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Notícias / Entrevista da Semana

16/05/2021 às 11:00

Kalil passa defender BRT, critica governo Federal por politizar vacinação e fala dos desafios em VG

A cidade de Várzea Grande completou 154 anos e Kalil assumiu com grandes desafios na área da saúde, em meio à pandemia, e na questão do abastecimento de água

Alline Marques

Kalil passa defender BRT, critica governo Federal por politizar vacinação e fala dos desafios em VG

Foto: Assessoria

Várzea Grande completou 154 anos em meio a uma das maiores pandemias. Cidade industrial, como ficou conhecida, vizinha da capital mato-grossense, o município vem ao longo dos últimos anos trabalhando para reconquistar espaço não apenas na questão econômica, mas também na melhoria da qualidade de vida da população. Atualmente, quem está à frente do comando da prefeitura é Kalil Baracat, neto de Sarita Baracat, primeira prefeita mulher de Várzea Grande ainda na década de 60. 

Com raízes e tradições na cidade, Kalil assumiu a prefeitura em 1º de janeiro de 2021 com uma situação financeira confortável, mas com um desafio gigantesco em duas áreas: saúde e abastecimento de água. A pandemia avançou e foi muito mais letal nos primeiros meses deste ano do que em 2020, o que forçou a tomar medidas nada populares como fechar o comércio. 

Diante do desafio de administrar uma cidade com um orçamento de R$ 900 milhões, Kalil já mudou de ideia com relação ao VLT, acredita que o BRT é mais viável sair do papel, e ainda faz duras críticas ao governo Federal que empacou a aquisição de vacinas por parte dos prefeitos e governadores. 

Confira a entrevista completa   

 
Leiagora - Várzea Grande completa 154 anos com desafios que que se arrastam ao longo de décadas, como a questão da água e da falta de saneamento nos bairros. O que o senhor vai fazer para essas duas questões e o que se esperar ao fim de 4 anos de gestão? 

Kalil - Com certeza a questão da água e do esgoto sanitário está em nosso radar, assim como outros problemas, pois os pedidos são dos mais variados possíveis, vão desde asfalto, limpeza urbana, regularização fundiária, saúde, educação, social, emprego, habitações, enfim, pedidos são variados, mas temos compreensão de que alguns desafios são enormes e vamos conseguir ao findar de nosso mandato avançar em todas as áreas, pois, para alguns dos quase 300 mil habitantes, sempre existirá uma necessidade a ser atendida.

A água e o esgoto estão recebendo atenção redobrada de toda a nossa gestão. Tudo que estamos fazendo, recursos investidos, em tudo, tem um pouco de abastecimento de água e esgoto sanitário. Estamos investindo cerca de R$ 74 milhões em obras e melhorias para captar e tratar mais água e captar e tratar mais esgoto sanitário.

Atualmente, Várzea Grande, sem a nova ETA, já produz 800 litros por segundo ou 69 milhões 120 mil litros por dia, o que representa dizer 241 litros de água para cada um dos 287 mil moradores de nossa cidade com os atuais sistemas. Para se ter uma ideia, a OMS aponta para a necessidade de cada ser humano, de 100 até 130 litros por dia, dependendo do clima do país, para o consumo e para garantir saúde para todos.

Com a obra da ETA Grande Cristo Rei, que se encontra em execução e tem recursos próprios assegurados da ordem de R$ 27 milhões, Várzea Grande vai produzir 320 litros por segundo ou 27 milhões 648 mil litros por dia neste ano de 2021. Só que sobre este total existe uma perda de cerca de 60%, por causa de rede velhas, falta de hidrômetros que impedem os gastos desnecessários, os desvios cometidos e isto se torna o grande gargalo do Departamento de Água e Esgoto (DAE), então temos que produzir mais água, com mais qualidade e eficiência para que possamos, por outro lado, combater as perdas e inverter a atual situação que é adversa.

Leiagora - Apesar disso, é muito falado sobre a privatização do DAE. Qual a possibilidade de isso vir ocorrer na sua gestão? 

Kalil - Agora neste momento, nosso propósito é mudar essa realidade e estamos buscando o que existe de mais moderno, eficiente e de resultados para sobrepor as dificuldades da falta de água, por isso, não pensamos e não tratamos da possibilidade de privatizar o sistema de água. É importante que se diga que analisamos a possibilidade de terceirizar alguns serviços ou até mesmo formalizar parcerias com a iniciativa privada para outras políticas ligadas ao saneamento, como o tratamento de resíduos sólidos (lixo), o que pode representar receitas novas para serem investidos no abastecimento de água.

