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Notícias / Entrevista

13/10/2023 às 13:03

PERSONALIDADE MATO-GROSSENSE

Poetisa, escritora e presidente da Academia Mato-Grossense de Letras: conheça a trajetória por trás da multiartista Luciene Carvalho

Em entrevista ao Entretê, contou sobre a sua infância, família, inspirações e preconceitos que já sofreu para agora ser a primeira mulher negra no comando da AML em 102 anos de história

Gabriella Arantes

Poetisa, escritora e presidente da Academia Mato-Grossense de Letras: conheça a trajetória por trás da multiartista Luciene Carvalho

Foto: Entretê

Considerada uma das maiores personalidades de Mato Grosso, a poetisa, dramaturga, performática e escritora, Luciene Carvalho, foi escolhida para participar da "A História por Trás do Artista" desta semana.

Recentemente, no dia 30 de setembro, Luciene foi empossada como presidente da Academia Mato-Grossense de Letras (AML) e se tornou a primeira mulher negra à frente da instituição em 102 anos de história. A escritora relatou ao Entretê que sua mãe morreu antes de receber a notícia sobre o novo cargo: “enterrei minha mãe, 24h depois, eu ganhei”.

Nascida em um estado ainda unificado, em Corumbá, a poetisa é cuiabana desde 1974. Durante a entrevista, a multiartista ainda contou sobre sua trajetória na literatura, infância, família, inspirações e preconceitos que já sofreu.

Com 14 livros publicados, Luciene também é diretora de teatro, formada pela MT Escola de Teatro (Unemat, campus Cuiabá), inspirou espetáculos de dança e de teatro e é tema de pesquisas acadêmicas.

Confira a entrevista completa:


Entretê - Antes de vir para o presente eu queria que você contasse um pouquinho da sua história.

Luciene - Eu era uma pessoa comum do Mato Grosso do Sul, tudo era Mato Grosso na verdade. Eu nasci na região de Corumbá e depois fui morar em um lugar mais longe ainda, chamado Mista, meu pai cuidava da última estação de embarque de gado e minha mãe trabalhava no hospital da Marinha. Então eu morei assim na fronteira, em que o Brasil já vai virando águas bolivianas e paraguaias. Eu sou da beira do Rio Paraguai.

Entretê - Como era sua vida nessa época? Tem irmãos?

Luciene - Da minha mãe e do meu pai sou filha única e minha mãe já tinha filhos do coração que caberiam num estádio. Todos os órfãos do mundo estão na natureza dela de acolher e amar. Eu cresci em uma família bem múltipla, bem incomum. A gente vivia num lugar tão longe, tão distante de qualquer tipo entretenimento ou expressão cultural instituída e as coisas eram feitas no universo doméstico familiar. Cedo eu mostrei pendores para as artes dentro de casa mesmo. Minha mãe organizando e alguém não queria. Sabe aquela coisa clássica? A protagonista não quis e alguém que estava por ali que era eu, com 2 anos e meio, falei que queria. Comecei a fazer essas coisas: arte cênica, peças pequenininhas e poesia. Só que eu não sei sem poesia, toda vez que lembro de mim já tava dando poesia na escola, para receber as pessoas como parte dessa coisa da corte ao visitante, dar corte aquele que chega, é muito intenso isso na região pantaneira. Meu pai morreu quando eu tinha 8 anos e meio e minha mãe decidiu voltar para Cuiabá, ela era daqui. E aí veio para casa e para o quintal dos meus avós, no sentido de estriamento, mesmo.

Entretê - Você morando aqui, começou a perceber que na Capital a cultura e a poesia são um pouco mais acessíveis?

Luciene - Nada, tudo muito estranho, tudo diferente. O mapa e a riqueza cultural do Mato Grosso sempre foi multiplo. Eu cheguei em uma Cuiabá mais Capital, mas eu era muito criança. Fiquei isolada no quintal e eu tive um episódio, acho que nunca contei isso na imprensa. Aos 13 anos tive um reumatismo e fiquei sem andar por um período e paralisei. E assim, tentaram benzetacil, tentaram até fazer eu nadar lá na piscina da UFMT e um primo me chamou para fazer um teatro de bairro e eu sarei. É muita verdade isso que estou te falando. Eu entendo que a arte é curativa.

Entretê - Depois desse episódio, qual foi o pontapé inicial para começar sua carreira?

Luciene - Eu parei com tudo, fui para as escolas públicas e fiz Escola Técnica Federal e serviço social na UFMT. E em algum momento fui me aproximando da literatura até que no dia da morte de Drummond tive um impacto. Eu, ledora de prosa, sempre fui alguém que gostava de ler, me vi chocada com um chamado que não sei te explicar e comecei a escrever. Eu lia muita prosa, já tinha escrito alguns poemas na adolescência e minha mãe falou que eu comecei a escrever depois que papai morreu. Eu passei de 87 juntando e vivendo um processo de fluxo, de intensidade de ocupação interna. A poesia foi ganhando territórios dentro de mim.

