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Notícias / Entrevista da Semana

29/10/2023 às 08:00

ENTREVISTA DA SEMANA

Fisiculturista narra sua trajetória, desafios, uso de anabolizante e as adversidades para chegar ao profissional

Hoje, com 46 anos, ele acumula uma série de vitórias, contando com vários títulos nacionais e internacionais

Kamila Arruda

O cuiabano Cristovão Santiago Pinheiro ganhou o seu primeiro título no fisiculturismo com apenas 17 anos, quando participou de um campeonato estadual. E ainda antes de completar a maioridade, garantiu também o primeiro título brasileiro e estava em ascensão em Mato Grosso, onde o esporte ainda era pouco conhecido.
 
Hoje, com 46 anos, ele acumula uma série de vitórias, contando com vários títulos nacionais e internacional. Apesar disso, ele ainda é está na categoria amadora, mas essa realidade, está prestes a mudar. Nos próximos dias Cristovão irá participar de um campeonato que pode levá-lo para a categoria profissional.

Quem pensa que sua trajetória foram apenas troféus e medalhas está muito enganado. Cristovão encontrou muitas pedras no caminho e já pensou em desistir. Ele, inclusive, chegou a cursar medicina, mas a sua paixão mesmo era o esporte e a educação física.
 
Ele contou um pouco de sua história para a reportagem do Leiagora.
 
Leiagora - Como que que você se interessou por esse esporte? De onde surgiu esse desejo de se tornar fisiculturista?
 

Cristovão Eu sempre procurei praticar esporte desde novinho. Quando você é moleque, você joga futebol, mas futebol nunca foi o meu forte. Para se ter uma ideia eu sempre jogava com os meus amigos e familiares, e hoje eles se surpreendem com a minha trajetória, para onde meu caminho seguiu.
 
Eles brincavam e diziam: “ó, pode passar a bola para o Cristóvão aí que a natureza cuida dele”, só para você ter uma ideia do nível que eu era. Ou seja, futebol zero, não sei nada de futebol.

E aí eu comecei, por intermédio de um amigo no judô. Comecei a treinar judô e gostei. Isso com 9 anos. Já com 12 anos eu comecei a fazer a musculação de leve, da forma que eu sabia, com aqueles pesos de cimento em casa mesmo.

Nisso eu comecei a tentar competir no judô, mas eu percebi que eu era bom professor e não bom competidor. Eu não conseguia desenvolver, tanto é que o menino que me levou para o judô, o meu amigo, ele já tinha seis anos de esporte na minha frente, e no final das contas, eu já estava dando aula para ele, porque ele era bom competidor, ele desenvolvia, eu não conseguia.

E aí eu entrei numa academia para ficar forte para o judô. Procurei um primo meu na época que era o professor. Isso eu já com 14 anos. Foi a primeira vez que eu fui para academia e com 6 meses de academia, eu já estava, mais ou menos, com o físico parecido com o do meu primo que me levou.

Comecei a ver os resultados, a musculatura veio porque eu era menino, e fui largando o Judo. De 17 para 18 foi minha primeira competição no fisiculturismo, na qual fui campeão mato-grossense. Isso no ano de 96, apenas dois anos depois de eu ter entrado para a academia. No mesmo ano eu fui para o campeonato brasileiro e fiquei em sexto lugar na categoria Júnior 96.

Já no ano de 97 surgiu uma oportunidade para eu estudar medicina na Bolívia.
 
Leiagora – E como a profissão de educador físico entrou na sua vida?
 
Cristovão - Em 96, quando eu voltei do Campeonato Brasileiro, eu comecei a dar aula. Naquela época, você só precisava ter físico e ter um pouco de conhecimento a respeito de musculação, e isso eu tinha, pois tinha acabado de ganhar o campeonato.

Aí eu trabalhei como professor de musculação até 97, que foi quando eu decidi ir para a Bolívia fazer faculdade de Medicina. Mas mesmo em outro país eu não larguei do esporte, até porque assim que comecei a estudar consegui uma bolsa através do judô. Infelizmente naquela época não tinha esse lance de fisiculturismo.