Também estamos investindo de forma pesada na captação, tratamento e devolução do esgoto doméstico para que nossos recursos hídricos sejam renováveis e possam atender as demandas de nossa gente e nossa cidade que cresce e necessita de novos investimentos. 

Por enquanto, não tratamos da possibilidade de privatizar o sistema de água, lembrando que para a OMS para cada R$ 1,00 (hum real) investidos em abastecimento de água e esgoto sanitário são economizados R$ 3,00 (três reais) em saúde já que 93% das doenças e das causas de mortes são decorrentes da falta de água e esgotamento sanitário. 

Leiagora - Tem cinco meses que assumiu como prefeito. O que te surpreendeu até agora com relação aos desafios a ser enfrentado? 

Kalil - A dinâmica dos mesmos. Todos os dias, o Poder Público exige de nós, gestores, que tenhamos redobrada atenção, porque os dias são diferentes um dos outros. Assumimos em janeiro deste ano em uma situação privilegiada em relação às contas municipais, pois a ex-prefeita Lucimar Sacre de Campos foi uma gestora consciente e realista e enfrentou a pandemia, mas a pandemia seguiu provocando mais problemas e fazendo mais vítimas. Aliado a isto, outros problemas demandam de nós soluções criativas, pois a pandemia exige medidas amargas e que afetam diretamente a população, o trabalhador, por colocar em risco empregos, situação econômica, o dia a dia de todos em uma ponta, e, na outra, a vida humana que está acima de qualquer coisa, mas uma depende da outra, então isto promoveu uma série de discursos políticos antagônicos que em nada ajudaram neste momento.

Precisamos todos compreender que a pandemia está aí e pode permanecer durante muito tempo entre nós, então ou aprendemos a conviver com ela, ou mais dificuldades teremos que enfrentar, mais decisões amargas terão que ser adotadas e isto não agrada ninguém, não é fácil, mas se necessário teremos que fechar novamente e impor restrições. Essas dificuldades são novas para qualquer gestor, como eu em primeiro mandato ou com outros mandatos, pois os efeitos se multiplicam e as consequências podem ser difíceis para todos.

Leiagora - Atualmente a polêmica referente à troca do modal de transporte voltou à tona. O senhor já se manifestou favorável ao VLT, mas a prefeitura tem acompanhado os estudos do Estado? Recentemente teve uma audiência, o senhor se convenceu de que o BRT é realmente a melhor escolha? 

Kalil - Tecnicamente não tem como se comparar o VLT com o BRT. O primeiro é mais moderno, mais eficiente, mais econômico e se molda de forma melhor aos padrões de grandes cidades. Mas dificilmente encontraremos entre as cidades mais modernas e eficientes do mundo, apenas um modal de transporte de massa. As metrópoles hoje adotam todos os sistemas, metrô, BRT, VLT, ônibus elétrico, trens, enfim o que se puder fazer para melhorar a vida das pessoas e diminuir custos tanto para os usuários como para as cidades e governos é feito.

Defendi o VLT em minha campanha eleitoral, por compreender que muito dinheiro público já foi investido e o modal de transporte é remunerado pelos usuários e eles merecem um atendimento condizente e eficiente. Agora, não podemos desconhecer que o VLT está com pendências judiciais enormes desde 2014, portanto há sete anos e com imbróglios jurídicos que nos remetem a um raciocínio lógico, de que tão cedo este novelo não se resolverá.

Enquanto isto, me elegi prefeito e tenho que olhar para cidade e para aqueles que dependem dela como os trabalhadores que hoje são atendidos pelo sistema de transporte coletivo que é deficiente, único, mas funciona. Eu não uso o sistema de transporte coletivo de massa, mas desconhecer as reclamações que chegam seria um erro, por isso, diante dos argumentos técnicos apresentados pelo governo Mauro Mendes, aliados à questão econômica que será fundamental para resgatar a economia de Várzea Grande, optei sim pela troca de modal.

O BRT tem reais chances de ficar pronto em dois anos e a um custo de R$ 300 milhões o VLT sem prazo e sem valor para ficar pronto. Este é um argumento irrefutável. 