Eu passei algum tempo em Ribeirão Preto, pra mim foi como um exílio. Engraçado que era como a gente via, era um exílio clássico do romantismo. Eu voltei para Cuiabá com esses inscritos e estava tendo um festival livre de música popular aqui na UFMT, eu ganhei primeiro e terceiros lugares. Era em 1992 e eu já estava com 27 anos. Isso me colocou diante de uma possibilidade que eu não conseguia assimilar. No ano seguinte eu ganhei o segundo lugar e o direito de publicação. A minha primeira publicação foi coletiva na UFMT por premiação e mais sete anos que tentei de todas as formas fugir disso. Em 2000 publiquei meu primeiro livro, em 16 dias foi indicado a um prêmio à crítica, ganhei e não parei mais. Mas aí me organizei, eu convoquei a criança pantaneira para declamar, para vir comigo.

Entretê - Você acredita que esse é o seu diferencial é ter passado por essa vivência de criança pantaneira?

Luciene - Acho que a declamação faz toda a diferença, eu estou falando tecnicamente com você. Porque eu falo que estou falando tecnicamente? Porque um monte de gente não gosta de ler, não é que não gosta de poesia. Não tem fluxo de leitura e quando uso da oralidade poética, eu permito que as pessoas possam receber a poesia por esse órgão, por esse sentido passivo que é o ouvido. Sempre pronto e disponível. Eu cuidei de cenário, figurino, de trilha, eu cuidei de apresentar minha poesia. Eu embalei minha poesia com a oralidade poética, para poder vender disso. Tem 22 anos que eu vivo da minha arte, 14 livros, centenas de shows em cidades como São Paulo, Londrina, Chile e assim vai.

Entretê - Vamos falar um pouco sobre a sua obra. Você tem ideia de quantas poesias já escreveu?

Luciene - É impossível contar. Porque cada vez que eu escrevo, os poemas vêm múltiplos de três. É três, seis e nove. Eu já escrevi 15 poemas um seguido do outro. Eu tenho nos meus cadernos de inéditos, tenho uma linha voltada de inéditos. Eu tenho esparramados livros com pedaços de poemas, um, dois, três e seis. Parou, continua. São 14 livros publicados e o 15º , nós estamos finalizando, se chama “Saranzal”.

Entretê - No dia 30 de setembro você foi empossada como presidente da Academia Mato-Grossense de Letras (AML). Qual a expectativa para esse novo projeto?

Luciene - Nesse momento eu vou me dedicar a fazer gestão da Casa Barão de Melgaço, onde é a Academia Mato-grossense de Letras (AML). Eu vou estar lá junto com uma equipe muito legal e linda. É uma gente produtiva, notável e brilhante que vem comigo. Isso me deu segurança para incorrer nesse risco para ter esse arrojo. É uma gente que produz pesquisa, música, teatro e produz muita literatura. Então existe todo um grupo de pessoas que respalda e me encorajam para eu ter tomado essa atitude.

Entretê - Você é a primeira presidente mulher negra em 102 anos de história da instituição. Como está seu coração?

Luciene - Meu coração está no estômago, de tanto que ele cresceu. Eu fui me candidatar como forma de abençoar e de agradecer minha mãe. Sabe aquela mulher que nunca me põe para trabalhar nos serviços que marcam, que moem. Sabe, ser babá, trabalhar como empregada doméstica… Não estou falando que são pessoas menores, mas são lugares de vulnerabilidade social pelo tratamento que recebem. E a minha mãe me permitiu que eu tivesse tempo. Eu fui concorrer quase como que para quitar essa fatura, para premiar.

Minha mãe morreu dois dias antes de eu ganhar. Na hora que eu enterrei minha mãe, 24h depois eu ganhei. Então fico pensando que a minha mãe foi isca, sabe? Fico pensando que hoje eu honro todas as mulheres que fizeram a travessia da melanina, que vieram das Áfricas, que são várias, em vários países. Que ocuparam por diversas vezes condições de dificuldades, mas elas sempre venceram alguma coisa a mais. Eu sou bisneta de uma parteira, minha bisavó era parteira em Livramento. Minha avó era uma mulher que fazia doce de limão e fazia rede. Minha mãe gostava de ler.

Entretê - A sua paixão pela literatura veio da sua mãe?

Luciene - Foi na placenta. Uma das coisas que os pais ainda não entenderam é que os filhos vão entender leitura por hábito. Então como eles não veem os pais lendo, ler não faz parte do cardápio de coisas cotidianas. Então você vê a sua mãe arrumando a sobrancelha e o cabelo e, seu pai indo trabalhar, sua família assistindo televisão. E isso se torna padrão. Como é que uma criança vai constituir padrão se não vê ninguém lendo? Mas eu vi. Eu vi as irmãs, o irmão, cada um lia alguma coisa. Então eu desenvolvi um paladar e um apetite desde a infância, eu lia até a caixa de pasta de dente. A minha formação não é clássica, constituída e organizada. A minha formação é de fome, eu fui lendo tudo que fui encontrando pela vida. Eu sou aquela criança que nas férias emprestava livro da casa dos amigos, sentava em uma poltrona e aproveitava as férias inteira lendo. Eu me enchi disso, a literatura me preencheu. E os senões que a vida me trouxe depois, e eu quase me perco, de novo vem a poesia, me da cidadania e lugar social. E agora ela faz essa terceira onda, é muito horroroso estar entre os meus pares que escrevem. Não se engane, eu sou envaidecida por pertencer a casta literária da minha terra. Depois de chegar à condição de presidente da Academia, é uma honra. Porque é uma carta de crédito que te é dada. É necessário desenvolver trabalhos, muito bonito quando a gente entra, mas a gente tem que desenvolver trabalhos e eu estou comprometida com isso.

