principais. Segundo Edna, o impeachment da primeira mulher a assumir a presidência do Brasil, sua colega de partido, foi um processo que confirmou, para ela, a necessidade de se apresentar enquanto mulher – e mulher negra – na disputa por espaços na política eleitoral.

“Quando a Dilma sofreu o golpe eu percebi claramente o que estava acontecendo no país. Além da luta de classes que estava colocada ali, havia muito conteúdo de misoginia. O corpo dela era sempre um objeto de crítica e o comportamento atribuído àquela velha máxima da mulher histérica”, observa a professora.

Com as bandeiras da justiça social, defesa da mulher, trabalhadores e trabalhadoras e da população negra e LGBTQI+, ela se candidatou a deputada federal em 2018. Mas, apesar da experiência anterior, ela relata que a eleição municipal foi ainda mais desafiadora.

“Como candidata a vereadora, você tem pouco espaço para fazer essa discussão, que gira em torno de questões muito pontuais da cidade e dos bairros. Mas o retorno foi muito bom e conseguimos dialogar sobre questões estruturais que envolvem a cidade”.

Sua aposta foi as redes sociais e as andanças aos moldes eleição majoritária para alcançar um eleitorado difuso, que se identificaram com a candidatura e, principalmente, com a própria candidata.

“Desde as eleições de 2018 venho percebendo que, apesar de Mato Grosso ser um estado conservador majoritariamente, existe um eleitorado disperso, principalmente por Cuiabá que é capital e possui uma diversidade de grupos e populações, que tem a identificação com candidaturas progressistas. Não necessariamente tem identificação com PT, mas com projetos mais combativos”.

Quem é Michelly Alencar

Foram 12 anos na posição de entrevistadora e, agora, como alvo de questionamentos, Michelly Alencar afirma que ainda se sente um pouco desconcertada. “Sinto uma responsabilidade grande, porque eu levo muito a sério esse papel, não dá para falar qualquer coisa. Já não é mais só você, são as mulheres, as pessoas que querem mudança, que querem combate a corrupção”, diz a vereadora.

Após ganhar visibilidade como repórter e apresentadora de televisão, durante as eleições Michelly ficou conhecida como a candidata da primeira-dama de Mato Grosso, Virgínia Mendes. Mas ela garante que as motivações de sua candidatura, bem como a projeção política que ganhou, partiu de seu histórico de dedicação a projetos sociais evangelizadores, desde a adolescência, aos 17 anos, em Campo Grande.

“Eu andava uma hora a pé para chegar num bairro que eu fazia projeto social, rodava rua com rua pegando as crianças de casa em casa, e depois mais uma hora para voltar. A gente dava o lanchinho, o lápis de cor, a gente evangelizava as crianças, toda semana”, relata.

Por isso, ela afirma que o apoio de Virgínia Mendes não vem somente pela campanha. “Eu conheço ela há quase dez anos, sempre a auxiliei nas campanhas solidárias ainda enquanto primeira-dama do município, com o projeto Siminina. Então meu alcance como vereadora é muito maior”.

Esporte e social

Michelly Alencar também destaca suas vivências pessoais como motivação para sua candidatura. “Já fui bem carente, uma pessoa que precisou um dia ganhar cesta básica e uma doação de roupas. Por isso que eu falo que você não precisa ficar a vida inteira ganhando, uma hora você também pode dar”.

Michelly Alencar irá trabalhar em três eixos: além defesa das mulheres, apoio ao social – infraestrutura dos bairros – e ao esporte. Especificamente para este último eixo, ela quer propor o incentivo a categorias de base e aos projetos sociais esportivos que atuam com subsídios mínimos.

“O esporte tem três bases que precisamos trabalhar e valorizar: educação, saúde e lazer. Todo mundo quer uma educação e saúde melhor e trabalha pelo lazer, então o esporte consegue aliar esses saberes, além de ser um instrumento de transformação para a base das nossas crianças”. 

Social que para ela é uma missão, de cuidar de quem precisa. “Alcançar as pessoas que não aparecem, não são enxergadas. Atender quem precisa e promover subsídios para que elas saiam dessa condição. Não é passar quatro anos dando, é passar quanto anos dando, oferendo melhorias para que daqui a quatro anos elas não precisem mais”.

