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Notícias / Entrevista da Semana

23/07/2023 às 08:15

FOTOGRAFIA TRISTE

Na França, pesquisadora apresenta retrato da cultura machista na política de MT

Jornalista fez três recortes de situações de machismo contra mulheres no cenário político-partidário

Jardel P. Arruda

Na França, pesquisadora apresenta retrato da cultura machista na política de MT

Foto: Jardel P. Arruda / Montagem Leiagora

A jornalista e pesquisadora Júlia Munhoz levou aos olhos de pesquisadores do mundo uma fotografia do cenário que as mulheres enfrentam na política de Mato Grosso, durante uma sessão do grupo de Política e Comunicação da Associação Internacional para Pesquisa em Mídia e Comunicação (IAMCR), realizado na cidade de Lyon, França, no dia 13 de julho.

O artigo, intitulado “Mulheres na política partidária em Mato Grosso e a cultura do machismo”, é um recorte preliminar da pesquisa de doutorado dela, no Programa de Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO) da UFMT em Cuiabá, e mostra, em três recortes, o silenciamento feminino através da violência praticada por homens.

E esse comportamento machista não é exclusividade de uma única corrente ideológica, mas sim de todas e representa um comportamento cultural e não apenas de uma matiz ideológica.

O Leiagora conversou com Júlia para saber um pouco sobre o artigo apresentado em Lyon e o que a pesquisa dela mostra sobre Mato Grosso. 

Confira abaixo a entrevista completa:

LeiagoraJúlia, você acabou de voltar da França agora, teve oportunidade de participar do Congresso da Associação Internacional para Pesquisa em Mídia e Comunicação, e eu gostaria que você compartilhasse um pouquinho dessa experiência que foi levar a sua pesquisa de doutorando daqui de Mato Grosso para o exterior.

Júlia Munhoz - Estou iniciando meu doutorado no programa de Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso e no final do ano passado eu submeti um recorte da minha pesquisa. Como está inicial ainda, em andamento, fiz um recorte do que eu tô pesquisando, que é como a cultura política eleitoral conforma a presença das mulheres em Mato Grosso.

Então eu fiz uma análise inicial, bem preliminar, e fiz a submissão para para esse evento que é um Congresso Internacional da IAMCR que é Associação Internacional para Pesquisa em Mídia e Comunicação, que é a organização profissional mundial é mais atuante na nossa área de mídia de comunicação.

Essa análise foi aprovada e aí junto com pesquisadores do mundo todo, inclusive de Mato Grosso e do Brasil, tem vários pesquisadores no Brasil que participam também, eu estive na cidade de Lyon, na França, agora no mês de julho, apresentando essa análise Inicial.

Nesse primeiro recorte, eu trago um contexto do que é Mato Grosso, esse estado rico na produção do agronegócio do milho, do algodão, mas que em contrapartida é um estado que escancara um índice altíssimo de feminicídios, de mulheres mortas pela condição de ser mulher. Então trago essa contextualização do estado e faço uma análise inicial de três momentos distintos em analogia na política mato-grossense, sobre uma presença de mulheres de partidos de diferentes matizes ideológicas, seja de centro, esquerda, extrema esquerda e direita.

E em meio a essa análise, isso é uma coisa que eu já pude identificar é que muito do que os partidos escrevem nos estatutos não se aplica na prática, por exemplo.
 

Leiagora Fica tudo no campo teórico?

Júlia Munhoz - Sim. Hoje nós temos 31 partidos no Brasil e essa miscelânea partidária abre esse vácuo, deixa esse vácuo que existe entre o que tá escrito nos estatutos para a prática. Alguns estatutos fazem até referência à presença das mulheres, alguns estatutos estabelecem punições para  membros [que pratiquem violência contra mulheres], mas isso não se aplica. 

Outro fator que eu já identifiquei inicialmente é que, considerando os estatutos dos partidos, desses 31, nós não temos hoje no Brasil um partido de matiz ideológico de extrema direita como se imagina. Hoje, nós temos membros de um movimento e aí eu dominei isso nessa análise inicial que é um movimento bolsonarista de extrema direita, que são líderes políticos que são influenciados obviamente pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e que eles estão espalhados nessa miscelânea partidária de partidos que vão desde centro, passando pela centro-direita e direita.    

