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Notícias / Entrevista da Semana

25/06/2023 às 08:00

Baixa umidade do ar e a saúde de crianças: como problema afeta o organismo e dicas para amenizá-lo

Pneumologista pediátrico e professor da UFMT fala sobre ar-condicionado, o mito das vitaminas e a maior sensibilidade do sistema respiratório no período

Luíza Vieira

A chegada do inverno não melhora em nada - na verdade piora - a questão da baixa umidade relativa do ar em Cuiabá. E com índices que ficam abaixo dos 20%, como os registrados nessa última semana, problemas respiratórios que já atrapalham a rotina, como crises de rinite, sinusite, bronquites, tendem a ser ainda mais avassaladores, principalmente para as crianças. O combo 'carga genética, mucosas sensíveis em virtude da falta de lubrificação ideal devido à baixa umidade e a falta de anticorpos' pode acarretar vários episódios de crises respiratórias nos pequenos. 

E dá pra ficar sem ar-condicionado em Cuiabá? Pois é. O aparelho deixa o ambiente ainda mais seco, por isso quando utilizar, agregue técnicas que possam manter também os espaços mais úmidos, a boa e velha toalha molhada continua sendo a melhor alternativa.

Confira agora a entrevista completa com pneumologista pediátrico e professor do departamento de pediatria da Universidade federal de Mato Grosso (UFMT) Arlan de Azevedo Ferreira que explica como a baixa umidade afeta o organismo, em específico o das crianças, quando levar ao pronto-atendimento e, claro, evitar práticas que pioram o quadro, como as queimadas. 

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Leiagora - Como o organismo reage com essa baixa umidade do ar que a população vem enfrentando em Cuiabá?

A baixa umidade relativa do ar é associada a essa oscilação, essa amplitude térmica muito grande que está tendo, que a gente vê temperaturas baixas durante a noite, esse calor bem acentuado durante o dia. Isso faz com que o organismo tenha aqui todos os mecanismos de proteção, de manutenção, de uma temperatura interna constante. Então você tem uma demanda de energia que é maior do que você tem em situação melhores de clima. Então, todo o nosso sistema de defesa funciona, o nosso organismo.

A temperatura média do corpo é 36,5 graus Celsius. Se você for no ar condicionado, que a temperatura é mais baixa, para que o ar chegue até os pulmões de forma adequada, ela tem que sofrer todo o aquecimento da via respiratória. Para que chegue lá nos alvéolos, que é onde o oxigênio vai passar para dentro do sangue, do pulmão. A partir daí, ele tem que entrar já com a temperatura corpórea normal. Então você tem todo o mecanismo de aquecimento do ar, no caso do ar condicionado.

No calor é o inverso. Se você tem uma temperatura que é muito elevada externa, ele também tem que fazer essa adequação para que chegue sempre no tom dos 36,5 graus Celsius, que é a média da temperatura do corpo.

Então nisso tudo você tem uma demanda de energia. O organismo tem que estar bem assim, equilibrado toda essa troca, né? Do ar que chega nos pulmões, do oxigênio que passa pra dentro do sangue. Através dos alvéolos, você tem uma condição bem adequada, uma condição também de chegar bem nesse equilíbrio, né? Bom, quando você tem oscilação térmica, a demanda é maior pra isso.

E além do mais, a gente tem a umidade do ar que nós respiramos, ela tem uma melhor dissipação dentro dos alvéolos. Ali, para você fazer essa essa passagem do oxigênio que está no ar para dentro do sangue também tem as condições adequadas. A umidade é bem superior a essa que nós vivemos nesse período do ano.

Tem mais um terceiro fator, que a gente sabe que vivencia nesse momento, que é a questão das queimadas, que já começa a aparecer. Então você tem mais um fator de irritação da via respiratória que é devido à fumaça. Todos aqueles poluentes que existem na fumaça e que também já demandam maior agilidade dos mecanismos de proteção das vias respiratórias.

E tem um quarto problema, que esse é o principal que eu vejo nesse momento, é a presença dessa quantidade muito grande de vírus respiratórios, e além das arboviroses que é a dengue e zika.

Então nós temos os vírus respiratórios, adenovírus, que estão circulando entre as crianças, também entre os adultos, a gente vê os idosos também que estão padecendo, dessas infecções respiratórias.

E aí então esses quatro agentes atuando simultaneamente tornam o período do ano um período difícil principalmente para aqueles que já tem uma alguma alteração respiratória de base, os alérgicos que tem bronquite, e os fumantes. São vários fatores que fazem com que doenças apareçam ou se tornem mais exacerbadas nessa época.

Leiagora - Como esses efeitos prejudicam especificamente as crianças? Qual é essa variação entre o adulto e a criança? 

Na criança, o que acontece é que quando tem por exemplo, nos familiares, pessoas que têm pai, mãe, avós, tios, que têm por exemplo, alergia, bronquite, asma, o que acontece é que essas crianças têm uma carga genética que tem a via respiratória mais sensível do que aquelas crianças que não têm histórico familiar de alergias, entendeu? Então, o que acontece? Com esses vírus eles estimulam, eles agridem a traqueia, os brônquios, a laringe, o nariz, os seios da face. Então esses vírus funcionam como umas formiguinhas que invadem toda a via respiratória e ficam estimulando, ficam inflamando a mucosa respiratória.

