Cuiabá, sábado, 17/04/2021
23:24:21
informe o texto

Notícias / Cancelados pela covid-19

04/04/2021 às 16:03

Um ano de pandemia: veja como setores mais afetados 'sobreviveram' à paralisação

Cerca de 20% das empresas do ramos de bares e restaurantes fecharam as portas, enquanto o transporte escolar sequer tem perspectiva de retorno

Luzia Araújo

Um ano de pandemia: veja como setores mais afetados 'sobreviveram' à paralisação

Foto: Getty Images

A chegada de um ano novo é para muitos a oportunidade de fazer novos planos, traçar novas metas e buscar melhorias. Isso não é diferente no ramo dos negócios. Qual empresário não deseja ver o seu comércio crescendo e lucrando ainda mais com a chegada de um novo ano. Mas, todo esse planejamento foi por “ralo abaixo”, com a chegada da pandemia do coronavírus em Mato Grosso. 

Era março de 2020, o ano não havia nem começado direito, quando o Estado registrou o seu primeiro caso de coronavírus. Com o aumento de casos e mortes, os mato-grossenses tiveram que aderir à quarentena obrigatória, com o isolamento social e suspensão de algumas atividades econômicas consideradas não essenciais. 

Pequenos e grandes empresas tiveram que fechar suas portas, parar o seu trabalho e enfrentar um período de incerteza e insegurança, até a flexibilização das medidas e retomada das atividades econômicas com algumas restrições, que ainda são exigidas até hoje. 

O secretário de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso, César Miranda, explicou que Mato Grosso, assim como todos os estados da federação, teve uma diminuição na sua atividade econômica no último ano, principalmente em alguns setores que foram mais atingidos pela pandemia como do turismo, comércio em geral, bares, restaurantes, eventos, mas, mesmo assim, o agronegócio conseguiu manter a contratação de empregos formais e também as atividades econômicas no Estado. 

“Poderia ter sido um ano melhor? É claro que poderia. Muitos projetos estavam prontos. Muitos investimentos estavam programados e com a pandemia da covid-19 houve uma retração em alguns setores, principalmente na área do comércio, mas em compensação o setor do agronegócio continua orgulhando Mato Grosso, aumentando a sua produção, aumentando a sua área plantada 100% sustentável e isso tem propiciado que a gente aumente as nossas exportações e continue girando a economia do Estado, mantendo empregos, criando novos postos de trabalho e ainda fechando o ano com crescimento”.


O Leiagora conversou com representantes de alguns destes segmentos para saber como sobreviveram à diversidade e os efeitos da pandemia.

No ramo de bares e restaurantes, conhecido também como setor de alimentação fora do lar, as lanchonetes, cafeterias, sorveterias, bares, restaurantes, casas noturnas e outros passaram um bom tempo fechados, sofrendo cada um da sua forma. Nessa fase, uma parte do grupo conseguiu operar por delivery, o que manteve o faturamento da empresa. Porém, nem todos conseguiram manter o negócio e estima-se que cerca de 20% das empresas tenham fechado as portas. 

A presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Mato Grosso, Lorena Bezerra, lembrou que alguns desses estabelecimentos conseguiram voltar, porém com uma estrutura menor, enquanto outros, nem tiveram essa oportunidade e tiveram que fechar as portas definitivamente. 

De acordo com a presidente, a estimativa é que 20% do mercado não conseguiu sobreviver ao primeiro ano da pandemia. “Em Mato Grosso são aproximadamente 26 mil empresas e muitas delas não conseguiram voltar. As pessoas possuem uma falsa visão de que o empresário é uma pessoa rica e não é. Atualmente, ele trabalha também para o seu próprio sustento. Um empresário é qualquer pessoa que toca uma empresa. Às vezes, essa empresa é o pai, mãe e o filho. Só que 80% do segmento de alimentação fora do lar é de pequena empresa de gestão familiar”.

Lorena explicou que com a reabertura mesmo com restrições, os meses de outubro, novembro e dezembro de 2020 foram bons para o ramo. “O mercado começou a contratar e estava bem aquecido. Os números de casos da Covid-19 estavam controlados e por conta das eleições ninguém falava mais sobre a alta deles”. 

A presidente explicou  que, depois do Carnaval, o cenário mudou e o setor teve novamente que se adaptar às novas medidas restritivas, precisando fechar depois das 19h, mantendo apenas algumas modalidades de entrega. “Faz mais de 20 dias que estamos fechados e não houve nenhuma mudança expressiva da Covid-19 no Estado, pelo contrário, só aumentaram o número de casos”, disse a presidente. 

Lorena ressaltou que ficar parado acarreta uma série de prejuízos que podem se tornar uma bola de neve. “Quando uma empresa quebra é por várias coisas”, destacou a presidente completando que o consumo no mercado não voltou de vez e ainda está reduzido. 