Várzea Grande paga um alto preço pelas obras paralisadas pelo VLT e não apenas como cidade, mas na sua economia. A Avenida da FEB é como se fosse o pulmão de Várzea Grande e se ela está com dificuldades de respirar todo o resto do corpo padece e isto provocou problemas para milhares de pessoas e famílias, portanto, se tenho como tentar resgatar, ou, no mínimo diminuir essa conta gigantesca que todos os dias são cobradas da população e posso fazê-lo de forma responsável, não vejo por que não assumir que a troca do modal para o BRT se demonstra possível, realista e que atenda aos anseios da população neste momento e no futuro. Mais adiante poderemos ter o VLT, Metrô ou outro sistema, pois Várzea Grande e Cuiabá caminham a passos largos para se tornarem uma metrópole que em 10 anos deverá ter mais de 3 a 5 milhões de pessoas e necessita de medidas que agora promovam um crescimento sustentável e de resultados.

Leiagora - Várzea Grande ganhou fama de cidade industrial, mas foi perdendo este título para outros municípios, principalmente, os ligados ao agro. O que está sendo feito para garantir a vinda de novos investimentos e indústrias para a cidade? 

Kalil - Trabalhamos para resgatar essa posição de destaque econômico e social, pois sempre seremos a segunda maior cidade de Mato Grosso, por causa de nossa posição geográfica e da prestação de serviços. Mas estamos buscando novos investimentos e principalmente parceiros. Na nova concepção do desenvolvimento de Mato Grosso que acontece do Campo através do Agronegócio para as Cidades, precisamos pensar na industrialização para deixarmos de ser produtores e podermos utilizar a indústria de transformação para agregarmos valor a nossa soja, arroz, milho, cana de açúcar, carne animal, enfim uma gama de produtos do agronegócio que está sendo levado para outros Estados e até mesmo países para serem processados e ganharem valor agregado.

Acredito que o Parque Tecnológico que deverá se tornar uma realidade nos próximos meses em Várzea Grande, diante dos esforços do governo do Estado, vá atrair o agronegócio, pois a tendência é de termos ali indústrias de transformação e um polo estudantil de grande importância que agregará o devido valor que estamos esperando para deslanchar o crescimento de Várzea Grande.

Não podemos perder de vista que mesmo diante da crise econômica potencializada pela pandemia da covid-19, Várzea Grande se destaca entre os municípios ligados ao agronegócio, com um saldo positivo há vários meses na geração de emprego e renda, sendo que boa parte destes números decorrem das obras públicas que fomentam o consumo das empresas e indústrias de Várzea Grande.

Recentemente estivemos a convite da Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt) visitando o primeiro Senai de Mato Grosso que fica em Várzea Grande e ali existem pedidos de mais de 200 profissionais que não estão sendo encontrados, por isso o Senai capacita as pessoas para ocuparem essas vagas, então o Poder Público Municipal está se aliando ao setor empresarial para mudar essa realidade, lembrando que ainda vivemos em uma pandemia que limita todo tipo de atuação.  

Leiagora - Não se tem como não falar do desafio da pandemia. Neste início de ano a covid foi muito mais letal. Como Várzea Grande vem lidando com a pandemia e quais foram os investimentos na saúde? 

Kalil - Essa é uma situação atípica, até porque tivemos nestes primeiros meses de 2021, momentos em que a incidência da covid-19 foi maior do que em 2020, mas também existiram momentos em que tivemos menos casos. Como estamos falando de algo desconhecido da ciência e da medicina e que tem afetado todo o planeta, independente de continente ou até mesmo de condição econômica, lembrando que faz diferença para os países mais ricos, só nos resta buscar medidas que se demonstrem mais eficientes e o que se tem de melhor neste momento são as vacinas que querendo ou não, imuniza e reduz a incidência da covid-19.

Temos priorizado os investimentos em Saúde Pública, aberto novos leitos de UTI e de enfermaria com oxigenoterapia, transformamos a UPA Ipase em Centro de Triagem e Testagem e colocamos em prática um planejamento que apresentou resultados mais do que satisfatórios e só não foram maiores porque faltam vacinas, lembrando que já nos colocamos a disposição para comprar as vacinas, mas em uma disputa desnecessária o Governo Federal impede a aquisição de vacinas pelos demais entes federados e limita nossa atuação com decisões erradas e quase sempre conflitantes. Temos com a nossa estrutura própria a capacidade de vacinarmos entre 6 até 10 mil pessoas por dia, mas do que adianta toda está logística se não temos a vacina para oferecer a nossa população. 