Então todas as crianças quando pegam o vírus respiratório, elas tossem, elas ‘catarram’ e tem um pouquinho de chiadinho no peito. Aquelas crianças que vêm de famílias que têm alérgicos, os pais têm rinite, bronquite, asma, essas crianças têm uma intensidade de sintomas que é maior que aquelas outras crianças que não têm esse transtorno.

Então é uma coisa que a gente vê nos consultórios, nos pronto atendimentos, nas Upas, que estão todas lotadas com crianças que quando pegam esses vírus respiratórios, como metapneumovírus, adenovírus, influenza A e B, quando pega esses vírus, a intensidade de sintoma é maior. Então a gente vê que são crianças que entram com crise de chiado no peito, desconforto respiratório severo, com baixa saturação de oxigênio e geralmente eles têm um histórico familiar de alergia, alguém na família que tem alergia respiratória.

Então a gente tem os pronto atendimentos abarrotados de crianças que estão com esses sintomas. É muito frequente, as crianças por serem mais sensíveis, elas têm uma intensidade de sintomas que é muito elevado.

Os adultos até sofrem um pouquinho com todo o comprometimento do estado geral, a obstrução nasal, essa sensação de cansaço que dá nos adultos, mas na criança é muito pior, porque principalmente pelas vias aéreas que são menores, são mais pequenas, você vê um maior grau de obstrução.

A gente vê que as crianças dormem mal, ficam cansadinhas, e acabam indo para pronto atendimento e aí é todo o transtorno na vida social dos pais, que têm que levar as crianças, esperar por longas filas, acaba atrapalhando o trabalho. É uma cadeia, é uma sequência de eventos que estão todos ligados. A essa transmissão muito fácil dos vírus entre as crianças, a quantidade grande de vírus diferentes, que elas não têm anticorpos, que portanto elas adoecem, e todo o corolário de sintomas.

Leiagora - Nesse período de baixa umidade, o que os pais, o que os adultos precisam fazer para tentar diminuir esses impactos com ações no dia-a-dia? Como isso pode ser feito?

O primeiro aspecto relacionado às crianças é que se os pais teriam uma possibilidade, principalmente com os bebês muito pequenininhos, se ele tiver uma logística em casa, para que ele fique em casa com algum adulto, com avós, com um cuidador, ou alguma coisa assim, nessa época do ano seria interessante retardar a entrada nas creches escolinhas. Isso é fundamental, porque os bem pequenininhos, abaixo de uma idade, são os que fazem as bronquiolites mais graves. E não depende de você ter anticorpos específicos, porque as crianças não têm isso, que se tem entrado em contato com esses vírus vão acabar adoecendo. E, normalmente, eles fazem sintomas mais graves. Então, o primeiro aspecto seria quem tem uma logística, uma possibilidade de deixar esses bebês muito pequenos em casa, esse seria o ideal para evitar aglomerações.

O segundo aspecto, muito importante em relação às crianças e aos idosos, principalmente, que fazem as formas mais graves, as complicadas, eles têm que tomar as vacinas, principalmente a vacina da Influenza que está disponível e também a do coronavírus. Então, isso garante que as crianças, pelo menos, aquelas formas mais graves de viroses, que é a influenza A e B, que a gente tem H1N1, H2N3, tudo fica protegido com a vacina. Então, esse aspecto, o segundo aspecto, que é você se submeter às vacinas adequadas.

O terceiro aspecto importante é que as famílias saibam que na maioria das vezes a evolução é benigna. Então é certo proteger um pouco as crianças de irem, principalmente na fase inicial, aos pronto atendimentos e upas, porque está superlotando, às vezes, com a sintomatologia mais leve. E aí, acaba piorando a situação da criança. E até está correndo o risco de pegar infecções diferentes nessas filas de pronto atendimentos e de UPAs.

Leiagora - Como averiguar se se trata de uma gripe leve ou de uma condição mais severa?

Então, tem esse bom senso, obviamente, sem negligenciar a gravidade. Os pais têm que estar atentos a isso. Não significa que não vai levar a unidade de saúde. Mas que ele tenha uma certa interpretação de gravidade, por exemplo, um desconforto respiratório mais intenso, tem que levar imediatamente. Mas se está com o nariz escorrendo, é uma história da família ou lá na escolinha, que estão todos gripadinhos, que tenha esse bom senso de saber que não tem um antibiótico para ser dado.

Leiagora - Há como prevenir essas viroses, utilizar algum tipo de remédio que melhore a imunidade de crianças?

Não tem que dar nada, nem um remédio para imunidade. São uns remédios clássicos que eles falavam ‘ah, vou dar um remédio para imunidade do meu filho’, não precisa. Não existe, porque as crianças não têm deficiência de imunidade, a realidade que se tem é uma circulação muito elevada de muitos tipos diferentes de vírus e que as crianças acabam pegando porque não têm anticorpos específicos, nunca pegaram as infecções antes.

