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Notícias / Entrevista da Semana

30/05/2021 às 08:00

Bruno Bini fala dos bastidores de Loop, Fernando Meirelles, prêmios, críticas e lançamento comercial

Estrelado por Bruno Gagliasso, Loop está em cartaz nos cinemas de SP e foi eleito o melhor filme pelo Júri Popular do Cinemato

Túlio Paniago

O Júri Popular da 20ª edição do Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá (Cinemato) deu o prêmio de melhor filme na Mostra Competitiva de Longas-metragens para Loop, dirigido por Bruno Bino. A premiação aconteceu no dia 22 de maio, dois dias após o filme entrar em cartaz nos cinemas de São Paulo.

A produção mato-grossense (co-produzida pela Plano B Filmes, Valkyria Filmes e Globo Filmes) conta com nomes de peso no elenco principal, como Bia Arantes, Branca Messina e Bruno Gagliasso. Na trama, Daniel (Gagliasso) perde a namorada Maria Luiza (Bia Arantes) em um assassinato. Para salvá-la, ele precisa descobrir a fórmula que torna possível viajar no tempo e impedir a tragédia. 


Loop foi premiado em festivais internacionais, com destaque para o Manchester Film Festival, no qual ganhou quatro prêmios, entre eles os de melhor filme e melhor atriz para Messina. No Los Angeles Brazilian Film Festival, Gagliasso recebeu o troféu de Melhor Ator. Em Portugal, esteve na sessão de encerramento do maior festival de cinema do país, o Fantasporto.

Graças à visibilidade alcançada, Loop deverá ser lançado em circuito comercial no Japão e na Coréia do Sul e ainda pode pintar em outros estados brasileiros, inclusive Mato Grosso. O renomado cineasta Fernando Meirelles - Cidade de Deus (2002) e Dois Papas (2019) - assinou a supervisão artística e afirmou que não se parece com nada que ele já tenha visto no cinema nacional. 

Apesar dos prêmios e das críticas positivas, o filme foi alvo de uma polêmica justamente no evento de lançamento, no prestigiado Festival de Brasília, inclusive este foi o primeiro longa de Mato Grosso selecionado para a Mostra Competitiva do festival. Na ocasião, a também diretora Ana Flávia Cavalcante acusou o filme de romantizar o feminicídio.

Leiagora - Do ponto de vista narrativo, Loop poderia ter sido filmado em qualquer lugar, mas você optou por gravar em Cuiabá. O que motivou essa escolha? 

Bruno Bini - Na época, éramos nós da Plano B Filmes, a Valkyria Filmes e a Globo Filmes. A gente estava discutindo onde rodar esse filme e algumas coisas nos levaram a tomar essa decisão. A primeira era a minha vontade de fazer o filme aqui, eu queria muito registrar Cuiabá.

Acho que o filme realmente poderia acontecer em qualquer cidade, é uma história que pode se passar em qualquer lugar, mas eu tinha essa vontade particular. A gente estava debatendo isso e, numa conversa com o Fernando Meirelles, as minhas defesas foram inclusive considerando a questão de custos.

Rodar aqui foi mais barato do que seria rodar em São Paulo, Rio de Janeiro ou em alguma outra grande cidade onde os custos de produção são mais elevados. Isso ajudou, inclusive, a gente colocar o filme dentro do orçamento que a gente tinha disponível. Então houve uma decisão de ordem técnica e prática e uma decisão de ordem particular, da minha vontade de ser aqui.

Durante as conversas, o Fernando acabou entrando no Google e jogou “Cuiabá”, e aí ele falou: “Meu Deus do céu! Olha o pôr do sol que tem aí! Não, você tem que filmar aí mesmo” [risos]. E aí foi um consenso geral. Eu fiquei muito feliz de trazer o filme pra cá porque eu tinha certeza que o resultado seria muito bacana. 

Leiagora - E sobre o elenco? Ele é composto majoritariamente por profissionais do eixo Rio-São Paulo. Queria que comentasse também sobre essa decisão.


Bruno Bini - Esse é um filme que tem um investimento razoável. Ele não tem um orçamento alto, mas tem um orçamento mediano. A gente queria uns nomes fortes, conhecidos do público, porque esse é um filme que tem uma intenção de alcançar distribuição comercial, que é o que está acontecendo agora. Então a gente precisava de um protagonista que fosse feito por um ator mais conhecido.

E um elenco mais conhecido também acaba chamando a atenção do público, mas também teve a participação de vários artistas locais. A gente teve uma oportunidade grande de abrir espaço dentro do filme, com alguns papéis um pouco menores, para talentos locais.


