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Notícias / Entrevista da Semana

07/02/2021 às 11:08

Com o legado de 19 edições, Festival de Cinema de Cuiabá renasce em novo formato

Realizador do evento interrompido há seis anos, Luiz Borges fala sobre a descontinuidade de festivais em Mato Grosso, resgata a memória do projeto e conta sobre a nova programação virtual

Maria Clara Cabral

Um dos eventos mais longevos da cultura mato-grossense, o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá teve um papel irreversível na formação de plateia para o Cinema Nacional e mudou também, a história de artistas e realizadores do cinema de todo o país.

O primeiro prêmio da carreira da atriz Dira Paes, por exemplo, foi entregue em Cuiabá, por sua atuação em ‘Corisco& Dadá’ (1996). Outro expoente, o diretor Fernando Meirelles também consolidou sua trajetória ao ser premiado por ‘Domésticas’ (2001). 

De outro lado, o festival nasceu como janela da produção brasileira para os cinéfilos mato-grossenses em tempos nos quais o circuito comercial pouco se dedicava a exibi-los.

E além disso, ao colocar Mato Grosso no mapa do circuito de festivais, o evento realizado ao longo de 19 edições foi responsável pela formação de muitos agentes da cadeia produtiva não só do audiovisual, mas das diversas linguagens da cultura no Estado que vem colhendo frutos de políticas da produção audiovisual. Mas é certo que ainda há espaço nas salas comerciais a conquistar. 

"Mas para estas produções, há sempre espaço cativo no Festiva", reforça o realizador, Luiz Borges. E anuncia a boa nova: com incentivo da Lei Aldir Blanc, o festival está de volta em formato virtual.


Nos próximos meses os cinéfilos mato-grossenses vão reavivar suas memórias e abraçar a oportunidade de participar de atividades de formação e capacitação com grandes nomes do cinema nacional, de conferir produções atualíssimas que ainda circulam por festivais e claro, intercâmbio cultural. O Festival “renasce das cinzas” depois de seis anos de interrupção.

A descontinuidade do Festival – diante da falta de apoio – é um dos pontos destacados pelo realizador em entrevista ao Leiagora. Ele fala sobre a participação ainda tímida do Poder Público no incentivo a eventos continuados. E, claro, adianta sobre a programação que manterá seu caráter formativo terá nomes como o roteirista brasileiro Wilton Lacerda.

Leiagora: Luiz, para quem não vivenciou, conta um pouco da história do Festival de Cinema de Cuiabá.

Luiz Borges: Quando voltei do mestrado em Cinema  na USP para Mato Grosso, me deparei com um cenário extremamente árido para o cinema. Naquela época, década de 1990, não havia nenhum projeto de exibição de produções nacionais, tampouco regionais. Sobre fazer cinema em Mato Grosso eu ouvia muito: “ah não, cinema é absurdo, cinema é coisa de Hollywood”. Foi então que eu organizei uma retrospectiva do cinema nacionalpelo Cineclube Coxiponés, na Escola Técnica Federal. Colocamos mais de mil pessoas naquele auditório [do atual IFMT], todo mundo apertado para assistir um clássico feito aquina década de 1930, o ‘Alma do Brasil’.

O impacto foi muito grande e o festival nasceu assim, com o intuito de resgatar memória e dar qualificação às pessoas que assim quisessem. E para nossa surpresa, houve uma grande corrida de pessoas procurando as primeiras oficinas que foram realizadas por profissionais, como Tata Amaral. E aí começou a voltar essa produção, mesmo em um momento muito difícil para o cinema brasileiro. A Embracine havia sido fechada, o que acarretou em um colapso na produção. Mas assim mesmo a gente conseguiu realizar o festival trazendo os filmes e cineastas.

Esse festival foi realizado através de um convênio de quatro anos entre UFMT, Sebrae, Governo do Estado de Mato Grosso, Prefeitura Municipal de Cuiabá e Fiemt. Essas instituições asseguravam a realização do evento com passagens áreas, equipe, estrutura, hospedagem e alimentação. Foram anos de sacrifício conjunto para realizar o que inicialmente a gente chamava Mostra Brasileira de Cinema e Vídeo de Cuiabá.

Leiagora: Foi um evento que por muito tempo conectou Mato Grosso ao cinema brasileiro, não é? Pra você, qual tem sido a maior contribuição do festival?

