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Notícias / Entrevista da Semana

20/11/2020 às 15:44

20 de novembro: 'É a luta antirracista que traz a consciência negra que vai além de tom de pele e etnia'

Maria Clara Cabral

20 de novembro: 'É a luta antirracista que traz a consciência negra que vai além de tom de pele e etnia'

Foto: Marcela Bonfim/Agência Pública

Relativizar o racismo, relativizar uma data que aborda a consciênica negra, relativizar a violência contra os negros, não se pode mais aceitar. Existem datas para comemorar os heróis de todos os povos, e por quê não comemorar também os heróis da população que é maioria no país, mas é invisibilizada?

"A data é para celebrar o reconhecimento da importância do povo negro que não é só é invisibilizado, como sofre todos os tipos de violência no seu cotidiano". Assim descreve a data Antonieta Luísa Costa, presidente do Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso (Imune). 

O Leiagora fez uma entrevista com Nieta para saber como a população negra tem ocupado seu espaço, a relevância história destes povos para o a formação do país e do estado e a importância da luta antirracista para a consciência negra. 


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Veja íntegra da entrevista

LEIAGORA  Dia da Consciência Negra em 2020 e a gente ainda vê discursos relativizando a importância da data. Para que ela serve nos dias hoje?

Nieta 
– O 20 de novembro é um dia de reflexão das lutas. De pensar sobre como estamos, o que alcançamos, o que precisamos, quais as mudanças pretendemos fazer, o que é melhor para a comunidade. O 20 de novembro foi instituído para que nós tivéssemos, primeiro, ter uma referência negra. Celebramos os feriados e heróis de todos os povos. Somos a maioria nesse país, nesse estado, nesse município, precisamos de representatividade. A data é para celebrar o reconhecimento da importância do povo negro que não só é invisibilizado, como sofre todos os tipos de violência no seu cotidiano. É o momento de aquilombar. De criar estratégias de existência, celebrar a fé, a união, de dizer sim às nossas pautas, lutas e ações afirmativas. Dizer não ao racismo, a intolerância, a falta de políticas públicas. Não é só uma data, mas uma data de resistência e de esperança de um mundo sem discriminação e opressão, onde nós negros e negras possamos sair a qualquer momento com nosso cabelo black power, nossa pele escura, nosso modo de ver a vida, sem corrermos o risco de ser assassinados.

A gente precisa entender por que a gente hoje precisa gritar “vidas negras importam” se todas as vidas realmente importassem? A cada 23 minutos morre um jovem negro por arma letal. Negro parado é suspeito. Precisamos a todo momento trabalhar a identidade da jovem e da menina negra, trabalhar a auto estima da criança negra. Meu corpo é um espaço que representa um alvo. Por que não tem branco gritando “vidas brancas importam”? Vamos fazer essa reflexão.


LEIAGORA – Como a população negra integra a formação histórica de identidade regional. Você acha que Mato Grosso vem conseguindo reconhecer essa identidade cultural?

Nieta: Contribuímos em absolutamente tudo que compõe a cultura de Cuiabá e Mato Grosso. A gastronomia, a música, as manifestações do siriri e cururu são frutos de resistência do povo negro. A nossa contribuição é evidente, mas a gente ainda precisa chamar atenção para o pequeno produtor, o ribeirinho que produz sua viola de cocho, sua argila, as mulheres rendeiras, as doceiras, para a cultura nas comunidades, que não são grupos famosos e precisam ser estimuladas. É ali que está grande parte da população negra, que precisa ser respeitada e o respeito se dá com inclusão. Somos nós quem fazemos a roda girar. Somos os trabalhadores e trabalhadoras que atuam na ponta. Precisamos valer a Constituição de 1988 que diz que somos iguais perante a lei, mas essa política de igualdade nunca chega.


LEIAGORA  É uma data que nos faz refletir sobre o lugar da população negra ocupa sociedade. Quais espaços ainda são hostis e quais estão sendo ocupados?

Nieta
– Ocupar os espaços ainda é um desafio para a comunidade negra em todo Mato Grosso. Os espaços que temos ocupado que tem dado resultados, mas também sofrem ameaças, são os conselhos municipais e estaduais, onde conseguimos colocar nossas propostas e tentar fazer com que elas sejam efetivadas. Foi assim que a gente conseguiu aprovar a normativa da educação quilombola, da educação para imigrantes, da educação para jovens e adultos, do pessoal com deficiências, todas que demandam grupos sociais. Todos os avanços que conseguimos dentro do estado não foi nos espaços de poder, porque tivemos apenas uma vice-prefeita. Nas secretarias não basta ser negra e mulher, tem que vir para a luta. A deficiência nesses espaços de poder é muito pouco.

Leiagora
 – A gente acabou de sair de uma eleição municipal né. Qual o saldo dos resultados?

Nieta – Conseguimos avançar. Elegemos vereadoras negras em Sinop, Cáceres e em Cuiabá. A linguagem da comunidade, o clamor e a voz da comunidade vai começar a ecoar nas câmaras de vereadores com a presença dessas mulheres, mesmo que de forma tímida. Temos que fazer muitas reflexões, por que não votamos em mulheres? Por que não confiamos nas mulheres? A gente sabe que é fruto do machismo, do racismo estrutural, que a gente nasceu com ele, mas nós não podemos aceitar. Esse espaço também é nosso, que não foi criado pra gente, mas a gente pode assumir. É isso que a gente chama atenção quando o IMUNE discute mulheres no sistema político. O filho do governador é criado para ser governador e o filho do prefeito é criado para ser prefeito. E o filho do trabalhador?

LEIAGORA – O que a luta antirracista significa para o desenvolvimento do estado e do país?

Nieta
 – É interessante a gente falar isso porque quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela. Nós quem fazemos a economia acontecer. Precisamos entender que a luta antirracista traz a consciência de que saímos de pano de fundo para construir a nossa própria história e o empoderamento. A luta antirrascista também traz o processo de resistência dos povos, e resistência pra gente é vida, precisamos permanecer vivos. Não é uma luta contra as pessoas, contra o meu irmão branco, é uma luta contra as pessoas racistas, e a maioria são brancas. A gente tem que entender o que é a luta antirrascista. Não é dividir os povos como tentam colocar. Precisamos sair da zona de conforto de ficar reproduzindo discurso. Vamos entender o que é privilegio, branquitude, ancestralidade. É a luta antirracista que traz a consciência negra que perpassa o tom de pele e etnia. É o traz a memória de quem morreu na luta.

A igualdade pra gente é um sonho muito distante, mas por hora a gente fica com a luta por direitos. Não somos iguais e viva a diferente. Mesmo eu mulher preta sou diferente da minha irmã quilombola. Precisamos parar com esse ‘mimimi’ racista, vago, sem conteúdo e perverso.

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