Leiagora Na sua visão enquanto diretor, como foi essa interação, tanto do elenco quanto das funções técnicas, entre o pessoal daqui e os que vieram de fora?

Bruno Bini - Acho que houve generosidade dos dois lados. Pelo menos o que testemunhei - e fiquei muito feliz - foi justamente uma troca de experiências. Foi criado um ambiente muito receptivo para quem estava vindo de fora e, por outro lado, um ambiente de abertura para incluir esse pessoal que estava entrando em um processo com um pouco menos de experiência. Então foi muito legal a troca de ideias no set, criando junto. Acho que funcionou muito bem.

Leiagora O Fernando Meireles chegou a comentar o seguinte: “Loop não se parece com nada que eu já tinha assistido no cinema nacional. É surpreendente”. Como foi a experiência de trabalhar com o Fernando Meirelles e como se deu esse contato entre vocês?

Bruno Bini - O contato com o Fernando foi através da Globo Filmes, porque ele era um dos consultores que atuam na seleção dos projetos que a Globo vai entrar. E eles se tornam [os consultores] produtores associados e também supervisores. Ele é um desses caras.

Então, quando a Globo Filmes entrou no projeto, já chegou indicando: “Olha, queremos fazer a co-produção com vocês e estamos trazendo o Fernando Meirelles como supervisor artístico”. Eu falei: “Meu Deus, que maravilha! Adorei” [risos] Eu sou super fã dele, eu adoro o trabalho do cara e é uma das referências que eu tenho no cinema.

Então foi a partir daí que começou o contato. E nós tivemos várias reuniões, uma troca de e-mails intensa dentro do ritmo dele, que na época estava filmando “Dois Papas”, tava numa correria louca, mas conseguiu contribuir demais! Ele trouxe apontamentos e trocamos muitas ideias, conversamos muito por Skype, por e-mail, e ele foi muito generoso durante todo o processo.

Desde a declaração dele, que você acabou de falar, mas de todo o processo mesmo, ele trazendo todo o know how, todo o expertise técnico e criativo, mas sempre com muito cuidado para que se mantivesse a decisão criativa mais nas minhas mãos enquanto roteirista e diretor do projeto. Foi um processo muito tranquilo. A parte criativa às vezes tem seus embates, mas, nesse caso, foi um processo muito sereno e, para mim, profundamente enriquecedor.


Leiagora No roteiro você trabalha com a perspectiva de loop temporal. Essa é uma temática que você já vinha trabalhando ou foi algo novo para você? Como surgiu essa ideia?  

Bruno Bini - Inicialmente, o filme começou como uma experiência narrativa. Ele era um roteiro de um curta que eu não consegui levantar recursos para produzir. E aí depois, com o tempo, eu fui ampliando a história de forma que ela se tornou um longa-metragem.

Mas essa questão do fluxo temporal, da viagem no tempo, da possibilidade de você rever sua história, mudar ou influenciar acontecimentos, isso sempre foi uma premissa que me instigou. Bom, acabou vindo de uma forma natural, primeiro como um exercício narrativo, e aí eu percebi que através dessa história da viagem no tempo eu poderia realizar esse exercício. E acabei, na verdade, criando uma história que eu gostaria de ver no cinema ou na TV.

Eu acredito que essa premissa da viagem no tempo tem um apelo muito forte, pelo menos para mim, e eu tenho tido já um feedback bastante positivo. E também porque há poucas histórias como essa contadas no cinema brasileiro, achei que era um gap, um buraco, um vazio, que talvez eu poderia preencher com esse filme. 


Leiagora No geral, as críticas do filme são positivas, mas houve uma crítica negativa quando ele foi exibido no Festival de Brasília. A diretora Ana Flávia Cavalcanti acusou o filme de romantizar o feminicídio. Qual é a sua avaliação sobre isso?

Bruno Bini - Pra mim, foi uma surpresa. Durante todo o processo de produção do filme, que contou com várias empresas e profissionais envolvidos, gente com extenso know how na produção de cinema, essa questão não apareceu dessa forma. A gente tem a presença do tema da violência doméstica, da violência contra a mulher, mas a gente não tinha visto isso dessa forma.

E de forma alguma invalido o argumento que foi feito. A gente teve um debate que foi razoavelmente acalorado lá em Brasília e acho que eu tentei exercitar a absorção o máximo que pude. Acho que era minha vez de ouvir. O que a gente tem que estar tranquilo enquanto realizador é que o filme, o produto cultural que você está realizando, ele vai acontecer diferente para cada pessoa.

