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23/03/2021 às 10:00

Um ano de pandemia: conheça os efeitos do confinamento em crianças e adolescentes

Compulsão alimentar, crise de ansiedades, aumento do estresse, sensação de solidão e até a automutilação afetaram crianças e adolescentes

Eduarda Fernandes

Há um ano vivendo uma pandemia, é comum ouvir e ler reclamações de adultos sobre o aumento do estresse, da ansiedade e sensação de solidão. Mas engana-se quem pensa que essas mudanças acometem apenas adultos e que crianças e adolescentes, “por viverem no mundo da fantasia”, como alguns gostam de falar, estão imunes aos efeitos do enclausuramento por tanto tempo.

Não é à toa que muitos desses pequenos adultos têm desenvolvido compulsões alimentares, aumentando os casos de obesidade infantil, ou se perdem cada vez mais nas telinhas de aparelhos eletrônicos. Calados, silenciados, expressam um pedido por atenção.

Para Gabriel Pariz, de 12 anos, a parte mais difícil desse ano foi a exaustão causada por ter que repetir a mesma rotina diariamente, quase sem nenhuma interação humana ou sem saber quando as coisas vão voltar ao normal. “É muito exaustivo na saúde mental de uma pessoa, sem falar no receio de perder alguém que eu amo”.

Ele tenta buscar na memória lições positivas aprendidas no período de confinamento, mas não consegue. “Acho que tudo piorou, infelizmente. Estar longe dos familiares e amigos; a qualidade das aulas, que decaíram de presencial para virtual; a sensação de não estar fazendo nada que terá algum peso no meu futuro”, aponta.

Com o distanciamento social como regra, o jovem coloca a interação social como a coisa que mais sente falta. Os amigos mais próximos agora são os pais, com quem ele busca conversar sobre a pandemia, a política em geral, o cenário atual e como isso impacta em suas vidas. “A gente sente falta de certas coisas quando não tem, por exemplo, conversas ao vivo. Eu achava que falar virtualmente seria a mesma coisa, mas não é. Sinto falta disso”.

Para Giovana Ribeiro, 14 anos, o que mais pesa é a saudade dos amigos, do contato físico. Receber e visitar os colegas de escola, passeios no shopping e festas do pijama eram parte da rotina da jovem. Hoje, passado mais de um ano desde que tudo começou, ela conta nos dedos de uma mão os amigos que pôde ver no período de isolamento.

Mesmo com a facilidade da tecnologia ao alcance da mão, literalmente, ela reconhece que não é a mesma coisa. Nada substitui um abraço, um olhar, por exemplo. “Nunca tive muitos amigos, mas dos poucos que eu tinha, alguns se afastaram porque perdeu o contato. Tem gente que até hoje eu não vi, vi no máximo umas quatro pessoas. Eles me chamam ainda, só que é diferente na minha casa e na casa deles. Eles têm uma rotina ainda que parece que não tem pandemia, então evito ficar muito perto mesmo que eu queira ficar”, conta.

Esse detalhe narrado por Giovana também é um dos fatores que dificultam a vida das crianças e adolescentes. Enquanto algumas famílias seguem a rotina do negacionismo e exibem seus encontros sociais nas redes, outras buscam ao máximo preservar o distanciamento.

A parte boa disso tudo para Giovana foi ter se aproximado mais da família. Hoje, a mãe é sua melhor amiga. “Acho que fiquei mais à vontade na pandemia, com a minha madrasta, meu pai, minha irmã. Eu também não ficava muito com a minha irmã e hoje eu vivo grudada. E com a minha mãe, que ela é minha melhor amiga hoje, mais que os meus amigos. Então acho que foi isso a parte boa”.

A irmã que Giovana cita é Eduarda Ribeiro, 9 anos, e a pequena também sente bastante falta dos amigos da escola. “O lado bom é que agora acho que fico mais com a família, com a Gio, antes ficava o dia todo na escola”.

Guloseimas

A nutricionista Gabriele Malheiros Santos e Silva é pós-graduanda em Nutrição Materno-Infantil e explica que compulsões alimentares estão diretamente ligadas à ansiedade. Além disso, ela cobra dos pais o exemplo dentro de casa. “Eu recebo muitos casos de crianças que não param de comer por ansiedade, e os pais também estão nessa. Eu sempre falo, as crianças são espelhos dos pais. Não adianta cobrar e não dar exemplo”.

Com o isolamento social e a mudança na rotina, a predileção por alimentos prontos, principalmente os industrializados, aumentou. “Os industrializados são práticos, mas não oferecem benefício nenhum, trazem vícios. Quanto mais você come, mais você quer, principalmente doces, skiny, bolachas. São alimentos muito calóricos e as crianças estão comendo muito”, aponta Gabriele.

Consequência disso são crianças e adolescentes com excesso de peso, colesterol alto, diabéticos, hipertensos e com pré-disposição para outras doenças.

Gabriele observa que a forma como a criança ou adolescente se alimenta pode indicar necessidade de acompanhamento psicológico. “Porque muitas vezes a criança come não porque está com fome, mas porque está com ansiedade, algum problema que tem que ser descoberto”.

A dica é fazer uma transição gradual na forma como toda a família se alimenta e tentar deixar os alimentos saudáveis pré-preparados e com fácil acesso. E claro, reduzir os alimentos industrializados.

Falta de interação social

Gina Coelho, psicóloga infanto-juvenil e educadora parental, acredita que o afastamento do ambiente escolar por tantos meses causa prejuízo ao emocional das crianças. Isso porque é na escola que eles desenvolvem competências socioemocionais fundamentais para a vida. Além disso, ela tem ressalvas quanto ao ensino à distância por acreditar que crianças não foram feitas para ficarem tantas horas estáticas diante de uma tela. “Criança é movimento”, defende em entrevista à Gabriella Arantes, para o Playagora.

“Se fosse uma parada de três, quatro meses, acho que as consequências no desenvolvimento das crianças não seriam tantas. As crianças são as mais prejudicadas, elas ficaram confinadas. Os pais voltaram a trabalhar, os adultos seguiram a vida, e a criança é a que menos teve contato social. E a criança se desenvolve na vivência. Os pais não são suficientes para suprir as necessidades sociais”, alerta.

As consequências disso poderão ser notadas nos anos seguintes, com um quadro de insegurança ou dificuldade de aprendizagem, por exemplo.

No caso dos adolescentes, Gina cita que tem recebido pacientes com sintomas depressivos e de transtorno de ansiedade, e até mesmo casos de automutilação. A orientação para esses casos, além de buscar ajuda profissional, é tentar sair um pouco da rotina, estimular o contato com a natureza e animais e estabelecer uma nova rotina na casa.

“Porque o previsível os ajuda a ficar mais seguros. Ela precisa ter horário para acordar, para dormir. Tempo de tela controlado. Nada imposto, tudo conversado. Você sabe como seu filho funciona, então você precisa percebê-lo”.
 

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