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Notícias / Entrevista da Semana

06/06/2021 às 11:00

Especialista analisa conservação e preservação do Meio Ambiente em MT

"O aprimoramento das tecnologias de detecção se faz muito necessário", destaca Hugo José Scheuer Werle, professor das disciplinas de planejamento ambiental e geomorfologia da UFMT

Luzia Araújo

Especialista analisa conservação e preservação do Meio Ambiente em MT

Foto: Leiagora

Mato Grosso é uns estados brasileiros mais ricos em belezas naturais, que atrai turistas e pesquisadores que se encantam com a flora e fauna do Pantanal mato-grossense, do Cerrado e da Floresta Amazônica. Porém, paralelo à exuberância dos três biomas, o Estado também enfrenta muitos crimes ambientais, ficando entre os campeões em desmatamento florestal e queimadas.

Em 2020, por exemplo, Mato Grosso viveu uma das maiores tragédias ambientais da história, um incêndio que destruiu parte do Pantanal. Agora, o Estado se aproxima de mais um período de estiagem e o governo estadual promete tolerância zero para quem insistir em descumprir as leis ambientais. Além disso, vai investir R$ 73 milhões na aquisição de helicóptero, capacitação de profissionais, contratação de brigadistas e uso da tecnologia combater os incêndios florestais, na tentativa de evitar novas tragédias.

Nesse sábado (5), foi celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente, que teve origem em Estocolmo, em 1972, onde aconteceu a Primeira Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente Humano. Nesta data, os olhos do mundo se voltaram para o que vem sendo feito para preservação e conservação do meio ambiente, mas será que temos o que comemorar neste dia?

Para fazer uma análise do Meio Ambiente no Estado e de como o assunto vem sendo tratado pela população e órgãos competentes, o Leiagora conversou com Hugo José Scheuer Werle, professor das disciplinas de planejamento ambiental e geomorfologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Ele também trabalhou na elaboração do Plano da Bacia do Alto Paraguai e do Plano de Zoneamento Socioeconômico Ecológico, discutido na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, e atualmente é membro da Comissão Estadual de Zoneamento Socioeconômico Ecológico.   

Leiagora - 49 anos depois da criação da data pela ONU e diante da sua análise da atual situação ambiental do Brasil, há o que se comemorar ou lamentar quando o assunto é a preservação do meio ambiente?

Professor Hugo – A questão ambiental é muito ampla. Estamos acostumados a apenas nos preocuparmos com aqueles problemas mais chamativos. Eu brinco com os alunos que a ameaça da extensão da baleia azul, em termos de notícia, é muito mais valiosa do que os problemas dos resíduos sólidos nas cidades.

A questão ambiental perpassa muitos espaços, muitos ambientes e a discussão sobre a Floresta Amazônica sempre surge e se destaca no cenário, mas esta não é a única questão. O problema dos resíduos sólidos urbanos é muito grave e nos atinge diretamente, porque nos trazem consequências muito grandes.

Vejo a questão do garimpo ilegal como uns dos grandes problemas que afetam o nosso meio ambiente, principalmente no estado de Mato Grosso. Além disso, temos a diminuição do volume da água nas baías, como Chacororé e Sinhá Mariana. Agora, de fato, na questão do desmatamento não há muito o que se comemorar, porque acompanhamos semanalmente operações policiais combatendo os ilícitos nestas aéreas.

O aprimoramento das tecnologias de detecção se faz muito necessário. O interessante, se possível, é detectar imediatamente que está havendo um desmatamento irregular. Normalmente, só se descobre quando toda a floresta ou aquela área que estava prevista para ser desmatada já está no chão. Então, não temos tanto o que se comemorar no Dia Mundial do Meio Ambiente, acho que estamos dando pouca relevância a esta questão ambiental. 

