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Notícias / Entrevista

06/10/2023 às 12:00

CENA RAPPER

Em visita a Cuiabá, Rashid fala sobre carreira, preconceitos e parcerias com artistas locais

O artista foi uma das principais atrações do Festival Vambora, realizado no estacionamento da Arena Pantanal

Gabriella Arantes

Em visita a Cuiabá, Rashid fala sobre carreira, preconceitos e parcerias com artistas locais

Foto: Divulgação

O Entretê rompeu fronteiras e a “História Por Trás do Artista” desta semana foi com o rapper, produtor e empresário Rashid. O artista foi uma das principais atrações do Festival Vambora, realizado no estacionamento da Arena Pantanal, em Cuiabá.

Visitando a Capital mato-grossense pela terceira vez, o músico paulista, que é um dos principais nomes do rap nacional, conversou com alguns jornalistas e falou sobre sua trajetória na música, família e preconceitos que já sofreu por trabalhar com o hip hop.

Rashid falou sobre a cena rapper brasileira e cuiabana, e conforme ele, todos são importantes, "do Mano Brown ao soldadinho do rap que ninguém nunca ouviu falar".

Questionado sobre convites para parcerias regionais, o artista respondeu: “Ainda não rolou, mas eu espero que role”.

Nascido em São Paulo no dia 21 de março de 1988, o músico também morou em Lavras, Minas Gerais, dos 13 aos 17 anos, mas retornou a SP. Adotou o nome artístico de Moska, mas mudou para Rashid.

Durante o bate papo, o rapper ainda contou sobre suas inspirações musicais, amizade na infância com Projota e Emicida, hobbys e a origem do seu nome.

Confira a entrevista completa na íntegra:

Jornalistas - Gostaria de saber se é a sua primeira vez em Cuiabá?

Rashid - É terceira vez em Cuiabá, a gente sempre é muito bem recebido. É interessante porque tem a própria cena do hip hop aqui sempre valoriza as pessoas que vêm fora e eu acho que a nossa obrigação vindo de fora também é chegar aqui e ajudar a valorizar a cena local, porque é isso que fomenta o movimento, isso que faz o hip hop ser tão forte no Brasil, como é hoje, sabe?

É sempre bom vir e agora a convite de um festival, eu fico muito feliz, fico muito honrado. Ainda mais sabendo os outros nomes, né? Que estão aí com um cara tão próximo de mim quanto é o Criolo também e o MV Bill que é um professor, um cara que a gente teve a oportunidade de gravar recentemente. Então assim, estar nesse meio, ser lembrado entre esses nomes, para mim é muito satisfatório. É um baita indicativo de que o trabalho tá fluindo bem, que as coisas estão indo bem.

A nossa expectativa é sempre a mais alta, a gente sempre quer entregar o máximo que a gente pode no palco 200%. Porque para mim é isso, é onde a música acontece na sua forma mais completa, assim, no ao vivo, sabe? Na hora de dividir a energia com as pessoas mesmo, é sentir as pessoas devolvendo pra gente aquilo que a gente tá entregando não só nas gravações, mas no palco também.

Jornalistas - Como que você vê eventos como esse que evidenciam principalmente os estilos como o hip hop?

Rashid - Acho fundamental, porque a gente passou períodos difíceis para o hip hop no Brasil. É ainda, de certa forma, que existe uma parcela da população que coloca o hip hop numa caixinha de subcultura, coloca o rap numa caixa de sub música e os artistas que fazem esse tipo de música colocam em uma caixa de sub artistas. E eu acho que quem tá com as antenas ligadas e a mente aberta vem percebendo que não. Que os artistas do hip hop têm ajudado muito a movimentar o cenário cultural do país e a os cantores, e cantores de rap têm ajudado muito não só a movimentar o cenário cultural, mas também a mexer com a cabeça da molecada, abrir os olhos para perspectivas políticas diferentes, inclusive combativa, que era uma característica do rap dos anos 90.

