Cuiabá, sábado, 24/02/2024
23:02:35
informe o texto

Notícias / Entrevista da Semana

13/08/2023 às 08:00

ENTREVISTA DA SEMANA

Especial Dia dos Pais: Yann e os filhos mostram que o amor vai além dos laços sanguíneos

Yann falou sobre o processo de adoção, a vivência com os garotos e deu dicas para quem deseja fazer este ato de amor

Paulo Henrique Fanaia

Especial Dia dos Pais: Yann e os filhos mostram que o amor vai além dos laços sanguíneos

Foto: Arte Leiagora/Arquivo pessoal

Aos 36 anos, o cuiabano Yann Dieggo já tinha uma vida boa. Porém, sempre sentiu que ainda faltava algo. Foi quando surgiu a vontade de ser pai. De imediato, o advogado e professor de Direito da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat) foi até o Fórum e iniciou o processo de adoção, que mudaria sua vida. 

Por ser um homem solteiro e membro da comunidade LGBTQIA+, o  procurador do município de Campinápolis, que sempre militou nas causas humanitárias, pensou que iria encontrar empecilhos durante o processo, mas foi surpreendido de forma incrível ao conhecer os personagens que o ajudariam pelos próximos três até, enfim, conhecer a felicidade plena.
 
Foi em Betim, no interior de Minas Gerais, que Yann encontrou
em 2021 os pequenos Kauã Hector, de 11 anos, e Kaio Lucas de 8. Hoje, o trio inseparável forma uma família cheia de amor e carinho, que vence todos os dias os percalços do dia a dia.
 
Neste Dia dos Pais, Yann tirou um tempinho da sua agitada rotina de advogado criminalista, procurador, professor universitário e pai de dois para conversar com o Leiagora e contar um pouco sobre a história de amor com os filhos. Em uma conversa descontraída, Yann falou sobre o processo de adoção, a sua vivência com os garotos e, claro, deu dicas para quem deseja seguir este ato de amor que é adotar.
 
Confira a entrevista na íntegra:
 
Leiagora - Você sempre teve o sonho de ser pai?
 
Yann Dieggo - Sim, eu sempre tive vontade. As pessoas me fazem essa pergunta como se fosse um sonho e eu sempre pontuo que é uma vontade. Só que é uma vontade que não tem volta. A partir do momento que você leva adiante, não tem um caminho que você pode falar: “eu não quero mais”, porque na hora que você passa pelo processo você não tem como negar a criança, não querer a criança. Depois que você tem interesse e começa a passar pelas entrevistas, pelos direcionamentos das crianças, não tem como voltar atrás. Não é uma roupa que você adquire e enjoa, não tem como fazer um juízo de valores: “Ai, eu não gostei por causa disso ou daquilo”. Então foi uma vontade que eu levei adiante e segui até o final.
 
LeiagoraE essa vontade surgiu quando?
 
Yann Dieggo - Na verdade a gente vai envelhecendo e você vai sentindo a necessidade de experimentar, ter novas experiências. Mas assim, não foi nenhuma questão de pressão, nem minha, nem social, para ter filhos. Mas foi de uma questão de experiência mesmo.
 
Leiagora - Quando começou o processo de adoção?
 
Yann Dieggo - Eu achei inicialmente que a gente fazia o cadastro e depois ia nos orfanatos, via as crianças e aí começava a negociação. Depois que eu fiz a habilitação eu vi que era totalmente diferente. Depois da habilitação no fórum, você vai para um cadastro nacional e lá o sistema joga você para o perfil que você preencheu. Então, para mim, foi muito rápido porque eu escolhi crianças que quase ninguém quer que é a faixa etária de 5 a 11 ano. Eu não restringi Mato Grosso, coloquei o Brasil inteiro. Eu só fiz a restrição de idade e saúde porque como eu sou sozinho e não dava para adotar crianças com algum problema de saúde, porque já ia depender mais do que uma criança já depende.
 
Leiagora - Você começou o processo de adoção em que ano?
 
Yann Dieggo – Foi em 2018. Foram quase uns três anos de processo. O que demorou na verdade não foi o processo em si no fórum para saber se eu podia ou não ir para o CNA que é o Cadastro Nacional, isso durou lá tipo um ano. O que demorou foi que estavam tendo um problema de me inserir no CNA. Mas  não atribuo 
isso ao fórum, foi um problema do sistema mesmo. Aí acabou que o fórum teve que fazer isso manual. Mas depois que me inscreveram no CNA imediatamente já me ligaram por causa dos perfis das crianças que eu selecionei.
 
Leiagora - Por ser um homem jovem, solteiro e membro da comunidade LGBTQIA+ você sentiu algum tipo de preconceito durante o processo de adoção?
 