Então você não tem hoje um partido de extrema direita. E a gente vê isso na prática, se a gente for contextualizar, o problema que o PL enfrenta internamente: um partido que hoje, no discurso o presidente Valdemar Costa Neto, fala que é de extrema direita, mas é um partido que historicamente atuou como centrão e internamente a gente já vê os membros enfrentando esse embate entre votar a favor ou contra [projetos do interesse da gestão do presidente Lula]. Enfim, então essa é a análise inicial, mas voltada, lógico, para o contexto da condução das mulheres. 


LeiagoraEntão não tem um partido de extrema-direita, mas existe um movimento?

Júlia Munhoz - Então, é um movimento que na minha análise o que eu nomeei. Tenho filósofos pragmatista que utilizo nas minhas pesquisas e um deles, que atravessa essa ideia da essência e da existência, que é o John Dewey, ele fala que por nomes e também por valores. 

Então como eu faço essa análise de entender quais valores são acionados, quais valores são defendidos, eu fiz essa nominação, porque esses homens que transitam em todos esses partidos de hoje, seja Mato Grosso ou no Brasil, eles seguem os valores defendidos pelo líder que é o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Só que essa questão do machismo também é preciso que fique claro, que ela não é restrita só a partidos de centro, centro-direita, não. Tem partidos de centro e centro-esquerda também em que os homens evidenciam esse preconceito e esse machismo em relação à presença das mulheres. 


LeiagoraPode dar um exemplo?

Júlia Munhoz - O próprio MDB. Nós tivemos um caso, e aí quando eu faço a análise do recorte dos três momentos, eu peguei três momentos dentro da história de Mato Grosso. Um primeiro momento que é muito emblemático e até hoje é conhecido é "você é uma excelente candidata, apesar de ser mulher", que foi no embate na  TV Vila Real, entre a Gisela Simona e o Abílio Brunini.

Ela, do Podemos na época, ele eu não recordo agora qual partido dele porque ele já mudou de partido, mas ele é um dos líderes desse movimento bolsonarista de extrema direita. Isso é evidente. Ele não segue o partido, ele segue o movimento e os valores da ideologia dele.    

Além desse recorte, eu trago um outro recorte que daí tem um político do MDB que é um político que transita mais para centro, centro-esquerda, que é aquele episódio de "uma menina histérica", que foi aquele episódio entre presidente da Câmara de Cuiabá, na época o vereador Juca do Guaraná, e a vereadora Michelly Alencar. Ela hoje é do União Brasil, era Democratas, e ela tem uma postura que ela pessoalmente se diz defender valores da direita, mas ela tá em partido, teoricamente, de centro e que tem líderes da extrema direita também, que o União Brasil. E o Juca do Guaraná, depois se desculpou, mas a gente vê os valores acionados quando você faz essas aproximações. 


LeiagoraE é uma coisa clássica, associar a mulher à histeria, não é? Um clássico do machismo.

Júlia Munhoz - É um clássico do machismo. Não fazendo a defesa do movimento bolsonarista de extrema direita, mas eu não posso ignorar o fato de que isso não se restringe só esse perfil de líder político. E o terceiro momento é o mais recente, que esse também foi encabeçado por um líder também do movimento bolsonarista de extrema direita, que assim como o Abílio, ele também se identifica como o bolsonarista raiz, que é o caso deputado estadual Gilberto Cattani, que comparou as mulheres grávidas às vacas.

E você vê assim a forma como os membros de integrantes de outras siglas partidárias, inclusive mulheres, não olham para esse contexto do matiz ideológico do partido. Por exemplo, o PL não se manifestou. Quer dizer, é contra o que tá previsto no estatuto do partido, mas mesmo assim se calou. A gente diz popularmente, "passou pano", né?! Então eu trago esses três momentos em analogia e isso evidencia é que nesse primeiro momento que esse movimento bolsonarista de extrema direita está espalhado em várias siglas.