Entretê - Você já enfrentou preconceitos por ser uma mulher negra?

Luciene - Todos que você imaginar. A melanina é uma coisa que quando vem expressa na pele, atrai toda a valorização cultural de uma sociedade. E o Brasil ainda não foi tratado da doença chamada de racismo. E vai demorar para tratar, porque as pessoas pensam que os sintomas não são da doença. Naturalizaram o racismo no Brasil de tal forma que as pessoas não enxergam e como não enxergam, não tratam ou mudam. A negação permite que se diga que esse não é um país de racista. Como um país com quatro séculos de escravidão, em 140 anos vai dar para tratar? Ainda mais com a negação, ainda mais com o colorismo e ainda mais quando os próprios negros exercitam o preconceito por eles. Porque nós temos isso. Então, o que resolve? Porque a gente fica só no denuncismo, resolve primeiro uma atitude de auto amor e auto aceitação. Entender que é difícil viver mesmo. Depois a gente supera a negação e se percebe e se entende inteiro. Por exemplo, tem palavras para mim que só são possíveis no plural, como beleza, saúde, inteligência, tudo isso tem que ser plural, num país plural como o nosso. Então, é um trabalho de casa, pessoal, interno, se gostar e tem que ter alianças. Nós temos que ter os aliados, a transformação das questões raciais no país não vai se dar só com o movimento dos negros. É de extrema urgência que humanistas e pessoas esclarecidas se engajem nos movimentos anti racistas, na educação que dão para os filhos, no estabelecimento de novas relações de trabalho. Eu penso que a notícia, que a Casa Barão resolveu dar para o mundo é progressista, saudável, airada e celebrada.

Entretê - Gostaria de saber como é a Luciene em casa, no dia a dia. O que você gosta de fazer? E de comer?

Luciene - Eu não vivo mais no gosto. Sou alguém que há dois anos e meio passou por um infarto. A partir daí estou construindo a minha relação com a comida. Percebi a compulsão alimentar, hoje eu tenho uma nutrição diferente, bem longe do que eu gosto. Já eliminei o açúcar, o carboidrato, o pão, macarrão, batata, mandioca, nada disso mais. Eu como legumes, frutas e castanhas. Então eu sou alguém pautada no que é preciso, sou aberta a disciplinas novas. Então eu cuido do quintal, moro na casa dos meus avós, cuido daqui, do meu companheiro, me trato dos diagnósticos no sentido da saúde mental. A gente tem animais de estimação que cuidamos com muito zelo. Nós temos três cachorros, dois gatos, um peixe e centenas de passarinhos. É um quintal muito grande e a gente preserva as casinhas. A casa é de adobo ainda, eu tenho uma relação com essa Cuiabá mais antiga que eu entendo que a cultura dos quintais cuiabanos é muito saudável. Eu brinco que não tem órfã em um quintal, que as tradições culturais são preservadas em um quintal. Tanto que todo mundo está procurando condomínio horizontal, né? Que é uma forma de quintal. Eu escrevo nas madrugadas sempre que possível, às vezes a poesia vem e às vezes eu morro de saudade. Às vezes ela nem liga pra mim. A poesia é que comanda a coisa, não sou eu não. Eu também sou diretora teatral, dou aula na MT Escola de Teatro. A pouquissímo tempo, mas dou.

Entretê - Em quais lugares você costuma frequentar em Cuiabá?

Luciene - Eu frequento o Mercado do Porto, o Cine Teatro Cuiabá, Casa das Pretas, Misc. Eu frequento águas de cachoeiras, amo águas de cachoeiras. Acho que Cuiabá é um paraíso, porque para além dessa cidade quente, em qualquer direção que você vai tem água ainda e isso é um prêmio para o universo. Mas para procurar só o ar condicionado é importante a gente se entender na natureza.

Entretê - Você tem alguma habilidade que poucas pessoas conhecem?

Luciene - A habilidade que eu tenho e escondo é que eu bordo tapetes em arraiolo. Gosto de trabalhos manuais, desde você mudar uma roupa, a colocar, e rejuntar coisas. Eu gosto das minhas amigas aqui do bairro, as meninas que me viram crescer e minhas parceiras de vida. Algumas são cuidadoras, outras são mulheres que fazem serviços domésticos, eu mantenho relações com elas. Eu sou apaixonada em artes plásticas, não consigo comprar quadros muito grandes, mas sempre que é possível a gente adquire pequenos ou ganha. Eu admiro muito a arte de ocupar os espaços e visualidades.
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