Leiagora - Nesta semana, o Governo de Mato Grosso lançou a Operação Amazônia - combate ao desmatamento ilegal, incêndios florestais, e outros crimes ambientais. Na ocasião, o governador Mauro Mendes disse que o Estado irá fiscalizar e aplicar a lei para quem insiste em descumpri-la. Na sua opinião, esta é a forma correta de se combater os crimes ambientais e o que de fato pode ser feito para reduzir o desmatamento ilegal?

Professor Hugo – Na fala anterior me referi ao fato de ser detectado muito tardiamente quando há o desmatamento e quando o governador fala desta operação, na verdade, estamos falando de uma operação na qual a floresta já caiu. Aí entramos em um grave problema que é a não punição. Não está havendo uma punição ou interdição adequada das áreas que são desmatadas ilegalmente e irregularmente. Existem escritórios de advocacia que são especializados em postergar e procrastinar as punições e isto é uma fonte de renda para muita gente, mas para o Estado, se torna um problemão. Há levantamentos feitos que mostram que o Ibama e os órgãos estaduais recebem apenas de 2,5 a 3,5% de todos os autos de infrações que foram aplicados. Então, de nada adianta se montar uma mega operação, gastar milhões com isto, autuar o sujeito, se o crime talvez pudesse ter sido evitado, se tivéssemos um acompanhamento mais rápido dos lugares onde estariam sendo desmatado.


Leiagora O Governo do Estado anunciou que Mato Grosso manteve a média de redução de cerca de 30% de alertas de desmatamento, nos últimos oito meses. Qual a sua avaliação sobre este resultado?

Professor Hugo – Na verdade temos que prestar atenção. Ele fala nos últimos oito meses não é bem uma época em que se desmata, este é um período de chuvas. Então, não fica difícil manter estes valores. Quero ver agora, no período da seca, quando a folha caí e o fogo começa, para dizer que eles terão este mesmo desempenho. 


Leiagora No ano passado, o mundo acompanhou o incêndio florestal de grandes proporções que destruiu boa parte do Pantanal Mato-grossense. Quais foram os impactos deixados por esta tragédia ambiental e quanto tempo deve levar para recuperar ecossistema? 

Professor Hugo – Presumo que alguns ecossistemas vão levar 10 anos para se recuperar plenamente. Talvez, alguns se recuperem em três, quatro anos, mas outros vão levar 10 anos, o que demostra o enorme prejuízo que a natureza teve. Agora, já ficou provado que os incêndios foram criminosos, ou seja, eles foram provocados justamente para que houvesse a queima de maneira irregular, por aí podemos observar que estamos com um problema sério de falta de consciência da população. Acho que isto, hoje em dia, se deve muito a gestão federal. O presidente da república e o ministro do meio ambiente nunca se preocuparam em de fato defender a causa ambiental. Diminuíram as equipes de fiscalização, diminuíram os recursos dos órgãos ambientais, como por exemplo, ICMBio e Ibama e isto tem reflexo que se faz sentir no campo e na floresta. 


Leiagora Há muitas críticas ao atual governo federal quando o assunto é a pauta ambientalista, qual sua opinião respeito e qual será o efeito dessa política na questão ambiental?

Professor Hugo – Ela tem feito em nível de floresta e tem feito em nível internacional. Internacional, é o nosso isolamento na questão de definição de políticas internacionais quanto à preservação e conservação da natureza. O Brasil tinha um papel muito importante nos últimos 20, 30 anos, até por conta da organização da Rio 92 e também dos protocolos e compromissos assumidos ao longo destes últimos 30 anos, porém este tipo de política que foi instituído fez com que uma houvesse uma desconfiança por parte dos países que tem interesse na preservação ambiental.

Em nível de campo, nem precisa falar, porque os indicadores de desmatamento demonstram de que houve um avanço em relação anos anteriores e isto nada mais é do que o reflexo desta desastrosa política ambiental que o Governo Bolsonaro está implementando. Isto não é só na floresta, isto é em relação a garimpo, conservação de áreas úmidas, preservação dos animais, mas chama muito atenção em relação à liberação de agrotóxicos, que é um problema muito sério.