E também evidencia como emergem esses valores e como os partidos que são controlados majoritariamente por homens conformam a presença das mulheres. Como as mulheres são caladas não só ao longo da história passada, mas na história presente também. 


LeiagoraVocê citou que somos um estado com alto índice de feminicídio. Sei que ainda está em fase inicial de pesquisa, mas dá para afirmar que Mato Grosso, assim como ele é violento com as mulheres no dia a dia, ele é violento com as mulheres no cenário político também? 

Júlia Munhoz - Sim. Dá, sim. Volto a dizer e afirmar que ainda é muito inicial, a gente sabe que uma pesquisa de doutoramento leva quatro anos e muita coisa pode acontecer, inclusive nesse meio do caminho, eu vou pegar alguns processos eleitorais. Mas a gente pode dizer que não só Mato Grosso, o Brasil tem um contexto de violência política assim em relação às mulheres, tanto que é necessário e foi necessário se estabelecer normas, leis e regras para punir esse tipo de violência. O grande problema no caso da violência política, porque tem a violência política eleitoral e tem a violência política de gênero, que teve que se estabelecer uma lei para punir. Porque as pessoas não entendiam que aquilo era um crime, que aquilo era errado, que é um discurso violento contra uma mulher reverbera e influencia outras pessoas. 


LeiagoraQuando você fala de uma lei específica, fala de qual?

Júlia Munhoz - Isso foi uma análise que eu fiz também de um recorte da minha pesquisa inicial, mas também para o meu artigo final da faculdade de Direito, como eu precisava fazer essa aproximação com a lei, é a Lei da Violência Política de Gênero, que ela teve que ser estabelecida no Brasil. 

O grande problema é que diferente de uma violência física, a violência política de gênero muitas vezes ela está no discurso e as pessoas culturalmente entendem como violência, no sentido bem raso do contexto, como se fosse um tapa, um soco, e não entendem às vezes um discurso como violento. A gente tem um exemplo do Cattani, né? Que ele não só comparam mulheres com gestantes com vacas, como ele debochou disso por mais de uma vez. E esse tipo de discurso violento machista, ele influencia outras pessoas. Principalmente vendo de lideranças políticas.

Então não é só Mato Grosso. Acho que Mato Grosso a gente destaca por conta dos índices de feminicídio, infelizmente, que são tristes e alarmantes. Mas é uma cultura da política brasileira. 


LeiagoraVocê vê uma perspectiva de mudança?

Júlia Munhoz - Olha eu gosto de ser otimista, né? Acredito que mude, já mudou muito, já evoluiu muito, mas tem muita coisa para evoluir e mudar e eu acredito que possa vir a mudar sim, com as próximas gerações. 

Mas é um contexto que ele não passa só. Essa semana eu fui questionada assim: "o que você acha que deveria mudar? Você acha que deveria se estabelecer mais leis ou não são necessariamente mais leis? Você acha que tem que mudar a regra dos estatutos?". Eu penso assim, que talvez fazer valer o que tem de forma justa, né e mudar mais a cultura. Porque isso passa muito pela nossa cultura. Nós passamos por um processo de reconstrução cultural muito grande todos os dias. Eu venho de uma geração que até outro dia certo comportamentos eraM considerados naturais e hoje são mais.

Então, eu acredito, sim, que há uma perspectiva de mudança a partir do momento que as novas gerações venham já com esse contexto cultural mais alargado, de mais  respeito, de mais participação, de mais igualdade.

É difícil hoje você falar em democracia quando 52% do eleitorado feminino não não significa ser 52% da representatividade, nas legislaturas, no Congresso, nas Assembleias, nas Câmaras. Então é como que você fala em democracia se ela na prática, lá na ponta, não se aplica necessariamente. Então é muito complicado isso. Mas eu quero ser otimista. Eu quero acreditar que tem uma perspectiva de melhora. Não sei se tão breve, mas quem sabe. A gente tenta, né?
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