Mas eu acho que o rap dos anos 2020 mostra cada vez mais também que é necessário ter essa postura, é necessário ter esse comprometimento. E aí ter um festival que valoriza isso pra gente é importante porque ajuda a gente a carregar essa bandeira de que o hip hop é uma cultura rica, de que é o rap é uma música rica. E a gente tem diversos pensadores do Brasil contemporâneo de dentro da cultura rap, hoje em dia você não precisa pensar muito isso aí muito longe. É o Emicida, é o próprio Criolo, é o Mano Brown, é a Karol Conká que é uma baita de uma personalidade que foi revelada dentro da música rap da cultura hip hop e da cultura preta também.

Então, quando há uma decisão de fazer um festival que valoriza o rap tanto assim, esse festival se alinha gente nessa luta de colocar o hip hop e o rap nesse nesse patamar de cultura de fato e de uma cultura libertadora, uma cultura que é inclusiva por mais que tenha só as discussões e, há muito o que discutir sempre e isso em todas as culturas.

Mas é uma cultura inclusiva, não é exclusiva, é uma cultura que tem dado voz hoje. Por exemplo, você acha olha pra cena das batalhas de Mcs, você vê Mcs de diferentes bandeiras diferentes orientações, diferentes idades.Tem criança de 12 anos batalhando contra Mc de velha escola de quarenta e poucos anos e isso assim, pau a pau, isso é incrível, cara! Isso é só uma cultura que tem muita força que pode cativar alguma coisa desse jeito, pode cativar a sociedade desse jeito. Então quem valoriza o Hip Hop a gente valoriza de volta.

Jornalistas - Como que é para você cantar num festival de rap que valoriza a música?

Rashid - Acho que todo show é um show, sabe? Eu vejo e eu não consigo saber colocar: “já toquei no festival tal então agora tá tranquilo”. Não tem essa, aproveitando a metáfora que o festival está coladinho ali ao estádio, é como um cara que vai jogar uma partida de futebol, né? Ou uma mina que vai jogar uma partida de futebol pelo seu time, sabe? Todo jogo é um jogo, é um frio na barriga diferente, uma expectativa diferente, é um clima diferente. Então é uma preparação diferente, uma preocupação diferente. Então sempre tem algo a mais para dar um tempero, saca?

Vir para cá é sempre especial, é sempre quente de verdade. O público é quente e assim como é o clima, então isso implica outras coisas. A gente tem que pensar em qual música que a gente vai tocar e qual hora e tudo mais. São sempre expectativas diferentes para se alinhar e hoje venho com um formato entre aspas diferente, porque agora a gente tem uma mulher no nosso grupo que a backing vocal, a Aiya. Nas últimas vezes que eu vim para cá, ela não fazia parte, então assim, a gente tem um tempero a mais e uma voz grandiosa mais para mostrar, entende?

Então por isso que eu falo que é como um jogo, eu me sinto como um atleta numa delegação que tá indo ali para mostrar o que você treina numa vida inteira. Então de fato é da hora demais, é especial, uma satisfação, tem toda essa parte e ao mesmo tempo tem esse desafio de todoo jogo é um jogo, todo show é um show, e a gente que sempre quer deixar o melhor. Eu quero sair daqui e quando eu voltar aqui daqui um ano, dois, três, cinco, 10, as pessoas: “Aquele show no Vambora 2023 foi demais, lavei a alma”. Isso é sempre especial porque ficou na memória, eu acho que é o que a gente busca quando a gente faz um show, que as pessoas lembrem desse show assim por tempo indeterminado

Jornalistas - É a sua terceira vez em Cuiabá. Ao longo desses anos, o que você destaca que mudou na sua carreira profissional?

Rashid - Ah, mudou tanta coisa na carreira do Rashid, né? É eu acho que talvez é um momento em que, depois de ter lançado várias coisas e ter músicas que tocaram em rádio, eu acho que não vim pra cá depois disso, de ter uma música que de fato entrou na rádio, de ter tocado no próprio Lollapalooza como você citou, eu acho que venho em um baita momento. E aí fui pai, né? Então tem outra perspectiva das coisas, musiquinhas mais diferentes, musiquinha mais fofa já no show, porque a energia do pai é outra energia, tá ligado? Então, muita coisa mudou para mim, eu espero que de fato isso fique perceptível para as pessoas que assistem, porque isso é inspirador também. E para uma pessoa ver que a vida pode seguir e ela pode continuar sonhando e ela pode continuar fazendo a arte dela e aí aquele cara tá amadurecendo e a música dele tá amadurecendo com ele. Não há problema em amadurecer, não há problema em mudar, não há problema em fazer curvas na sua estrada, desde que você saiba para onde está indo.