Os agrotóxicos aplicados nas lavouras são posteriormente lavados e levados para os rios. Eles afetam diretamente a cadeia da vida nos rios e ao afetar esta cadeia, afeta a vida dos ribeirinhos, indígenas, que possuem de uma necessidade muito grande de se aproveitar dos recursos dos  rios apresentam, quando conservados. 


Leiagora Paraíso turístico e terceira maior baía do Pantanal, a Baia de Chacororé perdeu mais da metade de sua área no ano passado. Uma das principais causas para isto foi seca. Existe a previsão de um período de estiagem ainda mais duro este ano e se fala até em risco de apagão, devido ao possível baixo volume de água nas usinas hidrelétricas do país. Este fenômeno está ligado à ação humana ou aos efeitos ambientais? É possível mudar esta realidade?

Professor Hugo
– Acho que esta questão da diminuição da pluviosidade, ela faz parte dos ciclos da natureza. Se olharmos, as normas climatológicas, vamos perceber que muitas e muitas vezes tivemos períodos de mais chuvas e períodos de menos chuvas. Estamos em um momento do ciclo, que temos menos chuvas. Então, isto é plenamente compreensivo e certamente vai afetar o Pantanal Mato-Grossensse.

Todavia, temos que ter claro que obras humanas fizeram com que houvesse uma diminuição de água nestas baías e ficou provado que muitos lugares havia o represamento da água que viria do rio Cuiabá em direção a estas baías. Então, sim há uma ação antrópica forte. O que eu acho é que há uma omissão por parte do Governo do Estado, que atua muito mais no discurso no aspecto das baías, do que na prática.

Só depois que foi feita a denúncia que a Secretaria do Meio Ambiente e a Secretaria de Infraestrutura se deslocaram para lá para quebrar alguns diques, arrancar algumas barreiras que tinham sido colocadas. Depois de serem rompidos, a água do Cuiabá escoou livremente para a baía e também vi também se formando uma lamina d’água consistente. Creio que o Governo do Estado deveria criar um projeto especial para revitalização destas baías, porque recurso ele tem disponível ou será que só tem recurso para construção de rodovia e pontes?  


Leiagora Como está a conscientização ambiental da população e o que ela pode fazer para colaborar para o meio ambiente? Qual o meio ambiente você deseja ver no futuro?

Professor Hugo – A conscientização ambiental é muito baixa. De uma maneira geral não há uma conscientização quanto aos aspectos ambientais, somente quando a mídia chama atenção temos alguma reação, mas no dia-a-dia, quando nos referimos à questão dos resíduos sólidos urbanos, quando nos referimos ao excesso de barulho, aos ruídos fora do horário, as queimadas urbanas que são um grande problema para Cuiabá e diversas outras cidades de Mato Grosso, fica evidente que não temos uma conscientização plena dos problemas.

Eu desejo um meio ambiente que tenhamos o mínimo de desmatamento, porque já temos terras suficiente para serem cultivadas, que tenhamos a manutenção das baías de Chacororé, Sinha Mariana e tantas outras baías do Pantanal com o volume adequado de água, que temos uma coleta e um tratamento adequado dos resíduos sólidos.

Aqui me refiro a coleta seletiva feita pelo próprio órgão municipal, não por ONGs, que até entendo que estão ocupando um lugar heroicamente e estão fazendo uma trabalho positivo em vários aspectos, mas este trabalho é de competência do poder público e se depois se ele quiser delegar, não há problema nenhum, mas não temos nenhum sistema público organizado na coleta seletiva.

Também desejo que nossos garimpos clandestinos possam ser combatidos de maneira rápida e eficaz, que não tenhamos mais esta exploração sem a recomposição da natureza destes garimpos e desejo que se use menos agrotóxicos nos alimentos até porque eles vão chegar as nossas mesas todos contaminados por agrotóxicos. 

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