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09/09/2019 às 18:07 | Atualizada: 09/09/2019 às 18:10

Delegado diz que madrasta gerenciava dinheiro da família

Luzia Araújo

O delegado da Delegacia Especializada de Defesa da Criança e do Adolescente (Deddica), Wagner Bassi, disse que a suspeita, Jaira Gonçalves de Arruda, de 42 anos, madrasta de Mirella Poliane Chue de Oliveira, de 11 anos, gerenciava o patrimônio da família. A mulher foi presa nessa segunda-feira (09), pela Polícia Judiciária Civil, em cumprimento de mandado de prisão temporária (30 dias), por matar a menina por envenenamento para ficar com a herança da vítima.

O crime foi descoberto pela Polícia Judiciária Civil durante investigações da Delegacia Especializada de Defesa da Criança e do Adolescente (Deddica) de Cuiabá. A menina morta em junho de 2019. O crime foi premeditado e praticado em doses diárias durante dois meses. 

“A nossa investigação apontou que a madrasta gerenciava o patrimônio da família. Como ela fazia isso indiretamente, ela ficaria com o dinheiro. O herdeiro da menina é o pai, mas a mulher administrava o dinheiro. Isso já aconteceu em outras oportunidades. Um exemplo foi quando os avós paternos da vítima morreram. Eles deixaram um patrimônio para filho e a madrasta gerenciou o patrimônio e vendeu. A partir do momento que o dinheiro ficasse com o pai da menina, automaticamente a madrasta também faria uso do dinheiro”, contou o delegado ao Leiagora.

Bassi disse ainda que o pai da vítima, que não teve o nome divulgado, é suspeito de participar do crime.  “Há uma suspeita da participação do pai. Ele diz que não sabia de nada e que não acredita que madrasta cometeu o crime, mas ele será investigado”, disse Wagner.

A investigação aponta que a madrasta matou a criança com uso de um veneno com venda proibida, ministrando gota a gota,  em pequenas doses durante dois meses, entre  abril e junho de 2019. 

Wagner explicou que o produto utilizado pela mulher é conhecido como carbofurano, uma espécie de inseticida de lavoura, que deve ter sido comprado pelo mercado negro. “Estamos investigando como ela teve acesso a esse produto. A venda dele é proibida desde 2017”.

O crime

No dia 14 de junho de 2019, a vítima Mirella Poliane Chue de Oliveira, de 11 anos, faleceu de causa até então indeterminada. A vítima deu entrada em um hospital particular, já em óbito. Inicialmente houve suspeita de meningite, bem como de abuso sexual, pois havia inchaço na genitália, mas depois foi descartado o abuso durante a necropsia do Instituto de Medicina Legal (IML), da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec).

O laudo pericial apontou morte por causa indeterminada. A Politec colheu materiais para exames complementares. Nos exames realizados pelo Laboratório Forense, mediante Pesquisa Toxicológica Geral, foram detectados no sangue da vítima duas substâncias, uma delas veneno que provoca intoxicação crônica ou aguda e a morte.

"Essa substância não é encontrada em medicamentos, portanto,  sua ingestão por humanos somente pode ocorrer de forma criminosa. Os sintomas da sua ingestão são: visão borrada, tosse, vômito, cólica, diarreia, tremores, confusão mental, convulsões, etc.", explicaram os delegados Francisco Kunze e Wagner Bassi, que conduzem as investigações.  

Conforme os delegados, as investigações apontam para autoria da madrasta. "Notamos que a menina era envenenada a conta gotas, ou seja, ela ia dando um pouquinho do veneno, para não aparecer, porque chega no hospital, a criança está passando mal, morre de causa indeterminada, por alguma infecção, pneumonia, meningite, como muitas vezes suspeitaram", salientam.

Os delegados informaram que todas as vezes que a menina passava mal era socorrida e levada ao hospital, lá ficava internada 3 a 7 sete dias e melhorava, em razão de ter cessado a administração do veneno. Mas ao retornar para casa, voltava a adoecer novamente. O sofrimento durou cerca de dois meses, em que a menina ficou internada por nove vezes em hospitais particulares.

Na última vez que foi parar no hospital, a menina chegou já em óbito. Por conta disso, o hospital não quis declarar o óbito, mas suspeitava de ser meningite. Nessa ocasião, foi acionada a Delegacia Especializada de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), que diante de falta de evidências sobre morte violenta, requisitou vários exames por precaução, num desses exames periciais foi detectado a substância venenosa no sangue da menina.

Motivação

Assim, o caso foi encaminhado à Deddica que procedeu com toda a investigação descobrindo o plano de envenenando, por conta de um herança milionária que a menina tinha recebido, ao nascer, fruto de uma indenização pela morte de sua mãe, durante parto dela em um hospital, na capital, por erro médico.

A ação foi movida pelos avós materno da criança, que ingressou na Justiça pela indenização, que em 2019, após 10 anos, foi encerrado o processo, com causa ganha a família de R$ 800 mil, incluindo os descontos de honorários advocatícios.

Parte do dinheiro ficaria depositado em uma conta para a menina movimentar somente na idade adulta. A Justiça autorizou que fosse usada uma pequena parte do dinheiro para despesas da criança, mas a maior quantia ficaria em depósito para uso após a maioridade, aos 24 anos.  

O pagamento da ação iniciou em 2019. Até 2018, a menina era criada pelos avós paternos. Em 2017, a avó morreu e no ano seguinte (2018) o avô faleceu também, passando a garota a ser criada, naquele mesmo ano, pelo pai e madrasta. A partir daí iniciou o plano da mulher para matar a criança com o objetivo de ter acesso ao dinheiro.

"Mas quem era responsável mesmo era a madrasta e ela quem gerenciava os cuidados com a menina", afirmam os delegados Francisco Kunze e Wagner Bassi.

A mulher, que não teve o nome divulgado ainda, foi ouvida após a morte da menina e contou que convive com o pai da vítima desde que ela tinha 2 anos de idade e que se considerava mãe dela. Ela declarou que a afilhada começou a ficar doente em 17 de abril de 2019, apresentando dor de cabeça, tontura, dor na barriga e vômito.

A suspeita  foi levada para a sede da Deddica, em Cuiabá. 
 
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