Jornalistas - O que a gente pode esperar dos seus shows hoje em dia?

Rashid - Eu sempre que vou para cidades que a gente não está toda hora e nem todo ano. Mas sempre que eu vou eu tento fazer um um apanhado geral das músicas que eu acho mais especiais da minha jornada e tal. Então tem os hits, mas também tem essas as músicas que foram muito marcantes para mim, que fizeram toda essa construção para que eu pudesse inclusive chegar num “Bilhete” da vida.

Agora, recentemente, um trabalho,o EP Hora de Acordar, em 2013 completou 10 anos de lançamento. Tem um trabalho muito especial para mim, um trabalho que me revelou de verdade na cena do rap e tal. Então tem músicas desse trabalho nesse show porque é uma coisa que eu quero celebrar. E aí independente, porque a gente começou sobre isso, eu sempre quero fazer um show que seja bom para quem conhece e seja bom para quem não conhece também.

Para quem não conhece sair, tipo assim: “caramba, não sabia que um show de rap era assim, eu não sabia que o show do Rashid era assim”. Então eu tenho que sempre fazer uma, não diria salada, porque a salada dá impressão de que algo pegou um pouquinho daqui. Mas eu tento fazer alguma coisa que seja abrangente para mostrar um pouco do que a gente pode fazer artisticamente, da nossa riqueza mesmo, tanto musical quanto de performances.

Jornalistas - Gostaria que falasse um pouco sobre a sua carreira e trajetória. E se já sofreu preconceito?

Rashid - Muitas vezes na real, né? Acho a origem que tenho, com a ascendência que tenho, é impossível não ter passado por vários tipos de preconceito durante a minha caminhada. Mas eu acho que a gente vai tentando aprender a transformar isso em arte e transformar a arte em uma ferramenta de conscientização para que as pessoas saibam que isso existe.

Olha, o racismo existe, o preconceito de classe existe também e isso precisa ser posto. Por isso a consciência de classe é tão importante e a consciência de raça é importante ainda mais no Brasil, que há séculos se vende um discurso de uma democracia racial que não existe.

Então é preciso que as pessoas sejam conscientizadas disso e eu acho que a nossa música vem para isso, assim como vem para divertir assim, como vem para várias outras coisas para entreter. Ela precisa vir também para trazer a informação, trazer mensagem, são as coisas que eu acredito porque músicas que me inspiraram também faziam isso.

Então passei por várias coisas, por vários períodos difíceis, pessoalmente, profissionalmente, mas eu acho que são os degraus para construir uma caminhada que é o que eu considero sólida, uma caminhada sólida. É isso que eu quero, eu quero tá igual Racionais Mc's, daqui não sei quanto tempo aí estar comemorando 35 anos de carreira, 40 anos de carreira. O cara tá igual Gilberto Gilberto Gil, daqui a pouco tem 60 anos de carreira e se Deus quiser vai chegar até lá. Isso é uma parada incrível, porque é uma trajetória de contribuição para a música brasileira e para além da música, para a sociedade, porque Racionais e Gilberto Gil não tem como negar o impacto deles na sociedade brasileira e se um dia eu puder saber de alguém que olhou pro meu trabalho dessa forma, pô, olhar o Rashid de não sei quantos anos de carreira e a contribuição dele para a música e para a sociedade brasileira. Isso já vai ter valido pra mim da minha caminhada, de todo suor, todo santo suor e lágrimas, né? Que é o que a gente tanto fala porque a caminhada é isso, cheia de dor e delícias.

Jornalistas - Gostaria que falasse da importância da música rap que veio da periferia.