Eu só consegui a bolsa para o fisiculturismo no ano entrante, porque eu comecei a competir no fisiculturismo por conta própria, e eles viram que o fisiculturismo chamou muito mais do que o judô. Então, em 97 fui campeão estadual e nacional na Bolívia, mesmo estudando.

Continuei competindo nos anos seguintes. Em 98 eu fui campeão estadual novamente e vice-campeão Nacional e subi de categoria. Tanto que em 99 passei para categoria Senior. Mas mesmo subindo o nível eu tinha que continuar disputando os campeonatos municipais, pois precisava manter a bolsa de estudos.
 
Mas daquele ano pra frente as coisas começaram a ficar mais complicadas, porque entrei num ciclo clínico na faculdade, o qual exigia muita dedicação. Por conta disso, dei um tempo das competições, mas continuei indo na academia e dando aulas de judô para manter a bolsa. Mas em 2001, a faculdade virou uma bola de neve e eu acabei voltando para Cuiabá, sem concluir o curso. Parei no 9º semestre.
 
Leiagora – Mesmo não tendo concluído o curso de medicina, você consegue aplicar os ensinamentos na sua profissão e no esporte hoje?

 
Cristovão - Sim, me serviu porque eu aprendi fazer musculação e dieta tudo lá na Bolívia, foi lá que eu aprendi realmente. O pessoal de Educação Física é totalmente limitado. Na Medicina a gente estuda demais e eu sempre me interessava pelos assuntos que eram favoráveis a mim.
 
Leiagora –
Como foi o seu retorno a Cuiabá?

 

Cristovão - Voltei na metade de 2001, fiquei um tempo parado em casa sem ânimo e depois de um tempo comecei a trabalhar como segurança, e a fazer uns bicos de ajudante de pintor. Isso tudo para pagar a condução e continuar indo na academia. E aí aos poucos as coisas foram acontecendo, porque eu tinha um tamanho diferenciado eu ia para academia todo mundo ficava olhando eu treinar, pois a minha forma de treinar era diferente.
 
Com isso, tive a oportunidade de começar a dar aulas na academia. Um professor da academia onde eu treinava me incentivou e me passou três alunos dele, e assim eu comecei na educação física. Naquela época não precisava da faculdade, mas em 2002, teve aquela troca e a gente teve que fazer o curso técnico para não ter que ir para faculdade, fiz, consegui o CREF e estou até hoje.
 
Leiagora – A adaptação para voltar as competições depois de retornar para o Brasil foi mais difícil?
 

Cristovão - Eu retornei em 2001, mas só voltei a competir em 2004 por incentivo da minha irmã mais velha. Tanto é que me preparei apenas um mês para esse campeonato. Fui sem grandes expectativas, porque eu ainda estava começando a limpar o meu físico da gordura, mas como eu tinha um tamanho diferente dos outros competidores que estavam bem preparados, os jurados foram levados pela emoção e eu acabei ganhando, mas não tenho orgulho desse título.

Depois disso, voltei a pegar gosto pelo esporte, conheci algumas pessoas do meio que me incentivaram ainda mais. Com isso, em 2007 parei de trabalhar como segurança e fiquei apenas dando aulas e me preparando fisicamente para as competições.
 
Leiagora – O fisiculturismo exige muita dedicação e privações. Quais as principais dificuldades?

 

Cristovão - Manter a dieta, porque você tem que ter um patrocínio que te ajude a fazer a manutenção, pois comer com qualidade não é barato, e a qualidade na comida faz total diferença. Isso é caro, sem falar nas outras coisas como ergogênico, e demais produtos de qualidade que custam caro.
 
Leiagora – Como funciona a sua rotina?
 

Cristovão - Eu já coloquei na minha cabeça: faça o que dá para você fazer. Não dá para fazer loucuras. O meu sustento vem das minhas aulas, não vem do esporte, até porque ainda sou amador, não tenho patrocínio.

O que eu faço é deixar alguns horários livres, sem alunos, até porque eu nem tenho vaga para novos alunos.
 
Leiagora - Você acumula uma série de títulos e medalhas, inclusive internacionais durante a sua carreira, e mesmo assim você não conseguiu se tornar profissional?
 