Também abrimos em parceria com o Governo do Estado e a Assembleia Legislativa uma nova maternidade para a Rede Cegonha de Várzea Grande para que as mamães tenham seus filhos com a segurança e o atendimento necessário, longe dos riscos de contaminação da covid-19. Anexa ao Hospital São Lucas, a Rede Cegonha de Várzea Grande tem dois centros cirúrgicos, 30 leitos de enfermaria, cinco salas de partos e uma de cesariana e seu funcionamento neste novo espaço permitirá que o Hospital Pronto-Socorro Municipal de Várzea Grande possa abrir novos leitos de UTI e de enfermaria para fazer frente às demais necessidades, principalmente no combate à covid-19.  

Gostaria de deixar aqui o meu agradecimento a todos os servidores da saúde pública de Várzea Grande que são verdadeiros guerreiros que se dedicam de dia e de noite para cuidar da vida dos demais e enfrentar algo desconhecido do mundo. A cada médico, enfermeiro, técnico, agente, enfim a todos o meu sincero obrigado e o reconhecimento pelo valor e caráter de cada um de vocês neste momento. 

Também não poderia deixar de reconhecer parceiros como o Governo do Estado e os deputados estaduais através da Assembleia Legislativa que tem se pautado pela ajudar e apoio incondicional, a Várzea Grande e a sua população, assim como o Centro Universitário Várzea Grande – UNIVAG que empresta muito mais do que servidores e estrutura, empresta na verdade seu lado social em busca do bem comum e de toda uma população de uma grande cidade, um grande Estado e um enorme país.

Leiagora - Sabemos que a solução é a vacina, mas os municípios estão reféns do governo Federal. O que se avançou sobre a possibilidade de uma compra direta de vacina por parte dos prefeitos? Como está a articulação junto ao governo Federal para garantir a vinda das vacinas?

Kalil -
Não avançou. Patinou e não saiu do lugar. Formalizamos pedidos de compras tanto aqui no Brasil como no exterior, mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que é do Governo Federal, impede essa aquisição e transforma uma pandemia em uma guerra política desnecessária. Em Várzea Grande são necessárias mais de 400 mil doses, pois são duas doses por cada habitante com 18 anos ou mais.

Aprovamos uma lei e ingressamos em um Consórcio Nacional de Municípios que não virou nada e isto deixa as pessoas ansiosas e angustiadas por saber que a vacina é a melhor opção que se tem, mas alguns insistem em transformar isto em uma disputa política. 

Leiagora - E não tem como deixar de falar de política. Atualmente o MDB vive uma disputa interna entre dois grupos. O senhor apoia uma possível candidatura de Emanuel Pinheiro ao governo do Estado? Ou defende o apoio ao Mauro? Qual sua avaliação sobre essa briga?

Kalil - Não existe uma briga partidária e sim pontos de vista antagônicos entre dois gestores, o governador Mauro Mendes e o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro. Sempre fui do MDB e disputei uma vaga para à Assembleia Legislativa em 2018 na chapa encabeçada pelo atual governador Mauro Mendes do DEM, partido que me apoiou ano passado e indicou meu vice, José Hazama, que também foi vice da prefeita Lucimar Sacre de Campos e juntamente com o senador Jayme Campos avalizou nossa candidatura e nos empresta apoio incondicional visando o bem-estar de Várzea Grande e sua gente.

Acredito que as diferenças entre o governador e o prefeito de Cuiabá têm que ser vencidas pelo bem de Mato Grosso e de sua gente, independente de quem seja candidato ou não. Sou a favor de Mato Grosso, de Várzea Grande e da população. Fiz um compromisso em trabalhar e zelar pelo bem comum de toda população de Várzea Grande e assim atuarei sem divergir desta meta nenhum centímetro.

Acredito que tanto o governador Mauro Mendes como o prefeito Emanuel Pinheiro têm seus motivos, mas também foram eleitos pregando o bem-estar e a satisfação de todos, logo acredito que cada um deva seguir suas convicções desde que isto não prejudique a população e suas próprias gestões.

Pertenço ao MDB e vou seguir sempre o que ficar decidido pela maioria, pois a maioria sempre vence qualquer disputa, mas tenho minhas convicções pessoais e políticas e vou defender minhas teses com argumentos que precisam convencer outros para se tornar opção da maioria. Assim se faz democracia.

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