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Notícias / Entrevista da Semana

19/11/2023 às 08:01

ENTREVISTA DA SEMANA

Consciência negra: um convite para refletir sobre enfrentamento ao racismo e política de igualdade

A coordenadora também contou ao Leiagora um pouco sobre o trabalho desenvolvido pelo CNU promovendo discussões das questões étnico-raciais e articulando o desenvolvimento de lideranças negras dentro da comunidade universitária

Eloany Nascimento

Na semana em que se comemora o dia da Consciência Negra, a coordenadora do Coletivo Negro Universitário da Universidade Federal de Mato Grosso (CNU/UFMT), Alice Marqueto, alertou sobre o racismo estrutural e apontou que as pessoas conhecem a história da população negra, mas quando são chamadas para ações políticas e sociais de combate à descriminação, se sentem “desconfortáveis” em lidar com as complexidades e desafios.

Comemorado no dia 20 de novembro, a data homenageia Zumbi dos Palmares, um dos principais representantes da resistência à escravidão no Brasil. Figura está que virou símbolo da luta dos negros.

Segundo a ativista, o mês também é um convite para que possamos refletir e dialogar sobre ações e políticas públicas e privadas para o enfrentamento do racismo e promoção da igualdade de oportunidades.

A coordenadora também contou ao Leiagora um pouco sobre o trabalho desenvolvido pelo CNU promovendo discussões das questões étnico-raciais e articulando o desenvolvimento de lideranças negras dentro da comunidade universitária. Bem como suas experiências e referências.

Leia abaixo, a entrevista completa:

Leiagora - Primeiramente, gostaria que você falasse sobre a importância do Dia da Consciência Negra. É um momento de reflexão?

Alice Marqueto - O Dia da Consciência Negra, que também é Dia Nacional de Zumbi dos Palmares, representa um momento para celebração da cultura afro-brasileira, em suas manifestações artísticas, religiosas e contribuições em diversos campos, mas principalmente marca o reconhecimento das histórias de lutas e conquistas da população negra brasileira.

Por isso, esse dia não é apenas comemorativo, é também um convite para que possamos refletir e dialogar sobre ações e políticas públicas e privadas para o enfrentamento do racismo e para promoção da igualdade de oportunidades, compreendendo as diversas nuances da identidade negra, desde a sua riqueza cultural até os desafios enfrentados cotidianamente.

Leiagora - Como explica a relutância de algumas pessoas em comemorar a data e não refletir sobre a importância da mesma?

Alice Marqueto -
Essa postura de recusa pode ser atribuída a diversos fatores, mas acredito que a mais evidente seja a dificuldade de entenderem o racismo estrutural presente na nossa sociedade. Em muitos casos, essas pessoas conhecem a história da população negra, mas quando são chamadas para ações políticas e sociais de combate ao racismo, se sentem “desconfortáveis” em lidar com as complexidades e desafios que enfrentam a população negra.

Leiagora - O que é o CNU e como ele fomenta a consciência negra no ambiente universitário? 

Alice Marqueto - O Coletivo Negro Universitário (CNU) é um movimento social negro atuante no âmbito da UFMT, que surgiu em junho de 2013, formado por estudantes, docentes e técnicos da universidade. O nosso espaço político se dá por meio de processos educativos, com formações sobre relações étnico-raciais e onde também tratamos de assuntos pertinentes a nossas vivências na UFMT.

Temos conseguido assento permanente em espaços de decisões e viabilização de Ações Afirmativas na UFMT, participamos junto à sociedade de discussões e de ações do Estado, contamos com representação no Conselho de Políticas de Ações Afirmativas da PRAE/UFMT e representação na Coalizão Negra por Direitos. 

Durante esses 10 anos, o CNU se inspira em grandes lideranças de Mato Grosso, contribuindo para o fortalecimento do movimento negro, estimulando a conscientização, o diálogo e a busca por soluções concretas para os desafios enfrentados pela população negra. Assim, estamos em constante construção promovendo discussões profundas das questões étnico-raciais e articulando o desenvolvimento de lideranças negras dentro da comunidade universitária.