“Até o ano passado, o setor demoraria 2 anos para se recuperar. Hoje, eu já não sei, porque não sabemos o que nos espera mais para frente. Não temos nenhuma medida eficaz para a recuperação das empresas. Ninguém ainda deu isenção de impostos. Foi só fechar a porta e ir para casa, mas ninguém ajudou ninguém em nada”. 

Enquanto espera por dias melhores, a presidente deseja que a vacina chegue logo para todos para que as pessoas voltem a circular com mais segurança, bem como a ampliação do horário de atendimento dos estabelecimentos do ramo.

“Respeitamos as restrições e entendemos que não é o momento de aglomeração, inclusive, apoiamos e somos contra elas, mas as empresas precisam estar abertas para ter o mínimo de faturamento. Queremos que tenha uma fiscalização mais efetiva para punir quem aglomera e deixar quem realmente quer trabalhar, seguindo as medidas de segurança”.
 
Outro setor que sofreu com a pandemia foi o de transporte escolar. Com a suspensão das aulas presenciais muitos motoristas ficaram sem saber o que fazer. Segundo a presidente da Associação dos Permissionários do Transporte Escolar e Turístico de Cuiabá, Jussania Santos, 200 vans circulavam na capital, mas esse número reduziu, porque os profissionais deixaram o ramo e precisaram se reinventar para manter a família. 

Esse foi o caso de Sérgio Souza Costa, de 46 anos. Quando a pandemia começou, em março de 2020, ele precisou trocar a van que utilizava para o transporte de alunos, porque ela não podia mais rodar, seguindo as regras da Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob). “Minha van já tinha 18 anos e só é permitido veículos com até 15”. 

Diante desse impasse e sem saber que a doença tomaria uma grande proporção, ele deu sua van antiga de entrada e tirou uma van nova, porém um dia depois de pegar o veículo começou a quarentena obrigatória. “Peguei a van no dia 23 de março e no dia 24 iniciou a quarentena. Não pude carregar nenhum aluno nela”.

Então, sem alunos e com uma nova prestação para pagar, Sérgio e a esposa resolveram vender pamonha. “Eu e minha esposa aprendemos a fazer pamonha, bolo de milho, curral e tivemos que nos virar nesse novo ramo”.

O casal aproveitou os pais dos alunos para vender os quitutes. “Eles se sensibilizaram com a nossa situação e se tornaram nossos clientes, nos ajudando muito”, contou. 

Mas, a venda dos produtos durou apenas 4 meses devido à estiagem do milho. Foi então que Sérgio foi trabalhar com a entrega de mercadorias compradas via internet, usando sua van nova. “Estou até hoje nesse trabalho”. 

O motorista atuou durante nove anos no ramo de transporte escolar. Ele levava cerca de 60 alunos nos períodos matutino e vespertino, chegando a ter um lucro líquido de R$5,5 mil a R$6 mil por mês. 

“Quando me vi sem esse dinheiro foi desesperador. Temos Deus na vida e a família para nos confortar, mas foi um momento muito triste, porque as contas não param de chegar e eu não poderia deixar de cumprir com elas. Além disso, tínhamos a nossa vida social que girava em torno daquilo que recebíamos e em um certo dia, não tínhamos mais nada. Então, aquilo foi um choque para nós, foi quando vimos a necessidade de partir para uma nova atividade, para poder honrar com os nossos compromissos financeiros”. 

Segundo a presidente da Associação dos Permissionários do Transporte Escolar e Turístico de Cuiabá, Jussania Santos, o ramo tinha uma grande expectativa de que tudo fosse acabar no final de 2020 e que quando começassem as aulas, neste ano, tudo estaria melhor, mas não foi o que aconteceu. 

“Estamos da mesma forma que a do ano passado, ou seja, não temos clientes. Entendemos a situação. Foi implantada a forma híbrida, o que acabou prejudicando ainda mais a categoria, porque os pais resolveram levar os próprios filhos para a escola, porque as aulas presenciais são apenas uma ou duas vezes na semana. Não se vê mais vans na cidade. Muitos colegas estão vendendo os veículos. Outros estão partindo para outro ramo. Então, toda a nossa expectativa de voltar à normalidade foi por ralo abaixo”.  

Para Jussania, os profissionais estão “mais largados” do que no ano passado. “Chegamos a ter ajuda com cestas básicas, houve isenção do IPVA para a categoria, mas, este ano, não há benefício nenhum, até agora. No ano passado pedimos a isenção do alvará para o prefeito, protocolamos um ofício e até hoje não tivemos resposta. Ele só estendeu o prazo para quem ficou devedor, mas e aí? Quer dizer então que temos pagar o do ano passado e deste ano agora”.

0 comentários

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do site. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.

 
Em parceria com Engaje Sitevip Internet