Cristovão - Para você se profissionalizar era uma escada muito puxada, o que hoje já não é tanto. Se você tiver bem preparado, dependendo do campeonato que você entrar, você ganha o direito ao “Procard”. Em 2011 eu poderia ter me profissionalizado, mas não me deram o Procard, mesmo eu vencendo o Campeonato Brasileiro Overall e o Sul-Americano,

Leiagora – Você disse que não conta com patrocínio porque ainda é um atleta amador. Então como é bancada essas competições fora do Estado e até mesmo fora do país?
 

Cristovão - Geralmente eu tenho ajuda, mas não tem uma pessoa específica, são os meus alunos que se juntam e abraçam a causa. Não é Patrocínio.
 
Eu já tive um patrocínio bom, que foi a Probiótica e Atlética. Fiquei dois quase dois anos com o ultimo, mesmo eu fora das competições, porque quando ganhei esse patrocínio eu não estava competindo, apenas me mantendo.
 
Eu fiquei sem competir por mais de dois anos porque me fizeram passar pelo doping em 2014. Você já viu o doping no fisiculturismo? Tem noção do que é fazer doping num fisiculturista? Obvio que eu cai, fui punido e fiquei dois anos e meio fora das competições, mas não parei de treinar.
 
Aí no final de 2015 eu tive alguns problemas pessoais que me levou para outra vertente da minha vida que é Cultura Racional. Depois de conhecer a Cultura Racional eu comecei a ter uma outra visão a respeito da vida. Com isso, do final de 2015 para frente eu comecei a desacelerar o lance de fisiculturismo.

Eu sempre busquei dentro da Cultura Racional algo que me falasse: você vai largar o fisiculturismo ou você vai continuar no fisiculturismo. E quando eu perguntei, a resposta veio de forma muito clara. Em 2021 eu entendi que realmente era para eu voltar para fazer a propaganda da Cultura Racional de forma diferente.
 
Nisso eu fiquei oito anos sem competir, voltei deixei meu físico relaxar, mas retornei e há um ano eu dei continuidade no trabalho mais afinco.
 
Leiagora – A sua preparação conta com acompanhamento médico?
 

Cristovão - Sim, sim, você tem que ter.
 
Leiagora – Você contou sobre a questão do doping. O uso de anabolizantes ainda é tabu. Com isso é lidado no fisiculturismo?


Cristovão - Primeiro de tudo é você procurar uma pessoa, fazer um acompanhamento correto com uma pessoa que tenha referências, que tenha senso da realidade e da fantasia, da ilusão para o real mesmo, porque usar anabolizantes é você ficar zoando da sua matéria.
 
Eu não incentivo ninguém a entrar para o fisiculturismo justamente por isso. Aqueles que querem entrar tem que ter consciência do que está fazendo, e não entrar apenas por influência, porque é diferente dessas pessoas que entram na academia e querem usar a bomba para ficar com corpinho bonito.
 
Leiagora – Você mesmo deixou claro que é impossível desassociar o fisiculturismo dos anabolizantes. Então, quais os efeitos colaterais?
 

Cristovão - Os efeitos colaterais são muito individuais e relativo. Vai desde baixa de libido a queda de cabelo, e dependendo do que a pessoa está fazendo uso, pode até chegar ao desenvolvimento de um câncer.
 
Mas hoje em dia essa questão está mudando, porque há diversos médicos do esporte. Aqui em Cuiabá mesmo tem o Murilo de Paula, que além de médico do esporte também é fisiculturista. Apesar de ainda ser difícil de controlar, pois em toda esquina tem, na internet você acha.
 
Leiagora – Quais seus planos agora?

 

Cristovão - Eu competi ano passado pela primeira vez após ficar oito anos parado. O meu plano era ter conseguido procard esse ano passado, mas era muita pretensão minha porque eu tinha acabado de retornar.

Agora, a realidade é outra, o físico é outro e daqui quatro semanas vou para o Master Brasil e posso ganhar o procard.  Espero conquistar esse campeonato, porque ganhando o procard, eu vou ter tempo para respirar, pois passo a poder escolher o campeonato que vou participar.

Não vou dizer que vai ficar bom, até porque o profissional é muito mais difícil, mas pelo menos você pode escolher o campeonato, pode ganhar patrocínio, e eu vou conseguir divulgar a Cultura Racional ainda mais, porque o meu principal objetivo é esse.
 
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