Mandato coletivo e defesa do meio ambiente

Edna Sampaio explica que sua campanha foi pautada em cinco eixos que ela define como um “mapa” que irá orientar o mandato na Câmara. A primeira é a construção de um mandato coletivo, experiência já colocada em prática por alguns partidos de esquerda em diferentes cidades e modalidades.

“Vamos instituir uma assembleia de co-vereadores e eleger um comitê político que vai acompanhar o cotidiano da atuação parlamentar. Um novo jeito de fazer política, articulando representação com a participação direta, de modo que as pessoas possam dialogar com a vereadora e orientar no âmbito de suas posições no parlamento”.

Outro eixo crucial para o mandato de Edna é o combate ao racismo estrutural. “Um tema muito delicado, especialmente em Cuiabá, onde crescemos numa ideologia de democracia racial, enquanto a minha geração era orientada a casar com pessoas brancas pra ‘melhorar’ a nossa ‘raça’”.

“Não é possível que no Brasil, mas a começar pela cidade, a gente saiba de 60% da população são pretos e pardos e você não vê essas pessoas no espaço de decisão política. Não temos um deputado negro, poucos que se declaram não levam essa pauta para a agenda”, complementa.

A defesa dos serviços públicos, que norteia a trajetória de Edna, do meio ambiente e de uma cidade sustentável, também serão eixos de atuação. Este último trata do combate aos incêndios ambientais e urbanos “já no início do ano, junto com a Lei de Diretrizes Orçamentarias, antes que o período da seca comece e as queimadas também”, explica.

“Vimos as atrocidades causadas pelas queimadas no Pantanal e nenhuma ação efetiva dos governos locais para que se tomassem providências com relação ao que estava acontecendo. O município tem sim competência na questão ambiental, a Constituição determina isso”, afirma Edna.

A defesa da vida das mulheres está em um eixo de atuação das duas vereadoras eleitas. “Precisamos trabalhar da violência contra mulher, da cultura do estupro e dar oportunidades para que possam desenvolver autonomia econômica, financeira e política. Ampliação da participação das mulheres na política”, afirma Edna.

Combate à violência contra a mulher

Ainda que a grande parte das questões relacionadas à Segurança Pública esteja a cargo do Governo do Estado, tanto Edna quanto Michelly defendem que o município tenha uma estrutura de apoio para o combate à violência contra a mulher.

“As delegacias são do Estado, mas precisamos de uma rede de proteção por parte do município, articulando políticas públicas de assistência social, saúde, atendimento psicossocial para as mulheres que sofreram violências e precisam sair desse quadro”, diz Edna.

A violência doméstica e psicológica é uma pauta cara à Michelly, que quer propor a implementação da Casa da Mulher Brasileira, centralizando o atendimento às vítimas para diminuir assegurar as mulheres em suas denúncias.

“Precisamos capacitar a mulher a sair dessa zona de opressão, que acontece em várias classes sociais. A mulher que sofre violência doméstica ou abusos emocionais começa a perder a autonomia e identidade”, diz Michelly.

Para devolver a autoestima e autonomia das vítimas de violência, ela também presente desenvolver projetos que promovam o empreendedorismo feminino. “A mulher quando acredita em si, ela percebe que não precisa viver de baixo desse argumento de opressão”.

“Nesse ano de pandemia, muitas mulheres começaram seus próprios negócios. Sempre foi muito difícil a mulher desenvolver o empreendedorismo, por conta do contexto familiar, que sempre proporcionou maiores oportunidades aos homens”, complementa a vereadora do DEM.

Edna, no entanto, considera a mulher em aspectos mais amplos e quer incentivar empresas a contratarem principalmente as negras e transexuais. “Precisamos também olhar para as mulheres trans que sofrem violência e precisam de atendimento adequado”, afirma.

Assim, a petista defende o eixo da igualdade de gênero atrelado à defesa da cidadania da população LGBT. “Existem muitas outras possibilidades de existência e de afeto e na nossa constituição enquanto sujeito. Há muitos tipos de mulheres e nós queremos trabalhar para todas”.

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