Yann Dieggo - Não senti nenhum. Quando eu fui na primeira entrevista virtual, por causa da pandemia, eu expliquei isso, falei da minha condição, porque eu não sabia se estava no relatório do CNA, se chegaram a comentar para o pessoal da Casa Lar. Claro que não tinha essa informação, mas que também não tinha nenhum problema. Até quando eu fui buscar as crianças eu perguntei se eles tinham comentado, se eu deveria falar. Aí me falaram uma coisa até interessante: “Yann, esse é um tipo de informação que para eles é igual você chegar e perguntar se o céu é azul. Não faz diferença”. Então eu não senti nenhuma dificuldade em razão da sexualidade, muito menos em razão de ser solteiro.

Muita gente pensa: “Mas como você conseguiu se é solteiro?”. Não tem nenhuma dificuldade porque na hora que você vai fazer o processo de habilitação, a assistente social e o psicólogo vão na sua casa para estudar a sua realidade, ver a ambientação, entrevistar, te explicam o que vai mudar e você só tem que ir atrás de uma rede de apoio, seja babá, seja família.
 
Leiagora - Como foi para eles o processo de adaptação?
 
Yann Dieggo - Eu tive alguns problemas com adaptação, principalmente no fato de trabalhar em dois lugares. Eu optei pelo domicílio deles ser em Barra do Garças porque tem mais estrutura, escola. Descobri depois que o mais novo tem TDAH. Então, tem um reforço, psicólogo, esses acompanhamentos. Quando eu ia para Campinápolis aí eles meio que desobedeciam a babá. Às vezes não queriam ir pra aula, o mais velho não queria comer, fazia algumas rebeldias tentando chamar atenção porque eu não estava ali. Então eu tive algumas dificuldades nessa adaptação, mas eles sempre me respeitaram. O pessoal da Casa Lar sempre me falava: “são dois anos pra adaptar”, mas aí como eu tenho ansiedade eu fico querendo já consertar tudo e o nosso tempo não é o mesmo deles. Mas eles já estão bem pertencidos. Essa é a palavra que eles usam muito quando se trata de adoção: “pertencimento”. Os problemas que eu tenho hoje são mais na questão da idade, adolescência, são coisinhas pequenas.
 
Leiagora - Sobre a questão da sua sexualidade, você já sentiu que eles sofreram algum tipo de preconceito na escola, com os coleguinhas ou algo assim?
 
Yann Dieggo - Nunca me relataram. Eu sempre tratei esse assunto de forma muito natural, eu nunca sentei com eles pra explicar o que é, mas sempre tentei introduzir esses assuntos de forma natural. Quando às vezes chamam com algum coleguinha de “viado” eu chamava atenção falando que “viado” não é xingamento. O meu namorado por exemplo, quando ele está vindo eu falo: “meu namorado está vindo”. Eu não fico de muita explicação do óbvio. Com os coleguinhas deles também quando vão lá em casa eu nunca cheguei a falar, mas eles sabem. Eu trato muito bem os amigos, os pais, eu mando mensagem pros pais autorizando a dormir lá em casa ou se os meus podem dormir lá na casa deles. Então eu nunca vi nenhum problema com relação a isso. O mais velho, por exemplo, na rua ele já contou que foi adotado, eu mesmo não contei. Ele não tem vergonha disso. Na hora que os amigos perguntam: “quem é aquele ali?”, “É meu pai”. Mas eles não me chamam de pai ainda.
 
Leiagora - O que era a sua vida antes e o que é a sua vida hoje depois da chegada dos meninos?
 
Yann Dieggo - Eu sinto que eu tinha muitas responsabilidades profissionais e hoje eu tenho também responsabilidades afetivas, um vínculo maior. Ter que voltar para casa porque eu tenho a quem proteger e quem cuidar. Muda um pouco a sua percepção de mundo, você começa a entender um pouco mais sobre como você foi como filho e também entender como você deve também criá-los. Não necessariamente projetar o que foi com você. Tem também que entender que eles estão num processo novo, assimcomo é pra mim é para eles.
 
Leiagora - Você quer mandar algum recado para os pais neste dia?

Yann Dieggo - O recado que eu daria é para quem tem dúvida sobre adotar:  que também olhe para as crianças que já estão em idades maiores. A dificuldade da adaptação ela vai ter, mas isso não impede o sucesso da adoção no sentido de que essa preferência por recém-nascidos, ela é mero capricho quando existem crianças dispostas a serem adotadas. A transformação é a mesma do que essa busca apenas por bebês. Essas preferências e essas discriminações aleatórias acabam impedindo crianças de fazerem parte de uma família e de serem felizes.
Clique aqui, entre na comunidade de WhatsApp do Leiagora e receba notícias em tempo real.

Siga-nos no Twitter e acompanhe as notícias em primeira mão.


 

1 comentário

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do site. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.

  • Ubiracy Oliveira Souza 13/08/2023 às 00:00

    Sou tio biológico do Yann, tudo que ele disse posso confirmar, pois é com a maior honestidade e sinceridade que ele cuida dessas crianças, inclusive já passaram férias em minha casa e nos demos muito bem, parabéns Yann, continue sendo esse menino de muitas qualidades...

 
Sitevip Internet