Rashid - A importância da arte da periferia no Brasil é simplesmente vital, é essencial para a cultura brasileira. Especialmente nesse período aqui que a gente vê uma ascensão mundial e uma ascensão internacional do funk, por exemplo. Que é uma música muitas vezes colocada de lado, colocada numa caixinha de sub música também. Mas aí a gente vive num país onde existe funk, samba, rap e onde existe o tecnobrega. E aí vai para o piseiro, aí vai para várias variações de ritmos e aí vai para o próprio brega.

A cultura periférica no Brasil é muito forte. Ela é muito firme, ela é muito sólida e o maior exemplo disso são os artistas que para mim é a maior parte dos grandes artistas, que surgem assim na música brasileira, ou eles são de fato pertencentes a esses ritmos aí que são muitas vezes marginalizados, mas são periféricos, ou eles bebem muito bem nessa fonte. E aí você vai pra Bahia, você vê como uma foi a história do axé lá também, o pagodão. Hoje a gente tem grandes representantes do rap vindo de vários lugares do país, então é muito difícil imaginar um Brasil contemporâneo sem a influência direta dessa música, mas pra além da música, dessa cultura que vem da periferia.

E aí a gente fala de música que a gente fala de moda. E aí você vê a música pop no Brasil, ela tem muita influência de rap, a música sertaneja hoje tem influência de rap, é possível perceber ali a influência do hip hop e aí o funk. O samba que construiu todo esse chão aqui pra gente poder caminhar. É isso cultura periférica do Brasil é cultura brasileira e, eu acho que é isso que causa tantas discussões de tantos problemas porque as pessoas muitas vezes que se dizem as maiores amantes do país não querem aceitar o que o país é realmente. Porque criam no seu próprio imaginário uma figura de pais que gostariam de ter, e que muitas vezes ia ser melhor nos Estados Unidos. Mas aqui nós somos um país tropical, de terceiro mundo, com outras condições, com outro dinheiro e essa é a nossa cultura. É justamente dessa cultura que surgiram Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano, Elis Regina, Belchior, Fagner, Renato Russo, Cazuza, é dessa cultura desse universo. E aí isso que a gente tem que aprender a valorizar e entender tanto a latinidade do Brasil, quanto a riqueza da cultura periférica que é produzida aqui.

Jornalistas - Teu nome é Michel Dias Costa, de onde veio o Rashid?

Rashid - É desta cara aqui, desse semblante que parece do Oriente Médio, do norte da África. Isso vem na verdade de inspirações que vem desses lugares e Rashid foi o nome que eu encontrei... Eu fui encontrado, sei lá, pelo nome. porque antes eu usava o nome de Moska, só que Mosca com k no lugar do c. E aí eu quando eu quis profissionalizar a minha carreira e tal foi quando eu pensei que precisava de um nome melhor. Porque eu sempre imaginava, sei lá o Faustão falando: “como vocês o Moska”. E aí o Rashid veio até mim e o nome significa em alguns lugares do do Oriente Médio justo ou de fé verdadeira. Tem muito mais a ver com a minha música e no norte da África significa guiado corretamente, que tem mais a ver ainda com as coisas que eu acredito, com a mensagem que eu quero passar.

Jornalistas - Você tem um estilo muito versátil. Por mais que você foque bastante no rap, você tem parcerias aí com Duda Beat que tava aqui recentemente com a Liniker, por exemplo. E aí você falou sobre essa questão do preconceito e tal. Como é esse processo de produção? Você usa esses momentos da sua vida para escrever?

Rashid - Basicamente isso, eu uso os momentos da vida pra compor na medida do possível. Eu tento fazer com que as coisas sejam sempre naturais, sabe? Você citou a Duda e a Liniker como exemplos de parcerias que fiz, são duas artistas que admiro demais, e duas artistas que me abraçaram quando conheceram o meu trabalho. Quando chegaram próximas de mim vieram conversar comigo demonstraram muito respeito pela minha pessoa. Eu tive a oportunidade de me apresentar com a Liniker que é tudo. Fiz uma apresentação com ela e a Tulipa Ruiz no centro de São Paulo e isso foi especial demais.