Então, para mim, o Loop acontece diferente do que aconteceu para ela. E nenhum dos dois está errado, nenhuma das duas percepções deve ser invalidada. Acho que o meu papel é o de tentar fazer o melhor trabalho possível enquanto a gente está produzindo o filme e também o de estar aberto para novos inputs, para os novas interpretações, porque isso pode me fazer crescer enquanto realizador, me fazer amadurecer, me fazer abrir os olhos, abrir a minha percepção para coisas que talvez não estivessem no meu radar.

O que posso dizer é que foi um debate que eu vejo como enriquecedor. E o meu papel é justamente esse: o de receber isso, de contaminar com o filme que a gente está fazendo, mas também de ser contaminado com o feedback que está chegando, seja ele positivo ou negativo. Nenhum filme está imune às duas coisas.


Leiagora O filme está sendo lançado comercialmente agora, mas já tem uma carreira premiada em festivais e mostras. Queria que falasse sobre essa trajetória.

Bruno Bini - Essa arena de festivais é importante porque já cria uma relação prévia do filme com seu público. Ela permite que já exista uma divulgação. Então essa parte dos festivais é muito rica nesse sentido. E o Loop é um filme que tem a sua produção originada dentro de um festival.

Eu fui pra Gramado passar um outro filme lá, um curta-metragem (S2 - 2015), e conheci a produtora executiva, que viria a atuar no Loop, que é a Angelisa. Lá ela perguntou “Qual o seu próximo projeto?”. Então eu enviei o roteiro, ela enviou para a Globo e aí as coisas começaram a tomar um outro corpo. E tudo isso começou no festival, então acho que é fundamental para a carreira do filme, mas é interessante também por permitir essa troca e a viabilização de novos projetos.

Leiagora - O Júri Popular do Cinemato escolheu Loop como melhor filme na Mostra Competitiva de Longas. O que você tem a dizer sobre essa premiação concedida pelo público de Mato Grosso? 

Bruno Bini - Primeiro eu queria registrar a minha felicidade de estar novamente com um filme no Cinemato. Todas as produções que eu fiz sempre tiveram espaço ali dentro e eu fico muito feliz de retornar a este festival, que é fundamental para a produção audiovisual de Mato Grosso e muito importante para minha história. Eu sou um cara que tem sua trajetória muito alinhada com a do festival. Parte da minha formação se deu através do Cinemato.

Sobre o prêmio do Júri Popular, eu fico muito feliz, porque quando a gente se propõe a fazer um filme a gente quer que ele converse com as pessoas, que ele encontre conexões com o público. Então receber um prêmio desse é ter a certeza de que isso aconteceu, de que o Loop encontrou um espaço dentro do público, encontrou um espaço no coração, na mente das pessoas, e elas se identificaram com a história. Como o meu objetivo principal é fazer filmes que dialoguem com o público, esse prêmio é muito especial pra mim. Estou muito grato a todo mundo que votou e espero continuar produzindo filmes que consigam encontrar essa conexão com o público.


Leiagora Sobre o lançamento comercial, o filme acabou de chegar aos cinemas, mas ainda num contexto de pandemia. Qual é a sua expectativa?
 

Bruno Bini - É um lançamento muito diferente do que a gente planejava fazer em 2019. A gente tem falado que é um lançamento pandêmico, que tem uma distribuição bem limitada para os cinemas, mas que vai ter um foco maior, uma distribuição um pouco mais ampla nas plataformas de streaming, depois na TV por assinatura e depois TV aberta. É uma adaptação a esse momento que estamos vivendo.

Numa conversa entre os produtores e as distribuidoras, a gente sentiu a necessidade de ser realista e reconhecer as limitações que o momento está trazendo. E também há um incômodo em convidar as pessoas para sair de casa e ir até um lugar onde possa ter uma aglomeração, isso é uma coisa que a gente teria uma certa dificuldade para fazer.

Então eu tenho dito que a gente quer que as pessoas vejam o filme, mas que vejam com segurança. E se essa segurança vai se dar no conforto das suas casas, então é por aí que a gente vai afunilar o esforço de distribuição. Vamos nos esforçar para fazer ele chegar ao maior número de pessoas no streaming.


Leiagora Então não tem expectativa dele chegar aos cinemas comerciais de Cuiabá?

Bruno Bini - Essa é uma resposta que eu não tenho… Assim, pode ser que aconteça, mas depende muito da demanda. Vamos supor que daqui a algumas semanas ele encerre a carreira lá em São Paulo, então a gente poderia, de repente, botar numa sala aqui, mas é uma questão de demanda.

Se houver uma busca do público pelo filme, e é óbvio que a gente torce por isso, talvez a gente consiga formatar uma maneira de exibir ele em sala de cinema aqui, mas tentando garantir, obviamente, a segurança de todos. Eu acho que eu vou ter uma conversa com a distribuidora para ver o que a gente pode fazer.

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