Luiz Borges: Conseguimos trazer não só produções brasileiras, mas produções internacionais. Em seu início, Cuiabá só tinha uma sala de cinema e havia muita demanda, porque Mato Grosso é cinéfilo, o público de Cuiabá gosta de filmes de arte. Com a mostra Cine Mundo, passamos a ocupar 15 dias a sala recém-inaugurada do Cine 3 Américas à época, para exibir uma série de filmes que dificilmente chegariam na cidade. 
Com as exibições e a presença dos realizadores, foi um momento em que Cuiabá, que tem as costas viradas para sua latinidade, teve o espanhol como uma segunda língua.

No segundo ou terceiro ano de festival, por exemplo, a gente passou a criar temas para cada edição do festival. Queríamos extrair dos filmes uma contribuição para aspectos ausentes na cultura mato-grossense. Eram temas como discriminação e racismo. Tratamos também de discriminação sexual, religiosa, de gênero, que são temas universais. Na verdade, o festival nunca foi apenas assistir filmes. Ele sempre teve a função de instigar o público a refletir sobre conteúdos de acordo com a realidade do país. Então íamos além de sentar para assistir a um filme, porque a curadoria provocava debates e reflexões.


Depois de um tempo, quem estava na cadeira assistindo aos filmes e aplaudindo realizadores de fora, parou para pensar: ‘opa, eu também posso estar nesse palco para apresentar um filme’.

Hoje no mercado de audiovisual, a maioria das pessoas que estão produzindo passaram pelo festival, inclusive trabalhando na equipe diretamente, como a Keiko Okamura, que começou como estagiária e passou a assumir a direção de produção do festival. O Paulo Traven [atual secretário-adjunto de Cultura], recém-chegado do Rio de Janeiro, e outras tantas pessoas que hoje atuam na cena cultural em diversos segmentos.
Hilton Lacerda foi o grande vencedor da 19 edição, a úlima.
Leiagora: E como o resto do país encarava esse espaço de exibição?

Luiz Borges: Fora que o festival ganhou relevância em todo o país, sendo alvo das atenções dos realizadores e artistas que viam nele uma oportunidade de exibir suas produções e seu talento para a plateia do Brasil profundo. Nós revelamos grandes artistas do cinema brasileiro. O primeiro prêmio de Melhor Atriz na carreira de Dira Paes foi no festival de Cuiabá. O primeiro prêmio de melhor diretor da carreira de Fernando Meirelles foi no festival de Cuiabá. E isso não é pouco. Para se ter uma ideia do quanto o festival era vanguarda e impulsionamos o cinema brasileiro, no segundo ano trouxemos Arne Sucksdorff para Cuiabá receber o troféu Coxiponés; no ano seguinte o Festival de Cinema de Brasília concede uma homenagem a ele. No terceiro ano, o nosso homenageado foi José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que, apesar de sempre ter sido cult, era um cineasta marginal. No ano seguinte, o maior festival de cinema brasileiro, que é o festival de Brasília, com mais de 40 anos, também.

A gente mobilizava a imprensa nacional. O Canal Brasil vinha para cá e ficava uma semana registrando todos os acontecimentos do festival. Depois ainda colocava um programa de uma hora falando sobre o que era a cidade de Cuiabá. Me lembro que último valor que a mídia do Canal Brasil destinou ao festival foi R$ 324 mil, enquanto o incentivo do estado era de R$ 400 mil.

Leiagora: Por que o festival parou de ser realizado?

Luiz Borges: O que aconteceu é que a partir do quarto ano de festival, a gente entrou na luta para criação de uma Lei de Incentivo à Cultura de Mato Grosso, que a princípio seria uma lei voltada ao audiovisual. A associação mato-grossense de audiovisual, inclusive, foi fundada dentro do festival, ali pela segunda edição. A gente pensou: o que adianta criar uma lei para poder fazer filme se a gente não tem uma lei geral para teatro, música? Então surgiu a Lei Hermes de Abreu.

Assim a lei se tornou um exemplo no país, porque todo o tipo de empresário poderia ter benefícios. Mas ainda era pouco e só grandes empresas poderiam participar. Então ela acabou criando um problema muito sério para o festival. Na medida em o mecanismo de fomento foi institucionalizado, nenhum signatário do convênio quis renovar, porque,na teoria,não precisávamos mais de recursos próprio do Estado. Mas a lei que não funcionava, ainda era nova.