Dentre as nossas ações, quero destacar aqui dois de nossos projetos realizados em 2022, o “Na txintxa: descomplicando a escrita acadêmica!” e o “Podcast Leva-e-Traz: (com)fusão e (re)existências na UFMT”, que foram aprovados no edital de apoio financeiro a projetos estudantis de incentivo às políticas de ações afirmativas da Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (PRAE) e em parceria com o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (NEPRE).

Em nossas mídias sociais estão os materiais desses projetos, que podem ser acessados e utilizados como referência sobre o tema, no Youtube e Spotify - Coletivo Negro Universitário UFMT.

Leiagora - Essa nova geração de jovens tem se mostrado bastante engajada em levantar várias bandeiras e defender causas nas redes sociais. Isso tem sido notado no cotidiano presencial também?

Alice Marqueto - Essa geração atual cresceu em um ambiente de acesso mais facilitado à informação, principalmente por meio das redes sociais, e ainda que existam preocupações sobre quem tem acesso e o que se consome nas mídias sociais, penso que as práticas dentro e fora do mundo digital podem variar. 

A produção de conteúdos em uma diversidade de pautas raciais, sociais e políticas, acabam influenciando ao empoderamento e ao engajamento nessas causas tanto de forma virtual quanto presencialmente, pois algumas pessoas gostam de mostrar sua participação em atividades dos movimentos sociais, e por outro lado outras que preferem atuar apenas nas mudanças concretas em suas comunidades, sem se manifestar publicamente.

Em minha experiência, inicialmente me interessei pelo movimento negro acompanhando alguns influenciadores digitais e consequentemente passei me identificar e atuar em Cuiabá. Participei de atividades realizadas pelo CNU antes de ingressar na UFMT e ao longo dos últimos 5 anos conheci algumas das lideranças que passaram pelo Coletivo, a professora Dra. Zizele Ferreira, Claudenilde Lopes, Lupita Amorim, professora. Dra. Candida Soares da Costa que é uma das formadoras científicas do CNU, e assim como outras pessoas que integram esse espaço, são inspiração para a continuidade do nosso movimento.

Leiagora - Além desse ambiente jovem, ainda é comum nos depararmos com pessoas que têm dificuldade para se reconhecerem como negro. Qual a importância desse autorreconhecimento? Isso impacta na elaboração de políticas públicas? O coletivo tem alguma frente de atuação nesse sentido?

Alice Marqueto - Essa é uma realidade enfrentada por muitas pessoas, que não sabem que fomos educadas a internalizar estereótipos negativos e estigmas sobre os padrões estéticos e intelectuais relacionados à identidade negra, pois diariamente ouvimos que não somos pessoas bonitas, inteligentes e afetuosas.

Quando passamos a nos auto reconhecer e nos declarar como pessoa negra é um reflexo das lutas do movimento negro para a valorização da nossa identidade, que nos conecta a nossa cultura e hisória, e certamente impacta na implementação de políticas públicas,  pois uma população que se reconhece como negra é mais propensa a demandar políticas que abordem suas necessidades específicas.

Nesse sentido, o CNU tem atuação nos processos formativos de seus integrantes, criando espaços de diálogo e acolhimento, respeitando a nossa diversidade e potencialidade para construção das nossas ações.

Leiagora - O governo Federal sancionou recentemente mudanças na Lei de Cotas que incluem quilombolas e reduzem renda máxima. Como o coletivo avalia essa alteração?

Alice Marqueto -
No caso da UFMT, o envolvimento da juventude negra e quilombola foi importante e impactou essa política nacional, pois é parte de nossas pautas. Então, podemos considerar que é um avanço muito positivo, sobretudo a inclusão de quilombolas como resultado da luta para que a lei contemple diferentes grupos étnicos afetados pelo racismo estrutural.

O impacto real dessas mudanças vai depender da implementação na prática e das possíveis medidas complementares para a equidade no acesso à educação superior no Brasil, observando que é de suma importância que se continue o acompanhamento dessas mudanças e que se discuta criticamente sobre o desenvolvimento da lei com as instituições federais e a comunidade acadêmica a fim de buscar a efetividade dessa política.
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