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Artigos / Colunas / ​Abilio Brunini

29/06/2020 às 19:27

Prefeito ajudou o Covid

O problema da pandemia em Cuiabá vai muito além da letalidade do vírus. Como arquiteto e urbanista, vou falar sobre algumas medidas tomadas pelo “prefeito do paletó” que contribuíram para o aumento do Coronavírus na nossa cidade. As primeiras ações foram publicadas a partir março, quando Cuiabá não tinha nenhum caso confirmado.

Entre elas, uma em especial causa reflexo na situação atual de falta de profissionais nas UPAs e Policlínicas: recomendação para que os “cidadãos com sintomas do novo coronavírus se dirijam às Policlínicas e Unidade Básica de Saúde para a realização dos exames clínicos competentes e demais providências adequadas ao caso.”

Porém, houve muita demora para adquirir e oferecer EPI’s (equipamentos de segurança para os profissionais desta linha de frente). Quando fez, fez com produtos de baixa qualidade. Hoje, muitos médicos e enfermeiros estão adoecidos e afastados. A medida no decreto era certa, a gestão que não acompanhou a medida para cuidar dos profissionais.
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Em seguida, houve a redução para 30% na quantidade de veículos do transporte público, sendo um dos maiores erros do prefeito no enfrentamento ao Covid. Foi necessário o Ministério Público intervir para que o prefeito aumentasse para 70% e, só agora, depois de decisão judicial, que será retomada a frota por completa, os 100% à disposição dos trabalhadores dos serviços essenciais. A matemática é muito simples. Se a ideia é evitar aglomerações, colocar menos ônibus é ir contra essa ideia. O correto era limitar o número de pessoas nos veículos e colocar mais veículos para circular ao mesmo tempo para, também, evitar aglomerações nos pontos de ônibus. Este grave erro facilitou a transmissão do vírus.
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Aí veio o Plano Estratégico de Retomada Gradativa e Segura das Atividades Econômicas no Município de Cuiabá. Essa decisão foi outro grande erro! Pois o prefeito limitou o funcionamento para cinco horas por dia, alternando o horário de algumas atividades. Medida sem lógica científica, tomada, ao que tudo indica, pelo “achismo”. Pois, novamente, se o interesse é evitar aglomerações, não faz sentido restringir as pessoas para frequentar um local praticamente no mesmo intervalo de tempo. O correto seria abrir de forma ampla, limitando o acesso, pois, assim, as pessoas se dividiriam o espaço em mais horários, evitando aglomerações.
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Outro grave problema é a falta de transparência das informações do Covid e a não aplicação adequada dos recursos federais (Cuiabá já recebeu mais de R$ 90 milhões de reais) com contratação de drones, tv suspeita e kits Covid em sex shop. Tudo isso fez com que os empresários perdessem a paciência com o gestor público, que não informava a verdade à população sobre como as coisas estavam fora de controle, sendo evidente que as medidas adotadas não geravam economicidade e eficiência. 
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Faltando leitos de UTI, faltando EPI’s, faltando profissionais da saúde e faltando testes de Covid, o prefeito mente em lives, dizendo estar “tudo sob controle”, inicia uma série de conflitos com o Governo do Estado e fazendo uso político da aplicação dos decretos, começa a liberar as atividades em bares, restaurantes, shoppings e outros. Menos em academias e feiras que, ao olhar “sobrancelhudo” do prefeito, são os locais de grande proliferação do vírus. É muita falta de critério técnico tudo isso!
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Além disso, o prefeito aplicou, politicamente, o “Toque de Recolher”, invadindo a competência de direito, prejudicando o ir e vir das pessoas. Um grande show pirotécnico para atrair a atenção da mídia, além do gasto desnecessário com combustíveis em viaturas da Semob (Secretaria de Mobilidade Urbana). Já no dia seguinte, a rotina estava de volta nos bairros da cidade. A prefeitura não investiu, significamente, na fiscalização e nem no combate às festas clandestinas. Secretário de Ordem Pública, inclusive, deu depoimento enfatizando que a venda de bebidas alcoólicas nada influenciaria na vida noturna e diurna da cidade, ou seja, que não seria fator que contribuiria para aglomerações de pessoas. 
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Para não ficar apenas nas observações do que foi feito de errado, deixo aqui algumas sugestões: já no início poderia fazer um uso correto dos Agentes de Endemias e Agentes Comunitários de Saúde para orientar a população sobre as ações preventivas e cuidados a serem tomados, especialmente aqueles dos grupos de risco; ter usado o IPDU (Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano), aproveitando os cadastros de IPTU e da Secretaria de Saúde para fazer o georreferenciamento dos casos de Covid e, com isso, priorizado o isolamento e rastreamento de forma mais assertiva. Ao liberar as atividades comerciais, poderia ter ampliado os horários, liberando as feiras com distanciamento em lugares abertos e as academias para as pessoas cuidarem da saúde. Poderia ter estendido, já de cara, a quantidade de linhas de ônibus. Poderia ter aproveitado os meses parados para adquirir “kits” de medicamentos para tratamento precoce da doença; ter investido na compra de equipamentos, respiradores, construção de novos leitos de UTI; instalado tendas em frente às policlínicas e UPA’s, colocando os profissionais dos postos de saúde para fazer atendimento básico imediato, evitando as lotações dentro da unidade. Poderia ter feito “blitz da saúde” nas principais avenidas e nos pontos de ônibus com grande circulação de pessoas, verificando as condições de saúde delas. Poderia ter aprendido com os estados e municípios de maior recuperação dos pacientes e ter parado de copiar o Dória e o Witzel. 
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Por fim, o problema de Cuiabá frente ao Covid nunca foi falta de dinheiro. A Secretaria de Saúde tem o orçamento anual de R$ 1 bilhão de reais, fora o que já recebeu do Governo Federal para combater a pandemia. O Coronavírus é um problema sério e mata! Mas a corrupção, aliada à má gestão e má fé é um problema muito maior e, que somadas ao Covid, mata muito mais.

​Abilio Brunini

​Abilio Brunini
 é arquiteto urbanista e vereador por Cuiabá
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