Então é muito importante que as famílias também não gastem recursos financeiros em medicamentos que não têm efeito algum. A gente tem vários desses medicamentos que falam que, entre aspas, aumenta a imunidade, vitaminas. Não façam isso porque isso só onera a despesa da casa, da família, às vezes, desnecessariamente, às vezes, não. Certamente desnecessariamente. Esses medicamentos não aumentam a imunidade e o problema das crianças está piorando. Elas melhoram sozinhas mesmo, a própria criança produz o anticorpo. No terceiro, quarto dia já não tem mais febre, continua com o nariz escorrendo, com a tosse e tudo, que você vai manejando de acordo com as gripinhas anteriores que elas têm tido. Então, fiquem muito cuidadosos com isso.

Leiagora - Como as queimadas pioram ainda mais o cenário?

Outro aspecto importantíssimo é a consciência social, a consciência de que nós não devemos colocar fogo no quintal. A gente quer aqueles fogos domésticos que são muito frequentes dentro do perímetro urbano, dentro das cidades, que são pessoas que colocam fogo. Então esse controle maior deve ser feito. Nós devemos ser muito cuidadosos em relação a essas queimadas, que todos os anos se repete a mesma coisa e também aos métodos de prevenção também se repete, mas que a gente acaba não dominando a situação.

Leiagora - O que fazer para diminuir os impactos da baixa umidade no dia a dia?

Manter a criança num ambiente confortável em termos de umidade relativa. Por exemplo, quem dorme no ar condicionado, nessa época do ar condicionado desidrata mais ainda o ar. Então, a umidade que já é baixa, com o ar condicionado ligado, você baixa ainda mais a unidade. Então dá usar aqueles mecanismos conhecidos na tentativa de umidificação, toalha molhada, eventuais umidificadores e até com mecanismos, às vezes não necessários, é que use tecnologia. Esses domésticos mesmo, do balde com água, da toalha molhada. Sempre lembrar, principalmente na casa de idosos, lembrar para não deixar, por exemplo, alguma coisa molhada no chão, se não você sai de um problema, entra no outro. Quedas, fraturas, que ocorrem porque durante a noite alguém deixa um tapete molhado e que facilite acidentes dos idosos.

Então, em linha geral, seriam esses aspectos que seriam os preventivos para que a gente amenize um pouco essa situação que a gente não tem como dominar.

Leiagora - Podemos dizer que a baixa umidade do ar fragiliza o sistema respiratório como um todo?

Eles fragilizam a mucosa, eles fragilizam de forma que os vírus têm uma maior facilidade para ficar aderindo à via inspiratória e a partir daí invade o organismo. Aquele equilíbrio que existe nas vias respiratórias, ele quebra. Apesar de que isso não é uma condição comprovada, isso é importante, viu? Os ambientes mais úmidos e tudo, eles até facilitam ácaro e fungos e tudo mais do que a umidade baixa. E essa umidade tão baixa não tem assim uma relação causa e efeito e aumentar o número de infecções, não.

O que a baixa umidade faz é que ela desidrata as mucosas e ela pode quebrar a barreira da mucosa respiratória e aqui a gente sabe que as mucosas respiratórias tem tipo um carpete especial, né, e tem muco que recobre aquele carpete que acaba desidratando, portanto, você facilita que vírus e bactérias invadam, possam invadir e causar doença, causar adoecimento. Então essa quebra do equilíbrio que tem na mucosa, através da umidade muito baixa, ou da inalação da fumaça é que podem facilitar que os vírus e bactérias entrem, que atravessem essa barreira natural e acabem causando doença.

As doenças mais alérgicas elas facilitam, porque exatamente por essa quebra do equilíbrio que existe do sistema natural de proteção, mas que existe por dentro, o nariz.

Leiagora - Qual o melhor horário que fazer, optar por determinadas atividades físicas, o que fazer nesse caso? 

É importante a proteção do sol, né? Primeiro, que tem o problema do câncer de pele muito frequente em Mato Grosso, que a essa época o sol fica muito forte também, principalmente entre 10h da manhã e às 16h. Então, é um período que você deveria evitar exposição ao sol.

Além disso, por exemplo, principalmente no final da tarde, você tem também, a partir da manhã, você tem o problema do comprometimento da camada de ozônio, que também faz com que esses raios mais agressivos penetrem na pele da pessoa e que têm aquelas lesões de pele que são mais, que são associadas com os raios de ultravioleta ruins. Então, tem que tomar cuidado que até isso influencia, a camada de ozônio tem maior ou menor permeabilidade desses raios.

O segundo é que a umidade cai mais a partir das 9h da manhã até o final da tarde. Então as atividades físicas fiquem mais restritas logo no início da manhã. E nas crianças e tudo evitava que faça atividades muito cansativas nesse período da tarde em galpões fechados e tudo que tanto facilita a transmissão de vírus como também um desgaste maior e risco de desidratação nas pequenininhas e dos idosos. 
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