Eu fiz uma apresentação com Liniker e a Tulipa Ruiz no centro de São Paulo uma época e foi uma descoberta de outro universo. A forma como fui bem tratado, bem recebido ali no meio dessas cantoras que já estavam circulando em outros universos. E eu, como um cara do rap tentando adentrar esses outros do universo, a própria Duda Beat eu conheci nos bastidores do Lollapalooza, do primeiro que deu errado lá em 2019. Enfim, mas eu tento fazer sempre as coisas com que caminhem de forma natural. Quando eu tô criando uma música geralmente não penso isso: “eu fiz essa música e tal eu ia fazer barulho”. Eu gosto de fazer a música e às vezes a música que me sugere essa música, tipo “Ver Em Cores” tinha que ser a Liniker, não existia outra possibilidade no universo.

“Sobrou o Silêncio” tinha que ser a Duda e às vezes acontece de dar errado. Em dado momento estava fazendo uma música, compondo uma música que era para a Gloria Groove participar e aí deu errado. Essa música ficou engavetada porque tinha que ser ela naquele momento. Acho que uma hora vem, ela tá num puta momento da carreira e tem que aproveitar mesmo. Uma hora que rolar com a naturalidade, porque é isso também, eu valorizo essa junção. Vamos sentar agora, vamos trocar ideia, vamos fazer e tal, é tipo fazer pela música.

É lógico que a gente, uma puta da artista que vai fazer o bagulho bombar pra outros lugares da mesma forma que pode ser que ela acha interessante entrar no rap também através do trabalho do Rashid. Mas não pode ser só isso, uma coisa tão fria: "vamos fazer pelo algoritmo". Não, vamos fazer porque é foda, porque a música, porque é nós, é construir essa relação. É isso que energia para as músicas que vocês sentem, porque a gente faz o bagulho do que é nós, entendeu? Tentando responder tudo de uma vez, eu tento, sim, de fato usar os momentos da vida de relacionamento, de treta, de revolta com política ou sei lá, a felicidade por estar vivendo um momento da hora. Tentar trazer tudo isso para o som, da forma que dá.

Jornalistas - As tuas letras são bem educativas e literárias. Qual a inspiração?

Rashid - Isso tem a ver com o que eu consumo, mas também tem a ver com as pessoas que me inspiram. Vejo que eu admiro isso nos meus ídolos. Quando você vai destrinchar letras dentro dessas pessoas, eu já citei várias vezes o próprio Gilberto Gil, você vai achar um monte de coisas ali que você vai ver que são livros, são filmes, são músicas e outros artistas e você não sabia e eu acho que essa é a parada da música. É o ouro, daqui 10 anos vocês escutam uma música uma década inteira e depois de uma década, você descobre uma coisa que você: “Pô, eu não acredito que o Rashid estava falando desse filme, esse tempo todo era isso". Eu acho que essa é a graça, é como você olhar um quadro e perceber um detalhe novo naquele quadro. Por isso que eu gosto de colocar essas coisas também, é um temperinho.

Jornalistas - Gostaria que falasse do Rashid fora dessa cena musical. Você tem algum hobby? O que você faz quando não está cantando ou escrevendo música?

Rashid - Tô cuidando do meu filho recentemente. Eu tenho um filho de vai fazer um ano e meio daqui a pouco e quem tem filho pequeno sabe que a rotina é em volta da criança. Minha vida é em torno da música, gente, o meu Life Style é todo em volta da música e dentro de casa, se eu não tô criando, eu tô ali cuidando do meu bebê e tal. Minha esposa trabalha comigo, ela é minha empresária. Imagina que as reuniões acontecem assim: a gente tá tomando um café da tarde fazendo uma reunião e o bebê tá passando ali comendo um biscoito e a gente tem que ficar de olho.