A gente chegou a aperfeiçoar essa lei, solicitando ao Governo do Estado, em uma reunião com vários diretores de cinema – que inclusive a Dira Paes estava presente – um efeito cascata. Até que houve uma grande distorção [da lei], porque a classe política de Mato Grosso da época viu na Cultura uma chance de seus filhos, parentes e empregados fazerem captação, até pela facilidade da facilidade de contato com as empresas. A lei permitia que 10% do recurso fossemdestinados ao captador, apenas com um recibo. Então eles começaram a cobrar 20, 30%, sem amparo legal. Muitos escritórios de captação foram criados dentro da Assembleia Legislativa. Então houve muita lavagem de dinheiro, o que criou um clima muito ruim...

Leiagora: O que acontece em Mato Grosso que os festivais não conseguem se consolidar?

Luiz Borges: É o conjunto de uma conjuntura local e nacional. Junto a tudo isso que to te falando, houve um desmonte na Petrobrás, por exemplo, que financiava muitos projetos didáticos que realizávamos tendo como ponto de partida o cinema.

Aqui em Mato Grosso, especificamente, não existe uma política institucionalizada do audiovisual. É governo que entra e resolve criar a roda, fazer do seu jeito. E assim o festival está há seis anos sem ser realizado. Nos últimos quatro anos de legado de Pedro Taques para a Cultura, a gente apresentou o projeto para o Governo do Estado. A secretária da gestão anterior, antes de entregar a pasta, destinou um recurso de R$ 400 mil no orçamento para realização do festival.

Muita gente associa a interrupção a eu ter ido fazer meu doutorado na UNB [Universidade Federal de Brasília]. Isso também contribuiu porque eu só conseguia me deslocar para encontros pontuais para realização do evento, quando antes eu ficava cerca de sete meses em função do festival. Mas vim para cá saber desse dinheiro. E seis meses depois de tentar uma reunião na secretaria e levar um chá de cadeira de quatro horas, me informaram que a gestão havia decidido destinar o recurso para incentivo da produção.

O festival está renascendo, tendo uma segunda chance de voltar a cena, mas através de uma lei federal emergencial. A gente está super feliz. Mas, e aí, vamos a 20ª edição e ficar mais três anos sem fazer? Porque não existe - até hoje - uma posição do governo do estado que garanta a continuidade de importantes eventos culturais que acontecem em Mato Grosso de forma longeva porque, afinal, a gente não está fazendo um evento novo, era para ele estar na 25ª edição.

Leiagora: E sobre a nova edição, quais estão sendo os desafios – e até as facilidades, se houverem – de produzir um festival de cinema durante a pandemia?

Luiz Borges: Faremos o festival de forma virtual. A nossa surpresa foi de que o custo da transmissão de dados chega a ser tão alto quanto o de alugar uma sala com projetor e o som. A gente achou que o formato virtual diminuiria os custos, mas na verdade essa foi uma das dificuldades. Apesar de que, com a transmissão virtual, a gente tem a possibilidade de universalizar o público. Qualquer um que estiver no Japão ou nos Estados Unidos vai poder participar do festival. Outro desafio é o tempo de execução de 120 dias, prazo estabelecido pela Lei Aldir Blanc, para um festival que era produzido ao longo de sete meses. Então a gente está atuando no limite do possível.


Leiagora: E o que você já pode adiantar pra gente da programação?

Luiz Borges: Vamos manter as oficinas para formação de mão obra local. Vai ter oficina de roteiro com o Hilton Lacerda, roteirista de‘Amarelo Manga’ e todos os filmes do Claudio Assis, sendo o mais recente ‘Piedade’. Vamos ter oficina de técnica de com o Yuri Kopcack,e maquiagem e efeitos especiais com a Andrea Okamura e produção com Carol Araújo.

As oficinas serão gratuitas e terão certificados, com uma parte das vagas reservadas para Mato Grosso e oura para todo o mundo. Vai ter sessão em penitenciária, unidade de saúde. Cerca de sete instituições devem receber a mostra esse ano. Vai ter uma mostra de séries mato-grossenses e uma mostra de curtas do Centro-Oeste, com o objetivo de fortalecer a identidade da região. E vai ter uma retrospectiva do cinema mato-grossense, o Diego Baraldi está ajudando nessa curadoria. A nossa idéia é a de que não tem como ir para frente sem olhar para traz. A gente que rever nossos erros e acertos para que eles não se repitam.

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