Mas a minha vida tudo é em volta da música assim de fato. Eu gosto de correr, o meu hobby mesmo é correr na rua, eu gosto de correr a hora que eu desestresso e tal, mas minha parada eu tento fazer minha vida girar em volta da arte. Eu tento criar um ambiente que me inspire de fato para continuar fazendo mais coisas relevantes e melhores. Então é isso sempre, tudo que eu faço acabar voltando pra música. Se eu tô assistindo um filme eu tô estudando, sabe? Consequentemente. Se eu tô vendo um disco, eu tô estudando consequentemente. Se eu tô lendo um livro eu tô estudando consequentemente. Então acaba pra mim que tudo volta pra música. Inclusive quando eu tô cuidando do meu filho, daqui a pouco vocês vão começar a ouvir os lançamentos do Rashid falando pra caramba do filho. Estou regando uma planta, daqui a pouco você vai ouvir o Rashid falando de regar a planta da música, tudo volta, é assim que a gente vive.

Jornalista - Tem alguma alguma mensagem para os artistas daqui? Nós somos a Capital do agronegócio, como as pessoas podem resistir diante do atual cenário?

Rashid - Essa é a luta. Se fosse para escolher o caminho mais fácil, a gente não teria entrado no hip hop definitivamente, embora hoje pareça muito mais fácil. Porque a gente vê os artistas estourando uma música, se tornando uma grande estrela de repente, mas isso não significa que é fácil para todo mundo. A gente tem que ter consciência de que esses artistas que são os mais estourados que tudo, eles são 1% da cena musical, se não for menos. Os outros 99% são artistas que são medianos, são pequenos e tá todo mundo na luta tentando mostrar o seu trabalho. E só assim que a coisa se mantém, a cena é feita disso, a cena oxigenada. Então é preciso sempre haver resistência porque a gente entra no hip hop, a gente entra no rap, a gente entra para fazer um grafite ou para ser DJ ou para dançar um Break, a gente entra pela arte. Porque a gente ama isso, porque aquilo de certa forma faz a gente se sentir mais a gente. Aproxima a gente daquilo que a gente idealiza como uma pessoa, um ser, uma vida, além da existência.

Agora eu me sinto fazendo alguma coisa, agora eu me sinto pertencente a um lugar, a um povo, a uma cultura. Eu acho que é por isso que a gente entra na na cultura hip hop e as coisas são difíceis pra gente porque a nossa cultura é uma cultura de periferia, é uma cultura preta e é uma cultura que não só isso, ela grita isso todos os dias, ela coloca isso na cara da sociedade todos os dias e por isso as coisas são difíceis.

Mas ao mesmo tempo é incrível, é bonito e é muito sólido o que a gente vai construindo. Um grande professor meu chamado Parte 1, ele sempre fala isso, que todo mundo é importante, do Mano Brown ao soldadinho do rap que ninguém nunca ouviu falar, todas essas pessoas nessa cadeia são muito importantes, porque todas essas pessoas é que fazem essa cena viver. Se não tivesse o Mano Brown a parada não haveria como existir como existe hoje, mas se não tivesse o soldadinho do rap, também não. Então é preciso haver essa consciência de que todos têm importância. E aí estar no lugar onde é tão difícil fazer essa coisa virar, onde é tão difícil fazer essa cultura prosperar, eu acho que eu obviamente eu estou falando de fora, mas eu estou falando não é porque eu tô falando de fora e porque eu sou de São Paulo que não significa que eu não passei por isso.

São Paulo passou por isso há algumas décadas atrás. Eu cresci no interior de Minas Gerais na verdade. Então foi ali que eu tive que criar o meu próprio movimento também. Eu acho que isso tem que servir como motivação mesmo, como gasolina. E não é nem gasolina no tanque do carro, é gasolina no fogo mesmo, para fazer a coisa queimar sabe? E explodir. Tem que servir, tem que saber se organizar, justamente por isso a força é física. Se a força contrária tá muito forte, a nossa força tem que ser mais forte.

Muitas vezes vai ser difícil, a gente cansa, desanima e aí um dia vem um resultado. Aquilo tudo volta, aquela motivação toda volta, aquela paixão toda volta e você lembra o porque você estava fazendo isso, eu acho que são essas coisas fundamentais.

Entre 2006 e 2007, eu me juntei com os amigos da rua pra gente começar fazendo nosso próprio movimento e assim esses amigos já tinham uns apelidos que ele tem hoje. Eram o Projota e era o Emicida, e quem dava valor para esses caras? Esses caras passaram por muita coisa na vida deles e eles me viram passar por muita coisa na minha vida. A gente nunca imaginaria que a gente estaria aqui hoje, que a gente estaria onde a gente está hoje. E olha que o Emicida é um dos maiores artistas da música brasileira. O Projota figura ainda entre os maiores artistas que conseguiram fazer uma música pop, ainda da rua, dentro da cena musical brasileira. Isso tem muito valor, três moleques da Zona Norte, o raio caiu no mesmo lugar muito próximo três vezes.

Jornalista - Então o Projota e o Emicida são seus amigos de infância?

Rashid - Eles foram meus amigos de infância. O Projota eu conheço desde praticamente que eu tinha 13 anos e o Emicida conheci com 17 para 18 anos. Então são meus irmãos mais velhos e são meus amigos de infância e adolescência. E eu tô citando eles porque é muito forte isso, a minha avó morava na mesma rua que a avó do Projota. A gente se conheceu ali, qual é a probabilidade de isso acontecer, né? Então é tipo assim, vai saber da onde que vai vir esse grande nome do hip hop de Cuiabá. Se já não tá aí e as pessoas só não estão olhando. Quem pode ser? O que é que essa pessoa pode fazer? A gente só vai saber se a coisa acontecer. E todo esse discurso mistura muito do lúdico, do poético, do romântico, mas mistura também com a realidade porque é isso, a gente só vai saber tentando, a gente só vai saber lutando.

E quando a gente fala de uma cultura preta de periferia e marginalizada, não existe sucesso sem luta, isso é ilusão. Então a gente tem que lutar para ver o sucesso e a gente tá até hoje. O Rashid tá aqui, eu sou um lutador e se hoje eu tô aqui é porque de certa forma cena de Cuiabá acreditou em mim também pra lutar do seu lado e ficar honrado.

Jornalistas - Já conheceu os artistas daqui? Recebeu convite de parceria?

Rashid - Ainda não rolou, mas eu espero que role. Se não rolou, espero trocar ideias. Espero que as coisas rolem, sim, porque precisa. A gente viveu num momento que era São Paulo e Rio só, aí hoje a gente tem uma coisa mais abrangente no Brasil. Aí a gente tem, de repente, Djonga em Belo Horizonte. Citando os nomes que furaram a bolha de certa forma. Porque existe toda uma cena em todos esses lugares aí, Freud de Brasília, a própria Karol que já citei que é de Curitiba, e isso pra citar assim rapidamente nomes que vem à cabeça, mas tem muitas pessoas de muitos outros lugares. Tem o Don L de Fortaleza. Então a gente tem uma gama muito maior de artistas hoje e não à toa, é o momento musicalmente mais rico assim, de opções, do rap brasileiro saca? De opções de melodias, de sotaques, de ideias e de filosofias.

Isso é bom para caramba para gente saca e é isso, eu acho que isso também tem que servir de inspiração. Porque eu venho para cá e eu acho que as coisas precisam voltar. Eu quero ver artistas de Cuiabá e de Mato Grosso indo para São Paulo e Rio. Fazendo barulho lá, porque assim a gente vai conseguir criar de verdade um mercado conciso e sólido onde as pessoas conseguem viver da sua arte, conseguem ajudar outras pessoas, ajudar sua família, gerar emprego. E para ter uma cena, se a gente olha pra cena norte-americana como um exemplo tão grande assim, é isso. Então é preciso não olhar o resultado, olhar como é o método da coisa.

Então para que exista um resultado tão bom a gente precisa aprender a valorizar o resto do hip hop de todos os estados e de todas as cidades. Porque o Rashid pode vir para cá e o artista daqui pode ir para lá e depois eu vou para outro lugar, e nós se tromba lá. Isso é um mercado, essa é uma cena de verdade e esse é um negócio. E aí todo mundo vai conseguir estar bem se Deus quiser ajudando sua familinha, porque todo mundo tem um sonho de ajudar a sua família. Primeira coisa que eu fiz, primeiro dinheiro de rap que eu ganhei eu comprei pizza em casa, porque eu queria mostrar. É isso, todo mundo tem esse sonho também, eu acho que todo mundo deveria ter a oportunidade de experimentar.


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